15 Jul 2022 a 17 Jul 2022

“Como se nem fosse milagre” MEO Marés Vivas

“Como se nem fosse milagre” MEO Marés Vivas

“Como se nem fosse milagre”, tal como cantou Miguel Araújo no primeiro dia do festival, o MEO Marés Vivas voltou e realizou-se num novo espaço. O antigo parque de campismo da Madalena recebeu o festival durante os dias 15, 16 e 17 de julho num recinto bem mais amplo que o das edições anteriores. Para além dos habituais palco principal e secundário, houve ainda um palco exclusivo para a Orquestra Bamba Social animar as 3 noites do festival com a sua roda de samba.

Dia 15 – Shine a Light para o Bryan Adams e não só

No gigante manto de relva sintética junto ao palco principal foi possível aproveitar o bom tempo ao som das duas bandas britânicas The K’s e Maxïmo Park. Os The K’s, vindos de Manchester, incluíram no concerto o seu Hometown que aborda os desafios do dia a dia britânico. Têm um estilo de rock que junta a voz, as guitarras e o baixo, com o som de uma bateria energética. Começaram em 2016 e fizeram sucesso com o seu Sarajevo que também tocaram na sexta-feira. Querem ter um estilo inconfundível no seu género que descrevem como uma mistura eclética de “punk, rock, indie e pop”. Não podemos afirmar que já o têm, mas estão certamente no bom caminho. Seguiram-se os Maxïmo Park que começaram em 2003 ainda sem o atual vocalista, mas Paul Smith é um elemento-chave no seu sucesso. No concerto incluíram temas do seu último álbum de 2021 Nature Always Wins e algumas referências de álbuns mais antigos.

Miguel Araújo é um sucesso ao nível de músicas portuguesas para saber cantar. Trouxe muitos temas já produzidos a partir de 2020, mas que o público já os sabe de cor e cantou-os a plenos pulmões. Como foi o caso do Dia da Procissão do álbum Chá lá lá editado em março deste ano, que é já o seu sexto disco de originais. O concerto incluiu também temas como a Balada Astral do álbum Crónicas Da Cidade Grande de 2014. Do alinhamento fez também parte o tema Os maridos dos outras do seu álbum Cinco dias e meio com o qual se estreou em 2012. O músico integrou Os Azeitonas até janeiro de 2017, altura em se dedicou totalmente à sua carreira a solo. Dos Azeitonas cantou o tema Anda comigo ver os aviões, um dos maiores sucessos da banda, e que não esteve muito longe da verdade para quem esteve no parque porque era possível ver os aviões ainda na sua subida junto ao lado esquerdo do palco.

Seguiram-se os James, e o vocalista Tim Booth começou com um “olá tudo bem?”, mas como diria o nosso Noiserv Don’t Say Hi If You Don’t Have Time For a Nice Goodbye” e não foi o caso. Num festival de luzes e enquanto Tim dançava de forma despretensiosa, a banda tocou várias músicas do seu álbum All the colours of you de 2021. Pelo meio o vocalista deixou alguns comentários sobre o uso excessivo do telemóvel nos concertos, alertando que não conseguiria chegar até às pessoas se elas estivessem presas ao telemóvel. E falou ainda de outros temas como da canção Beautiful Beaches sobre os incêndios na Califórnia e apelando num português quase perfeito para “acabarem com essa M*RD*” referindo-se também aos incêndios que afetam Portugal todos os anos.

Bryan Adams veio a seguir e parece ter vindo agitar os corpos que estiveram mais parados desde a pandemia, sobretudo os que se lembravam de dançar ao som do músico canadense que iniciou a sua carreira em 1977. Intercalados entre as baladas românticas, como o clássico Please forgive me, e os ritmos que põem todos a mexer, como It’s Only Love, que gravou com Tina Turner. Com Shine a light do álbum homónimo de 2019 criou o efeito luminoso de cerca de 30 000 pessoas a mexer o seu telemóvel iluminado.

Dia 16 – Vozes femininas, devíamos todos provar cachupa e foi o dia de Maluma

O segundo dia ficou marcado por um público mais jovem, com roupas mais irreverentes e com muita vontade (talvez demasiada) de conseguir a selfie perfeita. A primeira atuação do dia foi a da Rita Laranjeira no palco secundário. A Rita tem apenas 17 anos, mas estuda música desde pequena e tem estado ligada a vários projetos musicais sendo mais conhecida pela sua participação no The Voice Portugal. Editou este ano o seu primeiro single Jump, que apresentou durante o concerto, e fez-se acompanhar por um conjunto de bailarinos que animaram o público, agradavelmente surpreendido pela sua energia e profissionalismo em palco.

