16 Ago 2022 a 20 Ago 2022

Opiniões divisas “pisando uvas” – 4.º dia Vodafone Paredes de Coura 2022

Opiniões divisas "pisando uvas" - 4.º dia Vodafone Paredes de Coura 2022

É verdade que a curadoria do quarto do dia do festival foi a muitos géneros e sub-géneros deixando toda uma plateia dividida mas, a esta altura do campeonato (e com o vasto crescimento do festival), a gente pouco se importa se a coisa é mais rock ou menos rock: desde que seja para abanar o esqueleto com qualidade, cá estamos!

O sol, a boa disposição e as articulações a doer depois de mais uma noite dura e extasiante: foram o prato do quarto dia do festival nortenho. E que prazeroso encontrar mais uns portugueses a provar o quer valem no palco Vodafone.FM. Os Baleia Baleia Baleia foram uma adição de última hora devido ao cancelamento dos King Gizzard e trocas e baldrocas dos BADBADNOTGOOD. Mas deram mais um concerto catártico ao lado das margens do Coura, como tão bem o sabem fazer. Há muito que os autores de êxitos como Politicamente Correto e Quero Ser Um Ecrã, mereciam tal destaque num grande festival português (embora de politicamente correto estes homens baseados há anos no Porto, pouco tenham).  Já os definiram como “meio caminho entre o pop rock sem vergonha e um punk mais vibrante e soalheiro” e esta definição assenta-lhes que nem uma luva!

Por sua vez, já no palco principal encontrámos uma figura que de punk pouco tem, mas que é a mistura perfeita entre o indie pop e R&B. Anaïs Oluwatoyin Estelle Marinho, de seu stage name, Arlo Parks, é uma artista britânica emergente e detentora de vários cobiçados prémios em 2021: entre eles, o Mercury Prize de melhor álbum. Durante a sua atuação ao vivo, toda a androginia de Arlo se mescla com dança e movimentos frenéticos ao som de um ritmo remansado, que não passa exatamente com a mesma intensidade para o público. O curioso, é que na antepenúltima canção, intitulada Hope, cuja letra tem a mítica mensagem: “You’re not alone like you think you are“; o micro falhou por meio minuto e a artista pareceu nem se aperceber disso. Lindo, foi ver toda uma massa humana a cantar por ela, seguindo-se umas fervorosas palmas quando a sua voz voltou a ecoar neste anfiteatro natural. Desde esse momento, teve toda uma plateia agarrada ao concerto até ao final.

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

De novo com uma perninha no palco secundário, lá estava Boy Harsher, a banda norte-americana de dark wave e minimal synth que tem andado em grande este verão, com o seu mais recente disco The Runner. Jae Matthews e Augustus Muller são os nomes por trás deste projeto, mas enquanto Augustus se fica pela composição musical, é Jae quem dá cara e corpo à performance, com uns trejeitos sombrios semelhantes aos de Egor Shkutko no dia anterior. Gostávamos de vivido este concerto com mais intensidade, mas a enchente de gente a mais que o palco secundário já não suporta, impediu de o fazermos. Levando-nos assim a focarmos o resto das atenções da noite apenas no palco Vodafone.

Techno à hora de jantar nunca é um problema

Não nos vamos esquecer que a capital do techno português é quase vizinha de Paredes de Coura, e é certo que devido à trocas referidas no início desta review, tivemos Kelly Lee Owens no palco principal (quando inicialmente estava marcada para o Vodafone.FM às 19:15h). Contudo, techno à hora de jantar nunca é um problema. O problema é termos uma atuação que deixou Coura bastante dividida.

Para desgosto dos saudosistas rock’n’roll, este festival tem espaço para uma componente eletrónica bastante mais assertiva que outrora. Mesmo assim, mais de metade do set de Owens ficou um pouco aquém do onde esta poderia ter ido e que sabemos que consegue mesmo ir. Chamar-lhe techno é criminoso, mas dream pop tudo bem. Destacamos os 10 minutos finais onde se celebraram, de forma exímia, aquelas batidas de 180 BPM, que se podiam ter prolongado bem mais tempo.

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

© Hugo Lima - Festival Vodafone Paredes de Coura

Os repetentes do Couraíso

Os choramingas do “isto é um festival de rock”, puderam confortar a alma e o coração com Ty Segall, que já cá tinha passado em 2017 e 2015. Aparentemente, o segundo e terceiro dia deixaram muitos, ainda com mais ânsia de erguerem contra o sistema apoiados pelas guitarras elétricas e baixos impetuosos.

Já sabemos que com Garret, volta aquele turbilhão de crowdsurf e mosh, que este ano rapidamente nos (re)habituámos. No entanto, a chama no traseiro destes Gen Z’s após 2 anos fechados em casa é tanta, que até nos hits de rock mais slow esta gente está à patada e encontrões! A febre foi tanta, que já na frontline em The Blaze, o pensamento recorrente de quem nem religioso é, foi:

“Nosso Senhor, não deixes esta malta nova andar aos encontrões em french house!”

Preces ouvidas, com The Blaze é impossível não irmos ao baú e recordar o entusiasmo da entrega destes franceses e do público em 2018. Agora, vimos os primos Alric novamente aliados a uma forte componente visual. Mas desta vez, os 5 ecrãs vão girando em seu torno e passando imagens aleatórias: dos 5 sentidos, de máscaras coloniais roubadas ao continente africano durante séculos e até mesmo da audiência (em estilo de gravação de câmara caseira dos anos 90).  Os efeitos visuais são metade da sua mestria artística, a música são os outros 50%.

Ainda assim, talvez por já não ser novidade, ou por uma carrada de fatores que nos ultrapassam, a entrega entre artistas e público não foi tão magnânima. Porém, depois de uma sexta-feira tão amena, levam na mesma o cunho e destaque de concerto do dia no palco principal.

Mas se é para fingir pisar uvas que seja com Mall Grab

No palco After Hours, o desconforto da multidão no início de madrugada manteve-se. Mesmo assim, desta vez não foi tão impeditivo de celebrar o lirismo sério e pesado de Ata Kak, que é um ganês mais celebrado neste continente do que na sua própria terra!

A fechar a noite: aquele movimento de quem está num lagar a tentar produzir vinho, foi total com o poderoso house de Mall Grab. Sabemos que não é típico fazermos cobertura da madrugada em Coura, mas é impossível não lhe dar o destaque e mérito totalmente merecidos. Ao que aquela gente dançou, dava para produzir toda uma colheita de vinhos do Douro!

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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Mais sobre: Arlo Parks, Baleia Baleia Baleia, Boy Harsher, Kelly Lee Owens, The Blaze, Ty Segall


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