Um aplauso para o Senhor Fado – Carlos do Carmo

Um aplauso para o Senhor Fado - Carlos do Carmo

Perdoar-me-ão os clichês e frases feitas num primeiro dia do ano* que todos esperamos melhor que o anterior. Contudo o homem, a carreira e o momento não permitem sequer ensaiar voos rumo à originalidade.

Nos primeiros momentos do meu dia com a chegada (in)esperada da notícia da morte de Carlos do Carmo ocorreu-me, como terá acontecido a muitos, que “conta ainda como desgraça de 2020”.

Em novembro de 2019, com a saúde já fragilizada, O Senhor Fado subia pela última vez ao palco declarando:

Este será o ano da despedida, sem amarguras, sem azedumes. Será o ano de despedida com muita gratidão a todas as pessoas que me têm dado ao longo da vida tantas alegrias e tantas generosidade

Na noite de 9 de novembro transato a entrada no Coliseu dos Recreios fez-se com eficácia mas alguma demora. Cumpriam-se os protocolos e medidas de segurança próprios de acontecimentos oficiais. Carlos do Carmo recebeu o seu público com uma magnífica retrospetiva da sua carreira. A produção – irrepreensível – conseguiu abarcar os 57 anos de carreira num inesquecível render de homenagens. Carlos do Carmo e o país declararam-se mútua e eternamente enamorados.

Numa sala completamente esgotada havia muito, o serão foi partilhado com admiradores anónimos, familiares, amigos e as mais altas figuras de estado e da cidade. (Presidente da República, Primeiro Ministro e Ministra da Cultura, entre outros)

Lisboa, há muito rendida à Voz, passou nessa noite a ser oficialmente a Menina e Moça de Carlos, com a entrega das chaves da cidade pela mão de Fernando Medina.

Estávamos cientes da importância daquela despedida, não só naquele instante, como adivinhávamos o peso que haveria de ter mais tarde, numa manhã que se desejou mais longínqua mas aconteceu hoje, 01 de janeiro de 2021.

Os milhares de Putos que nasceram, cresceram e/ou envelheceram com as canções eternizadas pelo homem que veio para o fado e ficou, sabiam então como hoje que, sempre que uma gaivota nos traga o céu de Lisboa pensaremos que jamais se acaba a Primavera e que qualquer cheirinho português e todas as “quentes e boas” trarão sempre o perfume e calor da voz de Carlos do Carmo.

No momento em que o país chora a sua morte, as colinas e canoas de Lisboa despedem-se fisicamente deste homem que conta no seu historial com presenças nos palcos de todo o mundo e, entre outras distinções, foi agraciado com o Grammy Latino de Carreira, nós redundamos no reconhecimento do privilégio de ter partilhado boa parte da vida e obra do Homem da Cidade.

No ano passado Carlos do Carmo nos brindou com o exemplo acabado do que significa saber sair de cena. Fica hoje assente e provado que jamais sairá.

* N.R.: O artigo foi escrito a 1 de Janeiro apesar de apenas publicado a 3 de Janeiro

Carla Flores  

A repórter de guerra sonhada aos 10 anos deu lugar à professora de inglês que se dedicou a outras lutas, como a da promoção da leitura e a aquela coisa do "ah e tal, vamos lá mudar o mundo antes que ele nos mude!


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