12 Jul 2018 a 14 Jul 2018

Tudo a seu lugar – o primeiro dia de NOS Alive’18

Tudo a seu lugar - o primeiro dia de NOS Alive’18

Se os Arctic Monkeys não convenceram, os Nine Inch Nails roubaram o prémio de concerto da noite. Wolf Alice, Friendly Fires e Khalid aqueceram os ânimos no palco secundário. Assim foi o primeiro dia de NOS Alive’18.

Em termos de t-shirts envergadas pelo público presente neste primeiro dia de NOS Alive, os Arctic Monkeys ganhariam por larga vantagem o estatuto de banda mais aguardada da noite. No entanto, em palco, as coisas não foram bem assim. Acabou por ser Trent Reznor e os seus Nine Inch Nails o único a grupo a ser capaz de dar um concerto digno de cabeça de cartaz. Está bem que começaram cedo (demais, talvez, que luz do dia e o rock imersivo não são coisas que combinem), e está bem que não teriam a maior fatia de fãs no público, mas foram os rapazes de Cleveland os únicos da noite a conseguirem ser tudo o que deveriam ser. Há na música dos Nine Inch Nails um balanço por vezes caótico entre a explosão sonora e a melodia tenra, como há na voz e performance de Trent Reznor (quase sempre debruçado sobre o suporte do microfone e de t-shirt negra esburacada) uma capacidade notável em ser intimista e emocional e de seguida animalesco e visceral. Tudo isto, juntando um jogo de luz magnífico e a imagem a preto e branco dos ecrãs laterais, fizeram com que o concerto dos Nine Inch Nails fosse o concerto da noite. Hurt foi o momento mais bonito, Closer, Copy of A, Wish e a versão de I’m Afraid Of Americans, de David Bowie, outros dos melhores momentos de um concerto cheio deles. Talvez um pouco por demérito dos companheiros de cartaz, mas maioritariamente pela entrega irrepreensível dos próprios, foi Trent Reznor e companhia a ganhar a noite.

Nine Inch Nails - Foto de Arlindo Camacho (NOS Alive)

Nine Inch Nails - Foto de Arlindo Camacho (NOS Alive)

Antes, Miguel Araújo tinha aquecido as hostes, conseguindo uma bela massa humana junto do palco NOS a cantarolar os seus êxitos radiofónicos que em palco ganham outra roupagem, com sopros, teclas e uma aragem mais folk que pop. Logo depois, o sempre elegante Bryan Ferry debitou êxitos passados, tanto dos seus Roxy Music como da sua carreira a solo. Slave to Love e Avalon foram, não surpreendentemente, os momentos mais festejados pelo público, ainda que todo o concerto tenha contribuído para um belo final de tarde no recinto. Já bem depois da hora de jantar, e com alguns minutos de atraso, foram os Snow Patrol que se encarregaram de entreter o público ansioso pelos Arctic Monkeys. Tarefa difícil, portanto, para Gary Lighbody e seus comparsas que voltaram este ano aos discos depois de uma paragem de sete anos. Donos de alguns dos maiores hits do rock britânico dos 00s, os Snow Patrol nunca se conseguiram bem distinguir dos seus singles e o concerto é uma prova disso: ganha ritmo quando o público reconhece temas (You’re All I Have, Open Your Eyes, Run ou Chasing Cars), mas fora disso nunca sobe do morno.

