16 Ago 2022 a 20 Ago 2022

A música portuguesa e o síndrome pós-traumático courense – 1.º dia de Paredes de Coura 2022

A música portuguesa e o síndrome pós-traumático courense - 1.º dia de Paredes de Coura 2022

A memória que ficou reprimida no dilúvio de 2012, veio ao de cima com os primeiros pingos de chuva do último dia no “Sobe à Vila”. Os concertos gratuitos, acabaram mesmo por ser cancelados. Instalando assim, um PTSD courense para os festivaleiros da casa, que já se tinham desabituado da possibilidade de Coura ser um festival à chuva. No dia seguinte, esta ainda se fez sentir mas não com a mesma intensidade que a música portuguesa!

Mesmo em plena pandemia, nunca abandonámos Coura e Coura nunca nos abandonou. Aquele cheirinho a festival em 2020 e 2021 neste recinto idílico, quase que deu para segurarmos as saudades até este ano. No entanto, agora é que é a sério! E mal conseguimos explicar o que é ver este espaço novamente preenchido por um mar de gente livre, leve e solta.

Devido ao crescimento do público deste festival, tornou-se insustentável (já há alguns anos) fazer o Dia de Receção ao Campista. Aquele mítico dia, que só se circulava na zona do palco secundário e custava uns meros 20 paus a quem não tivesse Passe Geral. Esses tempos já lá vão, e este ano tivemos direito a algo diferente: um primeiro arranque, inteiramente dedicado aos músicos portugueses. A maioria dos concertos consistiu numa breve apresentação de 30 minutos, que certamente servirá como catálogo musical a todos os novos fãs que queiram ver e ouvir estes artistas mais a detalhe, no futuro.

16 de Agosto começou chuvoso com os The Lemon Lovers no palco Vodafone que infelizmente não contaram com uma vasta massa humana. Já OCENPSIEA tiveram mais sorte por abrirem as hostilidades no Vodafone.FM e este ser um palco com alguma cobertura. Estes bracarenses deambulam por vários sub-géneros mas de base bem assente no jazz e no experimental. No Courage Club tiveram uma presença em palco bem mais verde do que agora, e trouxeram Mafalda BS , a voz de Isto É Água de Oceano-Mar, que foi um dos melhores discos nacionais de 2021. Esta obra conta também com a colaboração de nomes familiares como David Bruno, PZ, Gileno Santana e José Pedro Coelho (o que torna este disco ainda mais especial).

A boa disposição de quem não se importa de ver um concerto encharcado é contagiante neste recinto. Passamos o dia a ouvir “Coura molhado, Coura abençoado”! A benção maior foi mesmo ver o sol já a raiar para os Pluto, que estão de volta à estrada. Estes nortenhos de gema, entraram a pés juntos no palco principal, e deram dos concertos mais enérgicos do dia. Manel Cruz, Peixe e companhia nunca desiludem, e desta vez não foi exceção. Que o diga o pessoal da régie para a frente, que esteve freneticamente aos saltos do início ao fim. Soube a pouco, mas soube muito bem! Alguém tem é de explicar ao Manel como funciona a medição das horas, visto que voltou a suceder-se um episódio caricato de se despedir de nós e voltar (porque afinal ainda tinha tempo para mais uma canção). Mesmo assim, continua a ser o maior este homem!

O dia foi uma correria total entre palcos, e pôs de imediato à prova a resistência de qualquer membro de imprensa, como até o próprio público. Abrigados outra vez, pela estrutura do palco secundário, Giliano Boucinha (com quem ainda há bem pouco tempo nos cruzamos noutra formação) grita-nos como membro honorário dos eletrizantes Paraguaii:

Paredes de Coura vamos transformar isto numa rave!

Às 16:30h da tarde, assim foi.

Ficaram-se apenas pelo último álbum, Propeller (2021), e pelo novo single Red River, que são bastante mais poderosos ao vivo do que em disco. A adição do multi-instrumentista Rolando Ferreira, torna agora esta banda maioritariamente vimaranense, e veio romper com toda a estética eletrónica apresentada nos 3 trabalhos anteriores. Apesar de considerarmos que Kopernikus (2019), foi dos melhores álbuns nacionais desse ano e passou muito ao lado da crítica mediática. Esperamos que de futuro este país lhes comece a dar, finalmente, o reconhecimento que merecem.

Novamente no palco maior do festival (a gente já disse que isto foi uma correria back ‘n’ foward): ao ‘incógnito’ de Benjamim, não pedimos para o encontrar, mas ainda bem que o fizemos. Foi um concerto partilhado entre artista e público com muito carinho.

Já com Samuel Úria essa ternura foi ainda mais exacerbada, e deu-se um reencontro feliz para estes lados do Taboão. Este último, conseguiu quebrar a maldição dos 3o minutos e atuou 45. Cantou de pulmões bem abertos, cujo tom ecoou por este anfiteatro natural de forma magnânima. O tondolense, não atuava cá há muito, aproveitou para mostrar uma panóplia de canções de anos de carreira, que ainda não tinha tocado: como Pequeno Mundo, que foi tão acarinhada pela audiência.

