Entre sabores e dissabores no 3º dia de NOS Alive

Entre sabores e dissabores no 3º dia de NOS Alive

Não é que precisássemos de ser relembrados, mas caso ainda estivéssemos perdidos em pensamentos no dia anterior, as inúmeras t-shirts dos Metallica que circulavam pelo recinto, denunciavam bem quem eram os cabeças de cartaz a 8 de julho. Ainda com um calor abrasador e um festival completamente esgotado, avizinhava-se um dia bastante rock ‘n’ roll, mas acabámos rendidos às composições electro pop de Mathangi Maya Arulpragasam…

O primeiro dissabor, deu-se logo uns dias antes, com o cancelamento de Tom Misch. De acordo com uns, por “problemas logísticos”, segundo outros por “problemas de saúde”. A verdade é que cancelou mais dois concertos, entre eles, o Mad Cool (que é um espelho espanhol deste festival português). Já o segundo dissabor, foi com a sua substituição: Nicki Nicole. Obviamente, a cantora não pode ser responsabilizada e a sua perfomance nada de desapontante teve a anotar. Contudo, estarmos à espera de um multi-instrumentista britânico que mescla vários subgéneros do jazz com eletrónica, e levarmos com uma rapper argentina, será, quiçá, um pouco distópico. Tendo o quase vazio palco Heineken, sido o retrato fidedigno da desilusão da ausência de Tom.

Depois de termos de levar com o rock de fachada e expirado dos Don Broco, e do coitado do AJ Tracey ver o seu grime e hip hop celebrados por uns meros 50 jovens do lado esquerdo do palco principal, enquanto fervorosos fãs de Metallica bocejavam na frontline. Foi a vez de uma das bandas mais aguardadas do dia subir ao palco NOS: Royal Blood. Muito aclamados pela crítica, os britânicos, que já são repetentes neste festival, balançaram a sua atuação entre os seus 3 discos editados até à data. Sendo de demarcar o single Trouble’s Coming de Typhoons (2021) e, claramente as célebres Come On Over e Out Of Black (tendo a última, sido o tema com que terminaram o concerto). Além de uma qualidade de som, que da reggie para trás não era tão sublime assim, a banda inicialmente logrou de muito pouca presença em palco. Parecia que se largassem os olhos dos instrumentos ou se mexessem muito o esqueleto, de imediato, se enganariam em metade das notas. Só após o baixo de Mike Kerr ser cortado mid-bridge na How Did We Get So Dark?, levando à troca de instrumento e extensão da música, é que pareceram mais à vontade consigo mesmos.

“Os Metallica foram bons?”

Esta era pergunta que amigos e conhecidos mais nos questionavam no dia seguinte. Ao qual, demos sempre a mesma resposta: “estes gajos fazem isto há mais de 40 anos, mau era se não foram seriam bons!” Possuem dos guitarristas, baixistas, bateristas e vocalistas mais celebrados da história do rock, e foram os pioneiros para as bases, do que hoje, consideramos como sendo o género metal. Fizeram escorrer rios de tinta na imprensa nacional durante anos. E não há mais nada que possa ser dito desta banda que conta com mais de 4 décadas de estrada…

Não obstante, os nossos amigos da Blitz que no dia seguinte nos deram uma entrevista tão completa e reveladora do destaque merecido que têm, fizeram um ótimo trabalho a descrever o concerto:

É também do riff que sai o peso que os fez reis de um género fora de moda. Mas se também é dos pulmões e cordas vocais de Hetfield que saltam os refrões, hoje foi dos dedos de Hammett que se soltaram os solos de que muitos já tinham saudades de ouvir. Certeiros como há muito não se ouvia.

Assim como nos aconteceu com os The Strokes, por motivos alheios à nossa vontade, não nos foi possível captar o seu retrato fotográfico.

M.I.A. e o puro saudosismo de adolescência

Usando uma expressão nortenha, confessamos que deixámos M.I.A. perdida naqueles anos de “viragem de pito para galo” e que os empreendimentos da mesma, não nos tinham deixado fascinados como até Matangi (2013). E a própria inglesa de raízes tâmis (Sri Lanka), parece ter noção disto, recorrendo a uma setlist que tem muito de saudosismo adolescente e tempos áureos da mesma. De seu nome original, Mathangi Maya Arulpragasam, proporcionou-nos não só um DOS concertos do dia, como do festival inteiro, com uma energia que contagiou todos os que lá estiveram.

Após um entrada triunfal com o pesado tema, Born Free, perguntou:

Where my olsdschool fans? Where’s my people from 2005? If you’re here: CONGRATULATIONS!

Foi assim que introduziu a estrondosa Bucky Done Gun, seguida de uma manopla de êxitos, que nem contávamos. Para trás, só ficou mesmo Sunflowers de Arular (2005).

Em palco, Matahngi parecia novamente aquela miúda de 27 anos. Só acusava, de vez em quando, os seus 46 anos de idade, nos trejeitos e energia de quem está à rasca de uma hérnia em L4-L5 ou L5-S1. No entanto, desta vez contou com 4 bailarinas em palco que mexiam e remexiam tudo por ela, e por nós também. A nossa investigação não lhes permitiu dar nomes, mas quem souber, por favor que avise! Que aquelas 4 raparigas merecem ser tão ou mais celebradas do que a própria artista!

Quase no fim, troca de roupa para uma vestimenta branca e sóbria, semelhante à da atuação no Primavera Sound em Barcelona este ano. Na sua t-shirt lia-se: “Divine Energy Radiates Through Beauty and Genius”. E assim nos deixou com uma canção não-editada, Miracle, cujo refrão ecoará nas nossas mentes por muito tempo: “When things are critical, we’re gonna need a miracle!”. Indeed M.I.A, indeed.

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tem uns pais malucos que a levaram a concertos desde 3 anos e a festivais desde os 9. Passadas quase 3 décadas, ainda cá anda e aproveita para escrever umas coisas para o musifest.pt no ponto de vista de espetador melómano.


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Mais sobre: AJ Tracey, Don Broco, M.I.A., Metallica, Nicki Nicole, Royal Blood

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