9 Jun 2022 a 12 Jun 2022

Duas faces da mesma moeda – o segundo dia de NOS Primavera Sound

Duas faces da mesma moeda - o segundo dia de NOS Primavera Sound

Em dia de grandes regressos, nem todos foram tão celebrados como o esperado. O Parque da Cidade voltou a encher debaixo do sol e bons concertos não faltaram.

Começámos o dia pelo palco Binance para ouvir Rita Vian, uma das poucas mulheres portuguesas com lugar no cartaz desta edição do NOS Primavera Sound. Desde 2019 que o festival, baseado em Barcelona, se focou em ter cartazes paritários – ou seja, ter uma distribuição equitativa de nomes homens e mulheres nas suas edições. E se este ano a paridade, no geral, se verifica (contamos 52% homens contra 48% mulheres), quando olhamos apenas para os nomes nacionais em cartaz a realidade é bastante diferente. São 73% contra 27%, um abismo comparado com a política geral do festival e, infelizmente, um espelho daquilo que é a programação de festivais em Portugal: mesmo com a chefia estrangeira a impor quotas, as mulheres da música portuguesa continuam a perder. Rita Vian não merecia carregar esse peso, mas provou em vários sentidos merecer palcos maiores. Dona de um timbre muito característico, Vian tem uma cadência que naturalmente remete para a tradição da música portuguesa e engloba a sua voz em batidas e melodias (tem apenas mais um músico em palco) cheias de melancolia. Apesar dos nervos que se notaram ao início, a voz de Purga ambientou-se facilmente ao Parque da Cidade.

Na outra ponta do recinto, no palco Cupra, chegava a hora de Rina Sawayama. A britânica de origem nipónica trouxe um espéctaculo art pop notável ao NOS Primavera Sound, e eram muitos os fãs com cartazes, bandeiras e, claro, letras na ponta da língua. Inicialmente acompanhada apenas por duas mulheres em palco, na guitarra e bateria, rapidamente se juntaram duas dançarinas para Rina partilhar coreografias. A pop de Rina é tudo menos óbvia, descamba várias vezes em riffs dignos do rock mais pesado, mas é esse desinteresse por rótulos comuns que torna Rina uma artista com quem simpatizamos quase imediatamente. Será bonito vê-la crescer para palcos e espectáculos ainda maiores.

Enquanto o sol baixava chegou a altura das guitarras voltarem a tomar o lugar principal no NOS Primavera Sound. O rock imersivo dos Slowdive voltou a soar pelas colinas do Parque da Cidade e se os mais dedicados acorreram à zona frontal do palco NOS, muitos foram os que fizeram do concerto a banda sonora para o seu piquenique na relva. Já King Krule foi grande demais para o palco Cupra, onde a plateia se estendia bem para lá do rectângulo delimitado pelas bancadas montadas ao seu redor.

Uma enchente foi também o que recebeu Beck, no palco NOS. O americano não dava um concerto em solo nacional há 14 anos e, portanto, avaliando pela multidão que acorreu ao palco principal, a expectativa – ou pelo menos a curiosidade – era alta. Mas será justo dizer que Beck não satisfez todo esse interesse. Apenas com dois músicos em palco, um que variava entre as teclas e a guitarra e outro na bateria, Beck ofereceu uma espécie de medley redux. Muitíssimo dependente das backing tracks (só no final do concerto teve uma guitarra nas mãos do início ao fim de uma canção), o músico foi passando por vários temas da sua longa carreira mas de forma fugaz, quase sem paragens. Ao nosso lado foram vários os que, confusos com a performance, decidiram abandonar o concerto, mas quem ficou foi premiado por uma bonita rendição de Everybody’s Gotta Learn Sometime – finalmente uma canção do início ao fim, sem backing track, e com Beck à guitarra – que estranhamente teve de ser negociada com os seus técnicos. A bonita Lost Cause foi entregue numa ponta do palco, Loser trouxe o êxtase esperado e Where It’s At foi uma boa despedida de um concerto que só se salvou nos últimos momentos. Para quem esperou catorze anos, ficou muito a desejar.

Mas se os ânimos de alguns se foram abaixo, a solução chegou rapidamente. Ali ao lado, no palco Super Bock, a hiperpop electrónica de 100 gecs aterrou em força e não deixou ninguém indiferente. Festa autêntica pela mão de um duo que tem tudo para chegar longe.

Estava feito o aquecimento para o segundo grande regresso da noite. Os Pavement não pisavam um palco português há 25 anos e traziam agora canções que não tocavam ao vivo praticamente desde essa altura. Foi hora e meia de deleite perante Stephen Malkmus e companhia, que ofereceram In The Mouth a Desert e Date w/ IKEA pela primeira vez em doze anos. Mas foi sem surpresa que as maiores reacções vieram com temas como Spit On a Stranger, Cut Your Hair ou Shady Lane. Os ídolos de culto dos anos 90 não desapontaram e foram repetindo o quão felizes tinham sido no Porto nos últimos dias. O adeus com um “obrigado, obrigado, obrigado” meio cantado que veio do palco seria facilmente ecoado pelos milhares que aguentaram até às duas da manhã para darem o seu agradecimento à banda californiana.

A noite continuou com Chico da Tina e muita electrónica nos palcos Bits e Boiler Room. Hoje, o último dia de NOS Primavera Sound conta com Gorillaz, Interpol, Little Simz, Khruangbin, Grimes e muitos outros.

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gostava de cogumelos mas agora até os tolera. Continua sem gostar de feijão verde.


Ainda não és nosso fã no Facebook?


Mais sobre: 100 Gecs, Chico da Tina, King Krule, Pavement, Rina Sawayama, Rita Vian, Slowdive


  • Partilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *