11 Ago 2017 a 14 Ago 2017

Cem Soldos também é do prog rock – O terceiro dia de Bons Sons

Cem Soldos também é do prog rock - O terceiro dia de Bons Sons

Seria difícil um dia mais eclético e mais representativo da criação musical no país hoje em dia. Ao penúltimo dia, Cem Soldos foi do fado ao hip hop e pelo meio louvou novos e velhos heróis.

Porque heróis também os há bem novos. Um exemplo? Os Moços da Vila. Grupo coral de Viana do Alentejo, composto por rapazes dos 10 aos 13 anos de idade. A pujança do coro pode não se equiparar à dos grupos de cantadores a que estamos acostumados, mas a entrega é irrepreensível. A igreja, que encheu para os ouvir, respondeu com entusiasmo e emoção.

Das paisagens douradas do Alentejo fomos cheirar maresia para o palco coreto Giacometti. Joana Barra Vaz e a sua banda apresentaram Mergulho em Loba, disco leve e viajante da realizadora que também escreve canções. E que belas canções essas que refrescaram o mar de público que se juntou para as ouvir.

Por esta altura já está muita gente na aldeia, e as sombras escasseiam. Muitos tomam refúgio do calor na sede do Sport Clube Operário de Cem Soldos, a entidade organizadora deste festival que oferece tomadas, computadores, mesas de bilhar e ténis de mesa, matraquilhos, televisão e um bar. São muitos os que por ali passam para recarregar baterias, e na altura de maior calor não há espaço para tanta gente. Optamos por um passeio pelas ruas menos frequentadas da aldeia, acabamos por ficar largos minutos a passar a pente fino bancas de livros e discos em segunda mão. O Bons Sons também tem um pequeno mercado onde se encontram destas coisas e ainda roupa e bugigangas.

De regresso ao centro dos acontecimentos (pelo menos os musicais), encontramos uma autêntica instalação no palco em frente à igreja. Trata-se de Sonoscopia, uma “orquestra robótica disfuncional” feita de pequenas máquinas interligadas, controladas apenas por um computador. O efeito soa bastante experimental e ao nosso lado alguém comenta “gostava de ver isto em Serralves“. Talvez fosse um local mais indicado, de facto.

Para o final de tarde, Captain Boy apresentou os seus temas no palco Giacometti acompanhado por uma banda bastante competente. O “vagabundo de voz rouca” tem canções de bater o pé, mas não muito mais do que isso. De volta ao largo da igreja, os Sampladélicos provocaram o primeiro abanar de anca do dia. O projecto de Tiago Pereira (documentista responsável pel’A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria – MPAGDP) e o músico Sílvio Rosado mescla a electrónica com as gravações do arquivo da MPAGDP e cria novas visões sobre esse mesmo arquivo. Uma remistura da tradição que a questiona e eleva.

BONS SONS 2017 – Captain Boy no Palco Giacometti.
Foto: Carlos Manuel Martins

Logo depois, na Eira, foi tempo de louvar um dos novos heróis. Depois da passagem pelo palco Giacometti em 2014, Samuel Úria regressou ao Bons Sons. Aquele que é considerado um dos melhores escritores de canções do nosso país foi responsável por um dos melhores concertos desta edição. Acompanhado por banda e coro, Úria apresentou canções de Carga de Ombro mas também velhos clássicos como Ninivitas. O público que encheu o espaço acompanhou todas as letras do músico de Tondela, que se mostrou muito feliz pela recepção.

BONS SONS 2017 – Samuel Úria num concerto à janela.
Foto: Carlos Manuel Martins

Não posso tocar mais porque a seguir vai tocar o maior“, disse Úria. Referia-se a José Cid, que de seguida tomou de assalto o largo principal da aldeia para revisitar o histórico álbum de 1978: 10.000 Anos Entre Vénus e Marte. Foi aí que se provou que Cem Soldos é do prog rock e conhecia os temas de uma ponta à outra. O próprio Cid elogiou o público, mostrando-se algo surpreendido pela maioria jovem que acompanhava o concerto, entusiasmada.

BONS SONS 2017 – 10.000 Anos Depois Entre Vénus e Marte no Palco Lopes Graça.
Foto: Carlos Manuel Martins

Para terminar a viagem musical do dia, os Orelha Negra trouxeram os beats e samples do hip hop, num corte e costura musical extremamente bem balançado. A batida e melodia de Sam The Kid, Fred e companhia fecharam em grande a penúltima noite de Bons Sons.

Dia 14, último do festival, sobem à aldeia nomes como Frankie Chavez, The Poppers e Rodrigo Leão.

Fotos de Carlos Manuel Martins e Pedro Sadio

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gostava de cogumelos mas agora até os tolera. Continua sem gostar de feijão verde.


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Mais sobre: Captain Boy, Joana Barra Vaz, José Cid, Moços da Vila, Orelha Negra, Paulo Bragança, Sampladélicos, Samuel Úria, Sonoscopia


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