Fer Ramos, igualmente novo de idade e nos palcos, diz ter sofrido bullying pela sua voz não se enquadrar no padrão de uma voz masculina. Na sua atuação fez-se valer do seu estilo próprio e do grupo de bailarinos que também o acompanharam num espetáculo onde fez soar a sua voz e deixou a vontade de ouvir mais.

Rita Rocha, foi a primeira a atuar no palco principal no sábado, onde cantou o seu single de estreia Mais ou menos isto e encantou ao tocar harpa numa cover de Dog days are over dos Florence + The Machine. Estava nervosa por ser o seu primeiro “grande” concerto e pelo facto de, no espaço de um ano, ter passado das cantorias no chuveiro para estar à frente do palco principal de um festival. Teve também a participação da sua mentora, Bárbara Tinoco, do The voice kids, programa da RTP que a deu a conhecer.

Bárbara Tinoco voltou ao palco para o seu próprio espetáculo no qual surpreendeu ao andar de skate e pediu aos fãs em tom de brincadeira que a partir de agora lhe tragam um bolinho em troca de um autógrafo. Ao longo do concerto cantou algumas das suas canções mais famosas como o Sei lá e o Antes dela dizer que sim, e teve ainda tempo de explicar que a sua música Advogado que canta em dueto com o Carlão foi inspirada no famoso (para alguns) anúncio do “não me olhes assim que não penso dar-te”. Houve ainda espaço para apresentar a sua música mais recente Chamada não atendida.

Dino d’Santiago veio provar que uma única pessoa em palco consegue passar a sua energia, as suas mensagens e animar uma multidão inteira que aguardava por Maluma. Dino nasceu em Portugal e é filho de pais cabo-verdianos. Tem muito orgulho nas suas raízes e luta pela inclusão e valorização das diferentes culturas e a sua não discriminação, porque infelizmente “nem todos os tugas são considerados lusos”. Estas são temáticas comuns entre as suas músicas. Foi possível ouvir também o seu tema Esquinas produzido com Slow J do álbum Badiu de 2021. O público foi ao rubro com o Loukura, fruto da sua parceria com o DJ e produtor Branko. Falou ainda da importância de não sermos personagens secundárias da nossa vida, sermos a personagem principal e “apenas ser”. Uma das analogias que usou foi a de que a feijoada, as tripas à moda do Porto e a cachupa podem conviver na mesma cultura. Fez ainda uma homenagem às mulheres da sua vida com Badia, também do álbum do ano passado, em que se aborda o sofrimento das mulheres e das pressões sociais como as “estrias e celulite”: “Ninguém quer saber o que insinuas ou porque amas. És só um objeto, não queremos saber das tuas luas. Mulheres só valem nuas, dizem as nossas mentes turvas”. Terminando com Kriolu do seu trabalho com Julinho KSD no ritmo certo para o concerto de Maluma que se seguiu.

O colombiano Maluma chegou um pouco atrasado, mas começou o seu espetáculo no seu tom um pouco excêntrico, mas muito aguardado por todos. Começou com a música Hawái uma das mais conhecidas e que o público cantou de cor sem hesitar ainda antes de Maluma cantar. Um dos pontos menos positivos do seu espetáculo foi a objetificação das dançarinas que o acompanham, sendo algo bem visto à luz da cultura da Colômbia, mas que contrasta com a mensagem que Dino tinha acabado de deixar, e com os restantes concertos nos quais o papel da mulher é participativo e não submisso, seja a dançar ou a cantar.

De qualquer forma o cantor colombiano não desiludiu, tocou todas as mais esperadas, como Felices los 4 e Chantajeque é de um dueto seu com Shakira, mas que interpretou com uma das cantoras do coro que o acompanhou.

Houve ainda tempo para uma pequena euforia futebolística quando o cantor falou dos seus amigos futebolistas, que o cantor interrompeu porque era um “concerto e não um estádio de futebol”.

O público dançou animadamente durante todo o espetáculo. E o concerto terminou conforme começou com o tema Hawái do seu álbum Papi Juancho composto por 22 canções.

