6 Jul 2022 a 9 Jul 2022

4º dia de NOS Alive – Como assim, já acabou?

4º dia de NOS Alive - Como assim, já acabou?

Uma semana após o término do NOS Alive, estivemos até agora a recuperar deste último dia. Em 2020, teríamos caminhado descalços por um fosso de legos em chamas, se isso nos desse a possibilidade de viver um grande festival assim. Mas graças aos deuses da 1ª arte, “só” tivemos de esperar dois anos com os pés ilesos. Os grandes destaques, por sua vez, vão para a reunião de uma pródiga banda tuga e não só…

Ainda com o sol a raiar bem alto, uma das primeiras distinções de 9 de julho vai para as Haim. Não só por elas, mas pela celebração que o público em Algés fez das mesmas. Estas irmãs estadunidenses, tiveram mais sorte com o horário desta edição do que na última passagem pelo Alive. Seguiram-se a Mother Mother no palco principal, e rodaram essencialmente o seu terceiro e último disco, Women in Music Pt.III (2020), que fizeram questão de promover com um enorme banner no cimo do palco. É tão de notar, tanto o entusiasmo da massa humana que as aplaudia, como o de Este Haim. A baixista, já tem fama de ser uma personagem carismática e aqui não foi exceção. Sempre a ser uma caricatura de si mesma, foi notório o quanto se diverte com isto. Talvez por se divertir tanto, ache que é melhor instrumentista do que na realidade é, mas isto já são pieguices que no contexto geral do concerto, passam completamente despercebidas.

Adivinha Quem Vol…

Não, não vamos terminar esta frase. Não podemos ceder ao cliché. Já toda a gente sabe quem voltou (a não ser que viva debaixo de uma pedra ou o calor lhe tenha derretido o tico e o teco). A Doninha esteve na área e os Da Weasel voltaram aos palcos para um (prometido) épico concerto, que os fãs há anos esperavam. Houve suor (muito), lágrimas (tantas), vozes que se perderam e saltos, muitos saltos.

Nas palavras de Carlão, formalmente conhecido nesta formação como Pacman:

CUSTOU, MAS FOI PORRA!

Era dos concertos mais aguardados de todo o evento. Não foram os Imagine Dragons que esgotaram este dia. Mas sim, o sonho de 5 putos da Margem Sul que se tornou carreira e referência nacional, ultrapassando já mais de uma década. Miguel Negretti, Carlos Nobre, João Nobre, Pedro Quaresma, Bruno Silva e Guilherme Silva, há muito que não eram: Dj Glue, Pacman, Jay-Jay Neige, Quakas, Virgul e Guillaz. Mas foi assim que se (re)trataram, no último dia deste gigante festival em Oeiras (à exceção de Carlão, cujo trauma do nome Pacman parece mesmo querer deixar no passado e Virgul que sempre manteve o stagename).

Com a noite já caída, cessamos aquela ânsia e sufoco, que foi vê-los desde 2019 confirmados para esta 14ª edição (que pareceu por momentos não acontecer, tão cedo). Passámos para os finais de 90 e inícios da primeira década 2000, com mais de 20 canções dos seus 6 álbuns. Êxito atrás de êxito, tiveram uma plateia em uníssono e com tanta ou mais pujança do que eles. Em Casa (Vem fazer de conta), ainda pensámos que Manel Cruz lhes faria companhia, visto que atuava no mesmo dia. Mas o nosso nortenho favorito, gravou a sua parte que apareceu em grande destaque nos ecrãs.

Certo, é também afirmar, que foi o primeiro de alguns concertos que se avizinhavam por este país fora. Se mantiverem este vigor, não deixarão os fãs desiludidos, com certeza.

E por falar no Manel…

Horas depois, lá esteve o homem de aparência singela, e sem banda a acompanhar: a encher um palco Heineken sem qualquer artifício. Já não nos encontrávamos desde os tempos de concertos sentados e máscaras obrigatórias. Desta vez, não precisou de nos resgatar a saúde mental, mas precisou de resgatar os 4 minutos finais (após já se ter despedido calorosamente). Sendo um veterano nestas andanças, pegou rápido em Foge Foge Bandido na Canção da Canção da Lua de 2008. E assim que ficou sem letra, improvisou o “Lalalalala” mais bonito que alguma vez cantámos juntos. Portanto, Manel a ser Manel: despachado, único e irreverente. É o maior este gajo! 😅

Phoebe Bridgers, não é do Entroncamento, mas é um fenómeno!

