6 Jul 2022 a 9 Jul 2022

A comoção calorosa do poderio femme no NOS Alive

A comoção calorosa do poderio femme no NOS Alive

No segundo dia do festival, nem foi preciso um pezinho de dança para começarmos a destilar cloreto de sódio. Com as temperaturas a oscilar entre os 37 e os 39 graus, entrámos no recinto a precisar de um bom banho, e saímos do mesmo a precisar de dois. Desfrutamos de boas surpresas pelo caminho e da confirmação da mestria vocal de Florence Welch, como grande destaque da noite!

O calor acentuado do dia, torna sempre a experiência mais intensa num festival citadino. Principalmente, quando os seus palcos secundários são maioritariamente cobertos e funcionam como uma sauna low-cost de melomania. Mesmo assim, nada disto nos deteve, e começámos o dia com Tyroliro às 17:45h no WTF Clubbing Stage. A banda foi a vencedora da 26ª edição do Festival Termómetro, cujo prémio lhes garante presença no NOS Alive, Bons Sons, Talkfest e no Gliding Barnacles.

Segundo o vocalista, Giliano Boucinha, eles são uma espécie de “pop eletrónico com pimba clássico cósmico”. Seja lá o que isto for, é a descrição perfeita para a banda! Além do disco Tu Es Brute (2020), damos particular destaque a um tema não-editado, Vinho Litro, e à participação da belíssima drag queen Morgana, no tema Quero é só fumaça! É uma pena Morgana só acompanhar esta dupla numa canção, por nós bem que acompanhava todas. Além da óbvia e tão necessária presença da comunidade queer neste evento, esta performer trouxe uma frescura e um sentimento consórcio perfeitos para este início da tarde.

Por sua vez, no palco principal, deixámo-nos surpreender por Celeste, após a abertura do mesmo por parte de Os Quatro e Meia. Como única representante, em nome próprio, de toda um comunidade pioneira do soul, não desiludiu, de todo! Debaixo de um calor abrasador, a intérprete do hit, Stop This Flame, não só não conseguiu baixar a temperatura, como ainda deixou os presentes mais em brasa! Originária dos EUA mas vinda de terras de sua majestade, a sua voz imponente e performance resfolgada, foram o suficiente para deixar o público rendido à artista.

Em contrapartida, as temperaturas seguiram-se ligeiramente mais amenas para Jorja Smith. Em 2019, atuou num palco secundário e foi soberba! Por isso, levantamos a questão do que uma mulher teria de fazer para atuar, a solo, no palco principal (que até essa data NUNCA tinha acontecido). Agora, Jorja fez parte de um quarteto de mulheres cis, que finalmente estão a fazer história no evento. Contudo, apesar de todo o romantismo que voz e melodias dela exportam, é com um aperto enorme no coração, que temos de reconhecer que pareceu, por momentos, deixar-se absorver pela dimensão do estrado que conquistou. Mais ela do que a restante banda que a acompanhou… Mesmo assim, pudemos contar com uma setlist de sonho da mítica autora de The One, que até uma cover de Stronger Than Me de Amy Winehouse, nos cantou.

Das passagens mais emotivas de Florence + The Machine por Portugal!

É impossível ignorar que no grande palco, este dia se celebrou maioritariamente no feminino. O objetivo de tantos apelos para termos mulheres ou pessoas mais femme a atuar no NOS, é mesmo para começar a normalizar a sua presença, e deixar no futuro, sequer de a celebrar. E isto, ninguém o fez melhor do que Florence Welch. Os The Machine só são uma impetuosa máquina porque Florence lhes dá: rosto, voz e sentimento.

Descalça e de vestes flamejantes (que combinam na perfeição com o seu icónico cabelo ruivo), conduziu-nos mais de uma hora, por temas de toda uma carreira de 15 anos. Com uma energia inesgotável, percorreu cada milímetro do palco, equilibrando a sua setlist entre todos os álbuns lançados até agora. Tanto estávamos de goela aberta em What Kind of Man de How Big, How Blue, How Beautiful (2015), como a ter aquele throwback de amor tóxico com Kiss with a Fist de Between Two Lungs (2010). Ou mesmo a viver de forma tão emotiva, Dream Girl Evil, do seu mais recente álbum Dance Fever (2022), cuja entoação e timbre ecoaram pelo Passeio Marítimo de Algés inteiro.

Já na icónica, Dog Days Are Over, parou a canção antes do refrão e pediu gentilmente:

Put your phones away! Look at the people next to you! Tell each other you love them, you missed them… You don’t need your phone to share this moment

Com um pedido tão simples, conseguiu envolver no espetáculo toda a plateia, até os mais distraídos e conversadores atrás. Assim que o refrão começou, foi dança, saltos e cantoria em uníssono!

Não obstante, passado alguns temas, colocou muita gente de lágrima no canto do olho antes de Never Let Go de Ceremonials (2011). Confessou-nos que durante muito tempo, optou por não a tocar, porque lhe lembrava um passado com abuso de substâncias que por momentos, ficou bastante negro na sua carreira. Acima de ser um momento bastante sentido, logrou também pelo poder catártico de apelo ao romanticismo que esta canção tem. Obviamente, nem nós resistimos à comoção e Florence acrescentou ainda, que graças ao seu público, apaixonou-se pelo hit de novo.

Seguiram-lhe outros comparsas ingleses, alt-J, a encerrar os trabalhos do dia no palco NOS. Infelizmente, estávamos demasiado vislumbrados e perdidos no concerto anterior, para lhes dar a devida atenção. Apesar de não ser a sua primeira passagem aqui, ficam sempre um bocado aquém da sua imponência digital. Principalmente em Tessellate, que é tocado meio tom ou mais abaixo da gravação original, e que só da régie para frente se viram fãs despreocupados com estas piquices (para quem a perceção do concerto é sempre muito mais extraordinária).

Porém, não se deixem levar só pela nossa opinião. O bom da magnitude de um festival assim, é a oportunidade que cada nicho musical tem em poder, ver e ouvir, mais de 30 artistas por dia. O que faz com que existam pelo menos 7 tipos de festivais diferentes dentro do mega que é o NOS Alive. O Tatanka escolheu um alinhamento bem diferente do nosso, e numa entrevista MUITO POUCO SÉRIA😂 explica porquê:

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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Mais sobre: alt-J, Celeste, Florence and the Machine, Jorja Smith, Os Quatro e Meia, Tyroliro


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