7 Jun 2018 a 9 Jun 2018

Neste parque há espaço para tudo – o (soalheiro!) segundo dia de NOS Primavera Sound

Neste parque há espaço para tudo - o (soalheiro!) segundo dia de NOS Primavera Sound

Ao segundo dia de NOS Primavera Sound, as escolhas tornaram-se mais difíceis e o público dispersou. Da festa controlada de A$AP Rocky ao abraço musical de Grizzly Bear, passando pelo virtuosismo de Thundercat e a simpatia das Breeders, assim foi o dia soalheiro no Parque da Cidade.

Ao início da tarde já com o sol a raiar e sem nuvens a ameaçar, a oferta musical não convidava propriamente a um piquenique relaxante na relva. Tanto os Solar Corona, palco SEAT, como os Black Bombaim, palco Super Bock, estavam mais interessados em riffs poderosos e rock afiado. Só um pouco mais tarde, com a chegada de Demon McMahon e os seus Amen Dunes ao palco SEAT é que a leveza de um indie folk polido fez pandã com o estado de espírito do público presente. Pouco antes disso, no palco principal do festival, os britânicos Idles esforçaram-se e bem para arrebitar os mais bucólicos. Donos de um punk provocador como deve ser, o quinteto de Bristol foi um autêntico furacão em palco, enquanto Joe Talbot fazia questão de deixar a lista de intenções bem marcada: dedicou temas aos imigrantes, ao serviço nacional de saúde inglês e a Anthony Bourdain. Voltam a Portugal no final do ano e parece-nos que falta de público não terão.

O primeiro concerto do palco Pitchfork desta edição de NOS Primavera Sound estava reservado para Yellow Days. Recolhido no meio das árvores do parque, o canto do recinto foi muito procurado toda a noite e provou ser o local ideal para a estreia do jovem George van den Broek no nosso país. A voz grave e rouca aliada aos temas descontraídos fazem dele um caso raro, que já é comparado a King Krule ou Mac DeMarco. Em palco, o autor de Is Everything Okay In Your World? foi de poucas palavras mas de uma entrega notável. É provável que o voltemos a ver em breve já noutra condição, até porque, afinal, ainda só tem 18 anos. Depois de tamanha juventude estava na hora da experiência entrar em acção. No palco NOS, eram as Breeders de Kim Deal que traziam o rock americano marcadamente 90’s de volta ao certame (já cá haviam estado em 2012). Por entre muitos sorrisos e tentativas de comunicação na nossa língua, houve Cannonball (claro), mas também No Aloha, Spacewoman, Drivin’ on 9 ou Divine Hammer. A surpresa terá sido a inclusão de Gigantic, dos Pixies, ex-banda de Kim. Público encantado e rock muito bem representado, não podemos pedir mais.

Pausa para refrescar e quando regressamos ao palco Pitchfork já as irmãs Lisa e Naomi têm uma plateia cheia na mão. O R&B das Ibeyi é especial: explora as raízes do duo (que vão de Cuba à Nigéria, passando pela Venezuela) e incluí percussões tradicionais cubanas e cânticos em Yoruba, por exemplo. Carregam consigo a tradição mas misturam-na com batidas e samples contemporâneos. E é um desses samples – que nem sequer é musical – que arranca a primeira pequena ovação à dupla: Michelle Obama e a célebre frase “the measure of any society is how it treats its women and girls”. Puxam pelo público, dançam twerk e mostram-se genuinamente felizes por aqui estarem. Nós também ficamos felizes com a estreia. Saímos depois da reivindicadora Deathless para ainda recebermos o abraço musical dos americanos Grizzly Bear. As harmonias das vozes, o construir meticuloso de melodias ora sonhadoras ora arrasadoras fazem do quarteto de Brooklyn um dos mais celebrados daquilo a que chamamos indie rock nos dias de hoje. Se Two Weeks foi o momento maior que presenciámos – é sem dúvida um dos mais bonitos temas do grupo – ainda tivemos também o seu companheiro de Veckatimest, While You Wait For The Others, uma amostra do mais recente disco em Three Rings e um regresso ao muito celebrado Shields com Sun In Your Eyes, para um fecho em beleza. Não imaginamos ser possível deixar de gostar destes abraços.

Para a recta final da noite o público concentrou-se menos e foi obrigado a calcorrear pelo Parque da Cidade. Começámos no palco Pitchfork com o electro pop contagiante dos Superorganism e as suas gabardines coloridas e uma Ororo Noguchi particularmente divertida. Apareceram de surpresa e só lançaram o disco de estreia este ano mas já tinham muito público a recebê-los com as letras na ponta da língua, o que só fez do concerto uma festa ainda maior. À mesma hora, no palco NOS, era o também estreante Vince Staples que tinha uma plateia aos seus pés e, mesmo sozinho, nunca se deixou intimidar – bem pelo contrário. Logo depois, mais escolhas difíceis: o sempre óptimo Four Tet no palco Super Bock, a imprevisível Fever Ray no palco SEAT ou o virtuosíssimo Thundercat no palco Pitchfork? O último trouxe o jazz e o groove e os impressionantes temas do seu último disco Drunk, com solos de baixo (também os houve de bateria e teclas, é claro) intermináveis que não caíam nunca no repetitivo e só elevavam a fasquia. Stephen Bruner já anda nisto há muitos anos mas parece divertir-se como uma criança em palco, é bonito. Do outro lado do recinto a diversão era bem distinta. A sempre provocadora Fever Ray trouxe teatralidade exagerada para uma performance que não deixou ninguém indiferente.

Quem também não deixa ninguém indiferente é A$AP Rocky, que tomou conta do palco NOS em condição de cabeça de cartaz – com direito a palco decorado à sua maneira e tudo (a cabeça de boneco gigante ao centro e a pequena catwalk para o meio do público são extravagâncias suas). Tinha uma legião que o esperava há muito foi efusivo como tinha de ser. Claro que houve chamas em palco e aparatosos jogos de luzes, claro que houve sutiãs em palco, mosh e uma tentativa de crowdsurf por parte do próprio. Tudo muito explosivo, mas sempre sem grandes surpresas. A noite fechou com os Unknown Mortal Orchestra, já bem conhecidos do público nacional, mas que desta vez tinham disco novo na manga. Os temas de Sex & Food nada destoam do groove meio psicadélico a que sempre nos habituaram, mas foram as canções do trabalho anterior – Multi-Love – que mais puxaram pelas gargantas dos presentes. Houve shots de tequilla em palco (até Thundercat veio roubar um), caminhadas no meio da plateia e muitos solos de guitarra em noite claramente inspirada para Ruban Nielson e companhia.

Hoje, o derradeiro dia de NOS Primavera Sound já está esgotado e vai receber Nick Cave & The Bad Seeds, War On Drugs, Kelela, Mogwai e Arca, entre outros.

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gosta de cogumelos.


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Mais sobre: A$AP Rocky, Amen Dunes, Black Bombaim, Fever Ray, Four Tet, Grizzly Bear, Ibeyi, Idles, Solar Corona, Superorganism, The Breeders, Thundercat, Unknown Mortal Orchestra, Vince Staples, Yellow Days


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