WE versus ME – Os Arcade Fire no regresso ao Campo Pequeno

WE versus ME - Os Arcade Fire no regresso ao Campo Pequeno

Os canadianos Arcade Fire apresentaram-se na passada quinta-feira, dia 22 de setembro, para o primeiro de dois concertos no Campo Pequeno em Lisboa, após o último concerto em Paredes de Coura no “longínquo” ano de 2018. Apesar desta última aparição da banda de Win Butler e de Régine Chassagne na capital não ter sido isenta de controvérsias (muito se falou, e fala, sobre as acusações de assédio sexual que recaem sobre o seu principal vocalista), a sala de espetáculos esteve completamente alheia a estas notícias e apenas aplaudiu e dançou do início ao fim do concerto, clamando por Win.

Um pouco antes das 20h, hora marcada para o começo do concerto dos Boukman Eksperyans, um master of cerimony lançou diversas “bandarilhas” musicais num palco secundário com um piano transparente, debaixo de uma enorme bola de espelhos iluminado com as quatro cores principais (azul, vermelho, laranja e rosa) da capa do álbum que serve de mote a esta digressão dos Arcade Fire, o álbum WE, lançado em maio deste ano. Munido de 2 maracas, foi disparando em diferentes direções dançáveis: world music, remix de clássicos, tudo serviu para divertir a meia sala já presente.

Já muito aplaudido, denotando a ansiedade do público em torno do regresso dos Arcade Fire após 4 anos de ausência do território português, Win Butler apresentou os Boukman Eksparyans, “a melhor banda do Haiti”. Os 8 membros do conjunto haitiano em palco, e que substituíram a cantautora conterrânea da banda principal – Feist – deram um bom concerto, não manifestando nenhuma dificuldade em termos de qualidade do som, o que não foi o caso no concerto dos Arcade Fire, onde o som teve alguns problemas, em algumas situações.

Polémicas à parte, o público esqueceu-se em absoluto do cancelamento de Feist, justificada pela incongruência da mensagem das suas músicas com as acusações que recaem sobre Win Butler, das rádios canadianas que deixaram de passar Arcade Fire ou do extenso artigo da Pitchfork onde toda a história é divulgada, assim que a projeção do arco-íris de pedra se abre no palco principal para receber os Arcade Fire.

Watain

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A meia esfera com centro negro que servirá de cenário ao concerto ilumina-se de estrelas, anunciando uma viagem ao universo da banda canadiana. Quando se ouve a primeira canção do espetáculo Age of Anxiety I, o cenário já remete para o olho da capa de WE, recordando que este será um concerto para celebrar a chegada do sexto álbum dos Arcade Fire, 18 anos depois do aclamado Funeral.

O alinhamento teve muitos, muitos momentos altos da banda focando-se, como esperado, em WE, mas também em The Suburbs, Funeral e Reflektor. Ready to Start, Afterlife, Age of Anxiety II (Rabbit Hole), The Lightning I, The Lightning II, Rebellion (Lies), No cars go e Everything Now foram todas recebidas em enorme festa pela multidão que encheu o Campo Pequeno.

Quer Win, quer Régine usaram indumentárias que pareciam saídas dos anos 80, sobretudo a de esposa do frontmanque envocava um dos looks de Madonna. Curiosamente, quando Win, despiu o seu colete vermelho de cabedal, viu-se uma basebol shirt que parecia trazer uma mensagem “escondida à frente de todos”: “WE” na frente e nas costas “ME”, jogando com o grafismo invertido de W e M. Múltiplas leituras, poderão ser feitas daqui. Que o WE, ou seja, o álbum e a banda, estão à frente do ME – o vocalista ou de Win. Ou que o “nós” do casal Win-Régine tem precedência sobre o “eu” de Win. De facto, Régine Chassagne partilhou a liderança da banda em It’s Never Over (Hey Oprheus) onde dançou e cantou destacada em cima do piano do palco secundário, em My body is a Cage onde esteve em simbiose com o seu marido, em Reflektor, e, claro, em Sprawl II (Mountains Beyond Mountains).

O concerto de duas horas terminou com um encore breve – End of the Empire I-III, End of the Empire IV (Sagittarius A*) e Wake Up, tendo a multidão arrastado Win para continuar a fazer a festa na calçada para gáudio dos que passavam, mas sobretudo daqueles que puderam prolongar a sua alegria e matar saudades de uma das suas bandas de eleição durante mais uns minutos.

Existindo ou não uma possível leitura da t-shirt do vocalista, poucos foram aqueles que viram mais do que a banda neste concerto. Foi totalmente apagada qualquer outra lembrança que não fosse a trajetória musical dos Arcade Fire. O WE venceu.

Agradecimentos á EIN pela cedência das imagens


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