Para o ano há mais! Balanço do 5.º dia do Vodafone Paredes de Coura

Para o ano há mais! Balanço do 5.º dia do Vodafone Paredes de Coura

Segundo a organização, esta 28.ª edição foi a mais dispendiosa de sempre e das mais lucrativas. Num total de 5 dias, passaram cerca de 115 mil pessoas pelo recinto. A enchente fez-se notar, mas a ânsia por música a ser feita ao vivo também.

Apesar de ao longo deste hiato festivaleiro não termos resistido a visitar esta paisagem idílica: só agora pudemos matar saudades a sério do Festival Vodafone Paredes de Coura e de toda a sua envolvência. Sendo incansável afirmar, que a música apenas faz parte de 50% desta experiência campestre a norte, mas cada vez mais a balança tombará a seu favor. Os outros 50%, ainda, se dividem entre as tardes na margem do rio Coura, o convívio no campismo (que teve o maior número de sempre, tendo sido contabilizados 16 mil campistas) e a atmosfera circundante da boa gente que a vila de Paredes de Coura possui. É uma espécie de segunda casa há quase 30 anos, e é crucial que num mundo cada vez mais digitalizado, esta essência nunca se perca.

Deus no céu e Manel Cruz na terra!

Torna-se impossível resistir a clichés com um músico tão completo e verdadeiro como Manel Cruz. Este homem, já nos resgatou a saúde mental em plena pandemia, fez-nos rir tanto (a sul) há bem pouco tempo e no primeiro dia deste festival esteve cá com os Pluto, num concerto soberbo).

Desta vez, antes de o encontrarmos no palco Vodafone.FM, presenteou-nos com a sua boa disposição nortenha nas Vodafone Music Sessions, na Capela Nossa Senhora da Purificação, em Formariz. Agora, a peripécia maior, entre uma mão cheia de canções, foi ver Deus Nosso Senhor Cruz a interromper a atuação para comandar, verbalmente, um drone para bem longe (visto o barulho ensurdecedor do mesmo, estar a interferir com as suas cantigas). Sempre dono de uma personalidade honesta, bruta e sincera: é impossível não gostar deste homem. E já no recinto, deliciou-nos com mais um concerto típico da sua figura.

Palco errado para norte-americanos…

Tem sido recorrente, a constatação de que a massa humana, que Coura acha que pode suportar, já não permite estar de forma confortável em concertos no palco secundário. Este facto, voltou a ser constatável em Perfume Genius e Yves Tumor & Its Band. Apesar de se inserirem em géneros diferentes (o primeiro insere-se mais no art/barroque pop e indie rock; enquanto que o segundo, já se debruça mais no rock experimental e eletrónico), foram autores do que seriam os melhores concertos do dia, não fosse terem sido colocados no palco Vodafone.FM onde da régie para traz e com tamanha enchente, o som já não passa com uma qualidade aceitável. Mesmo assim, é obrigatório parabenizar estes estadunidenses pelas atuação tão vigorosas e de uma entrega total entre eles e o público.

Princess Nokia podia ter trocado de palco com um dos seus compatriotas, visto que nos fez esperar quase 20 minutos para entrar em palco, enquanto nos entretinha com um DJ que passou de Barbie Girl a Sandstorm. Nada contra estes “clássicos” e este tipo de abordagem já é típico dos norte-americanos do emo trap e do trip hop, mas gostaríamos de ver esta presença feminina a solo a demarcar-se mais tempo na sua atuação. Se bem que os fãs não se mostraram na sua totalidade incomodados e valeram-lhe fortes aplausos durante a mesma.

Por sua vez, Slowthai, um dos cabeças de cartaz da noite, teve uma ovação maior ainda. Este senhor do grime e hip hop político conseguiu demarcar-se mais positivamente que o seu antecessor Skepta em 2018 ou mesmo Freddie Gibbs & Malib em 2019. Sozinho em palco e com as luzes todas apontadas para si, deixou um recinto bem atento ao seu lirismo e a celebrar veementemente as colaborações que tem com James Blake e Gorillaz. E como de costume, acabou o set a passar Barbie Girl (que curiosamente ecoou no recinto duas vezes nesse dia), mas o destaque vai mesmo para a Feel Away que conseguiu ter toda a gente de lanterna e corações ao alto.

No fim, coube aos Pixies encerrarem as festividades no palco principal este ano. Esta banda que não é novata em Portugal, continua indubitavelmente com alguns fãs e há quem afirme que o dia esgotou por sua causa. Contudo, não temos a certeza se a celebração deste concerto foi uníssona ou se toda a gente só conhece a Here Comes Your Man e Where Is My Mind Mind (imortalizada pelo filme non-grato de Hollywood, Fight Club).

Para o ano, as datas marcadas para mais uns dias de ‘Couraíso’ são entre 16 e 19 de Agosto (e o Diretor, João Carvalho ainda deixa no ar alguma coisa para dia 15). Apesar do Dia da Música Portuguesater sido uma aposta ganha“, de acordo com a Conferência de Imprensa, não é provável que se volte a suceder. Mas a organização deixa no ar outro tipo de formato ou aposta para a próxima edição… Fiquem atentos!

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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Mais sobre: Manel Cruz, Perfume Genius, Pixies, Princess Nokia, Slowthai, Yves Tumor

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