Já merecia ter acontecido com Stranger in the Alps em 2017, o fenómeno mundial que Phoebe Bridgers se tornou com Punisher em 2020. A casa cheia do Heineken, que cantou os temas de cor e salteado, de ambos os álbuns (e até dos EP’s), é a prova viva disso! Que noite triunfal para Phoebe em território português! Se não fossem os nossos tugas de Almada, teria sido o grande destaque do dia, sem qualquer dúvida.

A norte-americana de 27 aninhos, dá voz a toda uma geração millennial ansiosa e/ou depressiva, que tenta ser feliz na sua infelicidade. Uma geração nascida, segundo a sociologia, entre 1980 e 1995. Jovens adultos, que pouco ou nada gozaram dos tempos das “vacas gordas”, cujos tópicos da depressão e da quebra de traumas geracionais são mais importantes do que nunca. E que bom que é, termos alguém como esta artista a abordar tais assuntos de forma tão catártica, em canções que foram cantadas de coração aberto por todos como Motion Sickness, Garden Song, Funeral, Kyoto, entre tantas outras.

Uma curiosidade típica da personalidade brincalhona de Bridgers, é que o concerto começou com a música de fundo Down with the Sickness dos Disturbed, para susto de uma plateia à espera de indie e emo-folk. E terminou com um arranjo de I Know the End muito mais hardcore do que o habitual, para contrastar a plenitude da sua música, que após um concerto tão memorável, nem seria necessário.

Esperamos que tenha sido a primeira de muitas vezes em Portugal!

Uma visita que já parece mais sistémica e recorrente, é a dos Parcels. Obviamente, também levam o cunho de um dos concertos mais celebrados num palco secundário. Com uma setlist pouca mudada desde a anterior, onde apenas introduziram alguns singles do seu mais recente disco Day/Night (2021). Fizeram as delícias de um público jovem, que cantou e encantou com os australianos baseados em Berlim.

De volta ao palco principal, o dia terminou com Imagine Dragons e Two Door Cinema Club, que mais uma vez do ponto de vista curatorial, não podiam ser tão distintos. Os Imagine Dragons estiveram mais de uma hora a cantar hit atrás de hit, que são daqueles que, mesmo que não sejas fã da banda sabes de cor, porque já foste bombardeado com a sua obra “na casa, no carro e em todo o lado”. Se não souberes ou fingires que não sabes tal repertório: a legião de fãs adolescentes, seus respetivos pais e ouvintes de rádios como a Comercial (de várias faixas etárias), fazem questão de te relembrar, mais do que Dan Reynolds e companhia. Além disso, outro apontamento a fazer é todo o magnetismo sexual que Dan emana, tanto no seu físico de meme “Bro, do you even lift?“, como até ao pormenor da roupa sexualizada ao de leve, mas escolhida a dedo, pois tal, faz igualmente parte do marketing da banda (e é muito bem pago por isso).

Menos sensuais, mas igualmente concisos, estiveram os Two Door Cinema Club que apesar de ser o seu terceiro concerto aqui, foram bem menos celebrados do que as vezes anteriores e tiveram muita menos gente. Culpa dos Da Weasel, dos Imagine Dragons e do cansaço que após 4 dias de festival já não perdoa. Ou culpa do último EP Lost Songs (Found) de 2020 que já não pôs os irlandeses do Norte, novamente num pedestal como outrora.

No total dos 4 dias, o NOS Alive registou 210 mil entradas, ao que se chama um oceano e não mar de gente. Mas como assim, já acabou? Tão depressa aqui entramos, como parece que subitamente saímos. Mesmo exaustos e com uma saúde ainda a dar de si, ainda pelas sequelas pós-Covid: vamos daqui super satisfeitos e gratos, principalmente, após estes dois anos de agonia melómana. A edição para 2023, passará novamente a 3 dias e está marcada para os dias 6, 7 e 8 de julho. Marquem já na agenda!

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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Mais sobre: Da Weasel, Haim, Imagine Dragons, Manel Cruz, Mother Mother, Parcels, Phoebe Bridgers, Two Door Cinema Club


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