8 Fev 2014 a 29 Mar 2014

Reportagem: Mundo Cão, ao vivo no Sons de Vez 2014

Reportagem: Mundo Cão, ao vivo no Sons de Vez 2014

Pouco mais de dez minutos depois da anunciada hora, ouviam-se os primeiros e etéreos acordes de “A resposta é sempre não”, a ultima faixa do mais recente álbum dos Mundo Cão, mas a primeira deste concerto intimista, integrado no Festival Sons de Vez.

Dizemos intimista pois, apesar de completo, o pequeno auditório da Casa das Artes se presta a isso mesmo, uma proximidade entre publico e músicos que é difícil de encontrar em espaços maiores.

O “Turbilhão” continua o concerto, com Pedro Laginha, o competente “frontman”, vocalista e fundador da banda, a conferir um dramatismo à sua performance, ajudado pela sua experiencia como actor. Os músicos, competentes mas nunca entusiasmados, como que travados eles próprios pela toada lenta das primeiras musicas e pelo intimismo sereno da sala.

“Caixão da Razão”, que se segue, é a primeira a conseguir um coro por parte do publico, com Laginha, mais à vontade, a entusiasmar a audiência. Mais uma vez há uma sensação de torpor, de dormência conferida pelo som, um rock rude, mas ao mesmo tempo quase opiáceo, que nos leva para uma imagética de decadência e deboche burgues intenso. Neste aspecto, a iluminação de palco não deixa de ajudar na atmosfera.

Depois de “Vasculhar sua ficção”, do primeiro álbum, com um ritmo mais acelerado, voltamos ao mais recente “O Jogo do Mundo” para “Troco este mundo por ti”, uma declaração de amor rock onde os teclados tem algum destaque, seguindo-se um dos singles de “A Geração da Matilha”, “Dá-me amor ou ódio”, onde mais uma vez Pedro Laginha se faz valer da experiencia dramática para nos transportar para o sofrimento da inevitabilidade do amor.

O mais recente single, “Anos de bailado e natação”, põe finalmente a plateia a cantar com a banda, numa comunhão de vozes que, de certa maneira, não combina com o imaginário dos Mundo Cão. As letras das suas músicas não se prestam a isso, à sua imagem sombria, ao som carregado, quase em bruto. Sim, apesar de apreciada pela banda, a participação entusiástica do publico destoa um pouco do tom sombrio da noite.

Segue-se “Metamorfose”, com a letra de Valter Hugo Mãe mais uma vez em destaque, acompanhada pela sombria interpretação de Pedro Laginha, e o cavaquinho nas mãos de Gonçalo Budda, “Segredo de matar” e “És a paisagem que me salva” terminam o bloco de músicas do ultimo álbum, com esta ultima a ser dedicada ao baixista habitual, ausente por motivos pessoais.

“Como um cão” dá um murro na mesa no que toca à energia no que até ai tinha sido um espectáculo bom mas em lume brando, com o ritmo e o som mais cru de “A geração da matilha” a agitar as hostes, como se prenunciando “Morfina”, outro dos momentos altos da noite, com a banda de novo a ter a companhia do publico no refrão.

Continuando nesta toada mais eléctrica, arranca “Amantes sem sal”, com a plateia a bater palmas, instigada por Laginha, extremamente eficaz nos interlúdios, tendo até entrado em diálogos cómicos com a plateia. Note-se que a proximidade de Arcos de Valdevez a Braga, de onde a banda é originária, levou caras conhecidas da banda à Casa das Artes.

Para terminar, outro dos singles de maior sucesso da banda, “Ordena que te ame”, a por mais uma vez a plateia a cantar, ainda que sem a convicção de momentos anteriores, o refrão. Com uma competência já demonstrada, os artistas acabam em boa nota esta parte principal do concerto, e não demoram a voltar ao palco para um muito denunciado encore.

Na volta, “A geração da matilha”, tema titulo do segundo álbum, foi precedida de mais um dialogo com a audiência, e piadas dirigidas a Miguel Pedro, fundador da banda, que no encore trocou a bateria pela guitarra até ai nas mãos de Vasco Vaz, que se sentou e pegou então nas baquetas.

Para terminar, “O dia impossível” e a merecida ovação por parte dos presentes no auditório da Casa das Artes, que certamente não deram por perdida a noite. Muito boa apresentação dos Mundo Cão, num concerto de certo modo feito à medida do ambiente e imaginário da banda.

Pedro Gama  

Amante de fotografia, computadores, carros antigos, lê avidamente, como se respirasse livros. Gosta de musica e cinema, mas não tem tempo (€) para ir a todos os eventos que gostaria. Vai escrevinhando umas coisas enquanto trabalha e estuda Literatura Inglesa...


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2 Comentários

  1. Eu diz:

    «com Pedro Laginha, o competente “frontman”, vocalista e fundador da banda»
    Atenção, o fundador é o Miguel Pedro, que convida depois o Pedro Laginha para a voz.

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