6 Jul 2017 a 8 Jul 2017

Ao segundo dia de NOS Alive’17, quem ganhou foi o rock sem espinhas

Ao segundo dia de NOS Alive’17, quem ganhou foi o rock sem espinhas

As mulheres tomaram conta do festival e o público português acabou a formar uma banda com os Foo Fighters, neste dia dois de festival. Confuso? Já explicamos.

Começou logo com o rock pesadão dos Killimanjaro no NOS Clubbing, onde muitos curiosos se juntaram para ouvir o trio de Barcelos. Numa primeira volta ao recinto, passamos pelo R&B de Eden Lewis, no palco Heineken, e pela folk sonhadora de Calcutá, aka Teresa Castro (que já conhecemos dos Mighty Sands), no Coreto.

Quando saímos do Coreto – na ponta oposta do palco principal – ainda ouvimos as melodias dos LOT, que já tocavam no palco Heineken e que nos trouxeram logo à cabeça nomes maiores que já por ali passaram, como Alt-J e Chet Faker. Mas há que voltar aos riffs. Os Cave Story (fotos) vieram das Caldas da Rainha entregar o seu pós-punk ao palco NOS Clubbing, onde o excesso de ecrãs LED parecia pedir cor e animação. Não a teve, mas deveria contentar-se com isso de receber uma das mais promissoras bandas portuguesas dos dias de hoje. Não é para todos.

Da primeira vez que Jehnny Beth, Gemma Thompson, Ayse Hassan e Faye Milton pisaram o palco secundário do NOS Alive também eram apenas uma promessa. Mas se há algo que o concerto de ontem das Savages provou, é que agora são elas que mandam nisto tudo. Ainda era cedo, mas a zona do palco Heineken já estava cheia, e ainda que a entrada tenha sido morna, Jehnny Beth, excelsa frontwoman franco-britânica, tratou logo de aquecer (e bem), o ambiente. A guitarra de Gemma Thompson foi controlando a temperatura, mas foi Jehnny quem elevou a fasquia e seduziu a plateia a entregar-se ao concerto tanto quanto ela. Não era preciso muito, o público nacional já sabia ao que vinha (como Beth relembra a certa altura, o conceito do segundo disco Adore Life surgiu depois de um concerto da banda em Portugal, e até cá voltaram para filmar um teledisco) e a sinergia ocorre naturalmente. Saímos a perguntar-nos se alguém iria conseguir dar um melhor concerto naquele dia.

E íamos a caminho do palco NOS, mas não resistimos ao rock tropical dos PISTA no Clubbing, sabemos que eles conseguem por-nos a dançar. Dito e feito, o trio barreirense combina guitarras e bateria em ritmos que soam a festa por todos os lados. E lá estavam agora as tais cores que os LED em redor do palco tanto pediam. Quando Alex D’Alva Teixeira é convidado a subir a palco é que a coisa começou a assumir outra dimensão. O vocalista dos D’ALVA é como se fosse membro da banda e, se ainda havia alguém no público algo resistente a uns passos de dança, foi aí que se começou a mexer. Alex não deixou ninguém estar parado: estava lançada a festa rija.

Já no palco NOS, os Courteeners pareciam felizes com a recepção da plateia depois de quatro anos de ausência. Passámos mesmo a tempo de ouvir Not Nineteen Forever e sermos relembrados da quantidade de britânicos que estão por cá estes dias: estavam todos às cavalitas uns dos outros, a cantar emocionados. What Took You So Long? fechou o concerto da banda de Manchester, e Liam Fray estava visivelmente impressionado. “Da última vez que aqui tocámos estavam 100 pessoas. Isto foi a loucura”, escreveu pouco depois no Instagram.

Não terá sido uma loucura, mas isso não quer dizer que o regresso das americanas Warpaint (fotos) a Portugal não tenha sido feliz. Vieram à boleia do seu mais recente disco, Heads Up, de 2016, mais dançável do que os anteriores, mas não deixaram de passar por pelos primeiros. Undertow, surgiu logo no trio de início, e foi uma das mais celebradas, juntamente com Love is to Die e New Song. Emily Kokal, Theresa Wayman, Jenny Lee Lindberg e Stella Mozgawa deram um concerto que acabou por nunca passar do morno, mas que foi bastante celebrado pelos presentes.

Já no palco principal as coisas começaram a aquecer com o regresso dos históricos The Cult a Portugal. A banda de Ian Astbury e Billy Duffy veio apresentar Hidden City – último disco do grupo, lançado em 2016 – mas não deixou de passar por clássicos como Lil Devil ou She Sells Sanctuary. Apesar da dedicação em cima do palco, o público mostrou-se algo desconhecedor do trabalho dos ingleses, é que, afinal, os anos ouro dos Cult já lá vão.