Dia 17 – Anitta vai ao Marés Vivas

O primeiro de todos os concertos do terceiro e último dia foi o de Beatriz Rosário, no placo secundário, que mistura a música eletrónica com o fado. O concerto começou com o seu Obras de Deus do seu EP Rosário. Também interpretou a Canção Do Mar um clássico de Amália de 1955, popularizado pela Dulce Pontes e o seu single do EP de 2021 Ficamos por aqui. Ainda houve tempo para um momento apenas com os músicos que acompanham a Beatriz, incluindo o som da guitarra portuguesa, onde se ouviu uma declamação com algumas considerações sobre aquilo que é o fado e as regras a que tem, ou não tem, que obedecer.

No que toca ao fado, a moda das tranças pretas, do fado de Vicente da Câmara e conhecido também pela interpretação dos Fado em Si Bemol, chegou sem dúvida a este festival. Esta que foi a imagem de marca da Maro na sua participação no festival da canção, que a tornou mais conhecida do grande público, apesar da sua carreira musical já ter começado em 2018. Maro tem já cinco álbuns e um EP e falámos sobre ela aqui em 2019. No entanto, veio com o seu cabelo solto habitual e a sua voz roucamente bonita, transformou o fim de tarde num momento extremamente relaxante e contemplativo. Foi o concerto certo à hora certa ou nas palavras da Maro “tudo incrível, com jolas na mão”. Ainda que grande parte do público tenha vindo pela Anitta, a cantora foi muito aclamada e acarinhada pela plateia que a acompanhou em vários temas como em Am I not enough for now? do álbum Like we’re wired, e trouxe a sua amiga e cantora Milhanas para a acompanhar na canção “Juro que vi flores” e em Saudade saudade, música que apresentou no festival da canção.

Maro convidou o público a desfrutar dos concertos, que continuaram com um Diogo Piçarra que se fez acompanhar por um conjunto de bailarinos que complementou o seu estilo de animar o público. Diogo tem garra para dar vida aos sucessos que a sua carreira já inclui como o Trevo (Tu) da sua colaboração com a dupla brasileira Anavitória, Anjosque gravou com Carolina Deslandes ou História do álbum do=s de 2017. O final do concerto incluiu ainda a participação de Bispo para juntos cantarem o tema Dialeto.

Jessie J foi quem se seguiu. Para além da sua voz estonteante, começou com “Bang Bang” e todo o espetáculo de luz e cores deu destaque à sua sensacional atuação. Este tema faz parte do terceiro álbum Sweet Talker da cantora e compositora britânica, lançado em 2014. Alguns dos seus temas falam sobre direitos e empoderamento como o tema Queen do álbum R.O.S.E. Jessie conversou com o público durante o concerto tentando criar uma ligação com os seus fãs, o que deu uma dinâmica diferente ao espetáculo face aos outros artistas do festival. Tal como os James, falou ainda da questão do uso telemóvel e de que preferia olhar para uma cara do que para um Samsung. O espetáculo terminou com o tema Domino, do seu álbum de estreia Who You Are, editado em 2011.

Por fim Anitta, depois da sua passagem pelo Rock in Rio Lisboa, veio para mostrar o seu “show das poderosas”, em performances altamente eróticas e vibrantes, que deixaram o público ao rubro. O concerto durou bem mais do que os das noites anteriores, contando com os vários sucessos da cantora, que “incendiaram” a plateia. Anitta fez questão de usar a bandeira de Portugal desfazendo assim a pequena polémica do Rock in Rio Lisboa, cuja reportagem do concerto também podem ler aqui.

Anitta conta com o primeiro e único recorde do Guiness de uma artista latina a solo na lista geral das músicas mais reproduzidas no Spotify, com o seu tema Envolver, álbum Versions of Me, lançado já este ano. Na conferência de imprensa que deu após o concerto, realçou que tem noção do impacto que têm as suas ideias e opiniões que partilha nas redes, tendo comentado a situação política no Brasil, sem querer dar tempo de antena a ninguém, e dizendo que lhe faria mais sentido um partido que lute por alguns direitos da comunidade LGBTQ+, por exemplo. No entanto, refere que o importante é pelo menos conseguirem conquistar, agora, um ponto de liberdade para que mais tarde possam lutar por outros direitos. Anitta está há 1 mês em digressão pela Europa e diz que agora vai mesmo descansar “ver filmes e estar com a sua família”. Agradece o carinho e o apoio de Portugal e que foi isso que a fez querer atuar neste dia mesmo tendo que levar soro antes de entrar em palco.

Anitta pode ser amada por uns, e incompreendida por outros, mas é sem dúvida um fenómeno de popularidade, que procura de uma forma inclusiva e, que para muitos pode ser controversa, expressar a liberdade a vários níveis.

Fotos: Rui Bandeira / Organização MEO Marés Vivas


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