18 Jul 2014 a 26 Jul 2014

FMM: E o céu caiu nas nossas cabeças!

FMM: E o céu caiu nas nossas cabeças!

Confessamos que, ao fim de um a semana a percorrer as ruas de Sines, entre o Castelo e a praia, o corpinho já não aguenta tanto como se estivesse na flor dos vintes. É que, depois de uns dias mais calminhos, desde quarta-feira que os concertos começam a prolongar-se pela madrugada fora, começando a ser normal devorar um chouriço assado à chegada à casa às cinco da manhã e antes de ir dormir umas parcas horas.

As duas últimas noites em Sines foram já de bastante afluência, pois com a aproximação do fim-de-semana começam a chegar as hordas de gente sequiosa por novas sonoridades. O ambiente em redor do Castelo é já familiar aos habitués do FMM: vendedores de toda a espécie de bijuterias, gente que troca poemas por umas moedinhas e um sorriso, seres dançantes em estado de felicidade puro e personagens bizarras que levantam dúvidas sobre onde andarão no resto do ano.

Ajinai

Os concertos, esses, tiveram picos. As noites de quarta e quinta-feira não foram perfeitamente alinhadas, com momentos mais enérgicos e surpreendentes, e outros mais “flat”, que não terão sido necessariamente erros de casting, mas talvez sim desadequados à hora. Após as actuações iniciais de África Negra – grupo histórico de São Tomé e Príncipe que regressou aos palcos após vinte anos de inactividade – e também, dos chineses Ajinai – que mesclam os sons naturais da estepe mongol com ritmos rocalheiros de fazer tremer o coração, e que nos brindaram inclusive com uma versão tempestuosa de ‘Riders on the storm’ – de quarta-feira recordamos a fantástica actuação de Ibrahim Maalouf. Este trompetista libanés e a sua banda deram um concerto irrepreensível, colocando as almas e os corpos em grande agitação. Apenas destoou no traje, já que se apresentou em palco com uma roupa demasiado informal comparativamente com o resto da banda. A explicação? O pobre do rapaz perdeu a bagagem no aeroporto e, bem humorado, confessou que teve de se apresentar com a roupa possível. O público desculpou, pediu mais ritmo, mais calor, e dançou, dançou…

Ibrahim Maalouf

Ao palco do Castelo subiria ainda Mamar Kassey, banda do Niger. O cantor Yacouba Moumoni fez-se acompanhar de uma bailarina ondulante, de faces pintadas e feições remotamente orientais, puxando à dança. Mas nada, nada nos fazia antecipar a tempestade que aí vinha. O céu estava praticamente a cair nas nossas cabeças e nós sem um guarda-chuva que fosse para nos proteger os sentidos.

Mamar Kassey

Da Coreia do Sul vieram os Jambinai, banda de rock experimental que utiliza instrumentos tradicionais na sua música. Imaginem os Sonic Youth mais os Nine Inch Nails, mas em coreano, criando atmosferas tão assustadoras e pesadas, como leves e brilhantes, tal como raios de rol que encontram caminho depois de uma valente borrasca. Sem dúvida, o concerto da noite.

fmmsines Jambinai

Para quem ainda sentia energia, a dança mesmo, mesmo a sério, seria um pouco mais tarde, descendo as ruas até ao palco da Praia, onde os Jungle by Night ofereciam um afrojazz vindo de… Amesterdão? Ainda fomos até lá para abanar um pouco a anca, e a música estava jeitosa sim senhor, mas o soninho já se fazia sentir.

Na quinta-feira registou-se, talvez, o dia menos perfeito do festival até agora. A coisa prometia, mas não houve grandes surpresas capazes de nos fazer soltar um “Yeahhhh!” daqueles. Os Galandum Galundaina, que aqui a autora do texto aprecia particularmente, cumpriram e fizeram pular, mas com algum comedimento. Logo a seguir os mexicanos Arreola+Carballo, projecto de rock experimental que vai beber inspiração à poesia índia, tentaram arrepelar emoções ao público da Praia, mas de alguma forma ficámos aborrecidos, apesar de todo o conceito ser bastante interessante.

Já de volta ao Castelo, o concerto de Mulatu Astake, um dos fundadores da música etíope contemporânea, também não nos cativou particularmente, ainda que seja sempre uma honra poder ver em palco uma lenda viva do ethio-jazz. De seguida, Nástio Mosquito, novo valor angolano que se move entre a spoken word e as artes plásticas. Com uma performance curiosa, uma voz cavernosa que por vezes deambula entre Stuart Staples e Peter Murphy, e melodias que fazem até lembrar Massive Attack, Nástio podia ter feito melhor, pois não conquistou o público como merecia.

Nástio Mosquito

A noite do Castelo terminou com Mélissa Laveaux, cantora e guitarrista canadiana com raízes no Haiti. A voz melodiosa e calorosa, lembrando por vezes uma Tracy Chapman, aqueceu as alminhas, mas o público pedia mais. E foi isso que deram os columbianos Meridian Brothers, já a noite ia muito longa. No palco da Praia os ritmos da cumbia pontilhados de elementos psicadélicos e electrónicos, e reforçados pela performance e carisma impressionantes em palco, fizeram deste um dos melhores concertos do FMM até ao momento. Às quatro da manhã os resistentes ainda puderam ficar para ver o sol nascer ao som do sitar do indiano Niladri Kumar, mas já era demasiado contemplativo para nós, que ainda tínhamos no corpo o ritmo endiabrado dos colombianos anteriores.

Meridien Brothers

E ainda temos mais duas noites pela frente. Ai.

Fotos: Mário Pires / C. M. Sines

Laura Alves  

Jornalista, editora, produtora de conteúdos, copywriter, gestora de projecto e de comunidades online. Freelancer, ciclista de pernas e coração, adepta do coworking. Fã de caracóis e imperiais.


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