Macklemore & Ryan Lewis: E ninguém os segurou mesmo

Macklemore & Ryan Lewis: E ninguém os segurou mesmo

A digressão europeia tem estado esgotada onde quer que vão, mas talvez Portugal não esteja preparado para o hip hop fora do comum de Macklemore & Ryan Lewis, e por isso a Meo Arena esteve ontem com pouco mais de 3 mil pessoas presentes para assistir ao concerto da tour europeia “This Unruly Mess I’ve Made”.

Foram duas as primeira partes, antes de Macklemore pisar o palco. XP abriu o palco com um hip hop mais duro e convencional, seguindo-se Ruray, com um hip hop mais instrumental, com variações de eletrónica e toques de R&B.

Primeira, segunda, terceira troca de palco e eis que se espera porque quem realmente “interessa”. Macklemore tem cerca de três milhares de pessoas a evocar o seu nome, dando força à expressão “poucos, mas bons”. No meio de um fumo simulado e um jogo de cores que escondia os músicos nas sombras, surge primeiro Ryan Lewis, produtor, melhor amigo e braço direito de Macklemore. Logo de seguida, entre a quase penumbra surge o loiro mais esperado da noite, cabeça baixa, postura de guerreiro. “Light Tunnels” ouve-se a abrir o alinhamento e sem mais demoras, Macklemore entrega-se por completo ao público. Não houve pedaço do grande palco que o rapper não pisasse, saltando de uma ponta à outra, numa entrega gigante. Ainda a primeira música não tinha acabado e Macklemore já fazia a delícia dos presentes e descia até ao fosso, para distribuir abraços e apertos de mão.

Partilhas feitas, termina a música e ajoelha-se na frente de palco, para a primeira (de muitas) conversa da noite. Entre várias palavras, diz que tem um segredo para revelar a todos. Pede para que ninguém espalhe o que vai ser dito, olha para um elemento do público e diz-lhe que não confia nele porque ele está com uma GoPro na cabeça, mas não adianta de muito. O segredo é revelado… A verdade é que ele é primo do Brad Pitt, ou pelo menos é o que a música o diz, abrindo caminho para “Brad Pitt’s Cousin”. De uma rajada só, passámos para “Buckshot” e depois o primeiro hit da noite. Vestido a preceito, como nos habituou já ao vídeo oficial da canção, Macklemore surge como se tivesse saído de uma “Thrift Shop”, com um grande casaco de peles e todo enfeitado de jóias – esperemos que nada verdadeiro, nem as peles nem as jóias.

“The Shades” chega como um pedido de reflexão, de calma, arrastando-se até “Arrows” e “Wing$”. Depois de já ter partilhado com o público que se tinha apaixonado por Portugal e que achava que possivelmente era o sítio mais bonito do mundo, resolve contar um pouco mais da sua relação com o país. A verdade é que apesar de ser a primeira vez que atua em terras lusas, Macklemore já não é nenhum estreante neste país à beira mal plantado, como nos explica quando conta que quando tinha 15 anos, tinha vindo passar férias com os pais a Albufeira. Aliás, segundo reza a lenda (pelo menos a que nos contou ontem), foi exactamente em Albufeira, quando estava sentado a ver o mar, que com 15 anos teve uma epifania e decidiu que queria ser rapper. Agora, um par de anos mais tarde – assim em contas feitas por alto – finalmente está aqui a cantar e diz que não podia estar mais feliz, já que não fazia ideia do que esperar do concerto.

Mais um êxito a caminho e “Same Love” entra de todas as formas menos de fininho. Pela segunda vez na noite (a primeira em “Thrift Shop”), os poucos milhares presentes, entregaram-se por completo e cantaram este hino ao amor, seja ele qual for, porque qualquer amor é válido.

“Growing Up” vem ainda com mais amor. Dedicada à filha de Macklemore, este é um tema partilhado com Ed Sheeran, que claro, ontem só esteve presente em modo de gravação. “White Privilege II”, “Kevin” e “St. Ides” seguem-se antes de surgir mais um hino, desta vez a comida! “Let’s Eat” é provavelmente a música mais inesperada e engraçada que podemos ouvir, principalmente vindo de um cantor de hip hop. Se muitos são os rappers que cantam sobre mulheres ou droga, Macklemore decide expressar o seu amor por algo bem mais válido: a comida. Seja ela qual for. Sem discriminação. Sem pudor. Tanto não há pudor que até bolachas distribui pelo público, guardando uma para no final atirar para a outra ponta da arena, numa tentativa de quebrar um recorde mundial (disse ele que investigou e que descobriu que nunca ninguém tinha tentado atirar uma bolacha de uma ponta à outra da Meo Arena – e nós acreditamos).

Bolachas à parte, chega “White Walls” a abrir caminho para “Can’t Hold Us”, um hino à festa, aos “tira o pé do chão”, e a tudo o que nos possa passar pela cabeça. Foi um dos momentos mais marcantes da noite e poucos foram os que conseguiram manter os pés – e os corpos – quietos. E adeus. Preparava-se o encore. Duas vezes. Mas já lá vamos.

Falso final do costume volta para “And We Danced”, vestido a preceito, com uma peruca que decerto faria a Tina Turner roer-se de inveja, e unsdance moves que fariam o Prince e o Michael Jackson, orgulhosos. “Dance Off” aparece com um convite para duas sortidas do público, que foram escolhidas para uma battle de dança em cima do palco.

E finito, mais uma vez. Desta vez, muitos pensaram ser a sério e abandonaram o espaço. A espera foi maior e, sejamos sinceros, dois encores não acontecem muitas vezes. Mas a verdade é que os mais atentos ficaram, já que faltava ainda tocar mais um êxito – “Downtown”. E assim foi. Aos primeiros acordes, os já desistentes voltaram a correr para dentro da arena para ouvir a música de hip hop com mais variações rítmicas de sempre (ok, se calhar não é, mas tem um forte potencial nessa categoria!). Já não bastava este tema ser mais um tema-festim, como trouxe consigo uma surpresa: Eric Nally, a voz aguda do senhor de cabelo comprido, e bigode, que emerge de dentro do palco, rodeado de fumo, num salto ao estilo do video de Downtown. Loucura instalada. Foi, sem dúvida, a melhor escolha para o fecho da noite, que nada mais nada menos foi que uma festa brava.

Não se deixem enganar pelas curtas filas para a entrada da Meo Arena nem pelos espaços gigantes entre o público; a verdade é que a festa fez-se e fez-se bem. Macklemore saiu de coração cheio e os fãs decerto que também. Da nossa parte, a festa foi bonita. Já o rapper não convencional, esse prometeu voltar.

Marta Ribeiro  

A miúda do cabelo curto. Fotógrafa, sonhadora, amante de música e com a mania que tem piadinha. Despachada. Às vezes escreve coisas um tanto ou quanto bonitas, mas na verdade a única coisa que faz bem é dar ração à cadela. Normalmente encontra-se por detrás de uma câmara e em vestes negras.


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