Ainda as Warpaint se despediam ao som de Disco//Very e já estávamos a caminho do Coreto. É que, apesar de ser mesmo ali ao lado, o espaço reduzido que tem curadoria da Arruada nestes três dias de festival e foi ontem completamente ocupado por mulheres (para além de Calcutá e Golden Slumbers (fotos) também Fábia Maia, Lince e Mai Kino por lá passaram), já estava a encher para receber as irmãs Falcão. Catarina e Margarida tiveram apenas 30 minutos para apresentar canções do seu disco de estreia New Messiah, mas a julgar pela reacção do público que enchia o espaço, podiam ter ficado por muito mais tempo. As vozes de uma e outra combinam na perfeição e quando se juntam criam uma só que quase arrepia. Junte-se-lhes as guitarras de cada uma e aí estão canções folk que são uma delícia.

Logo depois, demos um breve salto ao palco Heineken, onde os Wild Beasts (fotos) já apresentavam o seu synthpop que chega a ser rock aos presentes, que não sendo tantos como nos concertos anteriores naquele palco, pareciam mais do que convencidos. Os britânicos, liderados pela voz de Hayden Thorpe, têm por cá passado bastante nos últimos anos (ainda há uns meses estiveram no Musicbox), mas cumprem sempre, e não poderíamos pedir-lhes mais do que isso.

Quando regressamos ao palco NOS, o duo Alison Mosshart e Jamie Hince debitava o seu rock sem espinhas perante uma plateia que não parava de crescer. Os The Kills não precisam de provar nada a ninguém, sabem como seduzir uma plateia, ora com a guitarra de Jamie ora com a voz e postura de Alison. O público não aderiu por ali além, mas mostrou-se sempre interessado. Do lado do palco, as palavras foram poucas, mas também quem é que precisa delas, quando há canções como Doing it to Death, Baby Says ou Love is a Deserter? Ninguém, claro.

Cinco minutos depois da hora marcada entrou um tipo a correr para o palco principal do NOS Alive’17. Alto, gadelhudo, de guitarra azul na mão, não havia como confundir: tinha chegado Dave Grohl, tinham chegado os Foo Fighters, nome maior do segundo dia do festival. Dave entrou aos berros e atirou-se a All My Life, e a entrada em palco sugeriu logo o que iria acontecer durante as duas horas e meia que se seguiram: rock sem rodeios, directo ao assunto e muita euforia do lado da plateia. A noite foi longa mas ninguém reparou, Grohl conversou com o público, contou histórias e fez de anfitrião perfeito, é aquele tipo porreiro que todos adoramos. A banda foi sacando êxito atrás de êxito: Times Like These, Learn To Fly, The Pretender e Something From Nothing (esta última já de Sonic Highways, o mais recente trabalho que data já de 2014) para abrir, e uma apresentação de banda que nos traz Cult (por Chris Shiflet, na guitarra), Ramones (por Patt Smear) e Queen (primeiro por Nate Mendel, no baixo, depois pela voz de Taylor Hawkins, na bateria). Houve de tudo, portanto, até tempo para tocar os cânticos que vinham do público (e foram alguns), tanto que a certa altura Grohl dizia gostar mais das nossas canções do que das dele. Assim se passam duas horas e meia sem se reparar nisso: a dançar e saltar com as mais antigas (This is a Call, Monkey Wrench), a cantar em coro perfeito (Wheels, My Hero, Best of You) e a rir das piadas de Dave Grohl. A noite pôs-se fria, mas também ninguém reparou. A certa altura Alison Mosshart regressou ao palco para partilhar microfone com Grohl em La Dee Da, uma das novas canções que a banda de Seattle tem apresentado (o novo disco, Concrete and Gold, tem data de lançamento marcada para Setembro), e depois de tanto momento especial, Grohl queria anunciar a despedida, mas o público não o deixava. “Pronto, não vou dizer mais nada”, e soaram os primeiros acordes de Everlong. Despedida em grande dos Foo Fighters, que não passavam por cá há já seis anos, e esperamos sinceramente que não demorem tanto a regressar. Precisamos sempre de noites destas. *

Nunca nos queixaremos do tempo de duração do concerto dos Foo Fighters, mas ficámos com pena de não ir a tempo de ir experienciar a festa de Parov Stelar (fotos), de que tanto por aqui se fala, devido a passagens anteriores do austríaco pelo Passeio Marítimo de Algés. Talvez seja altura de voltar fora do contexto de festival.

Não há como negar que os Foo Fighters saíram como os grandes vencedores da noite, mas não conseguimos esquecer as espantosas Savages, as melodias bonitas das Warpaint, a garra de Alison Mosshart, dos Kills, nem as vozes arrepiantes das Golden Slumbers. Foi dia de guitarras bem alto, sim, mas foi um dia cheio de mulheres aguerridas também. Venham mais assim.

 

Vai ser tão bom, não foi?

Ontem foi a vez de Teresa Domingues nos dar conta das suas expectativas para o segundo dia de NOS Alive. No final, voltámos a encontrá-la para fazer o rescaldo da noite. Vê aqui o vídeo.

 

* Nota de redacção: Por opção dos artistas não nos foi possível fazer registo fotográfico do concerto de Foo Fighters

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gostava de cogumelos mas agora até os tolera. Continua sem gostar de feijão verde.


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