“Quero tudo ao mesmo tempo…”

Este subtítulo retirado de uma canção dos “Luísa Martina” 😏 podia ser a tagline deste dia. Corremos mais uma vez para cima e lá estava Rita Vian. Com uma voz e género musical mesclados de pop-fadista, foi a única artista feminina com direito a destaque só para si. E não precisou de artifícios alguns para, num cenário sóbrio e de cor mono-tone, envolver uma plateia.

E já que estamos numa de envolver, é impossível não falar da envolvência de Claúdia Guerreiro nos Linda Martini. Há a forte possibilidade desta mulher já ter nascido com um baixo na mão… Os Linda já são banda da casa e a sua baixista é muito daquilo que precisamos na representação fora do típico espectro masculino do rock. Além disso, a substituição de Geraldes por Filho da Mãe mal se fez notar, o que significa que está a ser um sucesso. Rui Carvalho é um ótimo complemento ao trio lisboeta, e conseguiu manifestar a mesma energia e dança de guitarra catártica (tal como a restante banda faz nos seus instrumentos). Não precisa de ser temporário, contratem o gajo de vez!

Mão Morta: por essa nem o futuro esperava

O nosso coração apertou, quando momentos antes do concerto soubemos que os Mão Morta apenas tocariam o seu último trabalho discográfico. Na nossa mente só ecoava o pensamento: “Ou vai correr muito bem, ou vai ser um mega tiro no pé”. É que esta banda de culto nacional possui fortes e fervorosos fãs saudosistas, que não são propriamente os Gen X’s mais afáveis do planeta… Contudo, foi uma jogada eximiamente elaborada! A que concerto poderosíssimo assistimos. De ano para ano, o público tem-se vindo a renovar e está numa viragem já muito mais Gen Z do que millennial. Foram estes putos novos que mais se encantaram com o Bocage hardcore que é Adolfo Luxúria Canibal. Olhar para a cara de pessoas que nem 20 anos têm, e vê-los deslumbrados com a brutalidade da voz e poesia lírica de Adolfo: foi simplesmente divinal! No final, o vocalista exclama:

NÓS SOMOS OS CABRÕES DOS…MÃO MORTA – teve o público de gritar 3 vezes. E foi assim que se despediram de nós.

Um concerto perfeito, com um som ainda mais sublime do que é costume neste anfiteatro natural, o que aliás foi a norma neste primeiro dia do festival courense. E se No Fim Era Frio (2019) nos tinha conquistado em gravação, ao vivo então ainda muito mais. É notória a garra que uma banda com quase 3 décadas ainda tem. Este disco é a prova disso mesmo. Podiam ter atirado a toalha ao chão e estarem a viver de êxitos antigos, mas não. Continuam sem arredar o pé no mapa da música portuguesa. A Mão não está Morta, está mais viva que nunca.

Por falar em estar vivo… senhoras, senhores e pessoas pelo meio: Sam The Kid

Um festival que está tão habituado ao indie rock, rendeu-se completamente ao hip hop tuga. 20 anos depois da primeira atuação nas margens do Taboão, Sam the Kid regressou e deu O concerto do dia (e talvez do festival inteiro), isso já é certo afirmar. Acompanhado dos seus Orelha Negra e de uma orquestra dirigida pelo maestro Pedro Moreira, foi o único português com direito a atuar uma hora inteira no palco principal. O que tecnicamente faz dele o headliner deste dia tão preenchido e apressado.

Trouxe o pai para declamar poesia, ouvimos e vimos o seu avô no ecrã (que já sabemos que tão positivamente influenciou as rimas do neto ao longo de toda a carreira). Chamou ao palco rappers e cantores com quem colaborou ao longo dos anos em inúmeros êxitos, tal como NBC em Juventude (É Mentalidade), Mundo Segundo para Tu Não Sabes e a voz transcendente de Mala nos back vocals. Teve uma enchente em palco a perpetuar o êxtase da sua atuação. E através de uma discografia de uma vida, aprendemos muito mais sobre ele do que aqui poderíamos escrever. Ficou-nos na lembrança o refrão final da Sendo Assim, hit com que decidiu terminar a atuação e a prova viva do porquê deste melómano do hip hop se ter enquadrado tão bem aqui:

Sendo assimPra toda a gente que não facilita na escritaPra toda a gente que acredita no que faz e no que fezPra toda a gente que ouve sons mais do que uma vezQue sabe que há lá sumo naturalDiretamente da raizChelas, yeah

Bastava substituir a palavra Chelas por Coura, que não haveria 1 festivaleiro que não se identificasse com tal refrão.

A noite terminou no After Hours com mega perfomance dos nortenhos Conjunto Corona, seguidos de Conjunto Cuca Monga.

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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