Quem também raramente saiu do morno foram os Arctic Monkeys. Com o novo Tranquility Base Hotel & Casino na bagagem, os rapazes de Sheffield deram um coeso e competente concerto, mas nunca muito convincente. Isto porque quem conhece os Arctic Monkeys como miúdos irreverentes de riffs de guitarra e ritmos acelerados já quase não os reconhece nos novos Monkeys (única palavra que se lê no pano ao fundo do palco), de fatos elegantes, óculos retro, cabelo seboso e uma atitude francamente exagerada. Alex Turner pode já ter 32 anos, mas a pose que parece esforçar não lhe cai bem. A música, essa, entra no embalo que caracteriza o último disco, odiado por muitos, amado por uns. Nem Brainstorm, nem Teddy Picker, nem 505, nem Cornerstone ou The View From The Afternoon parecem conseguir descolar o suficiente do ambiente lounge a que o grupo se parece agora dedicar. Claro que continuam todos a ser grandes temas, até porque estamos a falar de uma das melhores bandas dos últimos tempos e o estatuto de Turner como um dos grandes compositores dos nossos dias segue imaculado, mas esta roupagem dada tanto às canções como a todo o concerto acaba por amolecer até um ponto que parece irreversível. Mas não é. Para nossa salvação, há Do I Wanna Know? (que acorda um público até ali muito adormecido), single unânime do último sucesso discográfico do grupo (AM, 2013), arrebita os ânimos e mantém a fasquia para dar lugar a I Bet You Look Good On The Dancefloor, Arabella e R U Mine?, que fechou a noite num ritmo nada condizente com toda a hora e meia que lhe antecedeu. Uma desilusão, para muitos, este aparente apagar da chama mais barulhenta dos Arctic Monkeys. Talvez venham daí uns novos e mais decididos Monkeys, mas por enquanto, em palco como em disco, ainda não nos convencem.

Arctic Monkeys - Foto de Arlindo Camacho (NOS Alive)

Arctic Monkeys - Foto de Arlindo Camacho (NOS Alive)

A pop triunfante dos D’ALVA, a festa dos Friendly Fires, o amor segundo Khalid e a certeza que é Sampha

Para além do palco NOS, um pouco por todo o Passeio Marítimo de Algés há música a que prestar atenção em qualquer edição do NOS Alive. Este ano, foram os portugueses QuartoQuarto os responsáveis pelo primeiro concerto da tarde. A banda vencedora do festival termómetro deste ano actuou no palco Clubbing, às 17h. Mais tarde e nesse mesmo palco o público multiplicou para receber a festa que são os D’ALVA. Com a promessa de apresentação de temas a sair no novo disco, com data de lançamento marcada para 12 de Outubro, a dupla portuguesa contou com muito apoio na plateia e não vacilou. Entre canções já celebradas do álbum de estreia (que apresentaram neste mesmo palco, há quatro anos), como #LLS, Frescobol ou Homologação, a banda trouxe temas inéditos e muita diversão. É que pelo meio da pop tão cuidada como despreocupada há vários momentos de diversão pura, com passagens por temas de Blaya ou Kendrick Lamar a proporcionar festa rija. A evolução de há quatro anos para cá é notável e o público fiel que os recebe prova de que só têm por onde crescer.

Ao mesmo tempo, ali ao lado no palco Sagres, eram os Wolf Alice quem regressava a um palco onde já tinham sido felizes. Depois da passagem pelo NOS Alive em 2016, a banda de Ellie Rowsell regressou agora com novo disco Visions Of Life e foi responsável por representar o rock de guitarras afiadas no palco secundário.

Isto porque tudo o que se seguiu no palco Sagres foi-se afastando da sonoridade principal do certame. Primeiro, os Friendly Fires fizeram a festa perante uma tenda bem cheia. Podem estar longe dos discos desde 2012, mas nunca ficaram muito longe das nossas playlists. Provavelmente uma das bandas autora de temas que toda a gente conhece sem o saber (olá, Paris), os Friendly Fires voltaram este ano com o single Love Like Waves e não perderam nada daquilo que mais adorávamos na sua pop electrónica bem polida.

De seguida, foi Khalid a fazer as delícias de uma massa surpreendente de juventude que tornou impossível chegar perto da tenda que dá casa ao palco secundário do festival. O jovem de 20 anos trouxe o álbum de estreia American Teen e todos os presentes souberam acompanhar palavra a palavra as músicas desta próxima grande estrela do R&B norte-americano. Saved, Shot Down, Young Dumb & Broke ou Let’s Go foram pontos altos num concerto feito maioritariamente pelo público. Khalid é estrela ascendente a seu direito, sim, a voz não engana e o ouvido para refrães e hooks tão viciantes como os seus também não. Dança com as suas dançarinas sem nunca perder a afinação e deixa todas as deixas possíveis para o público terminar, mas – talvez tenha sido deslumbre pela recepção calorosa – por vezes pareceu-nos demasiado em piloto automático.

Ao fechar a noite, enquanto os cabeças de cartaz do palco principal fechavam a sua actuação, o britânico Sampha trouxe Process pela primeira vez a Lisboa. O disco, vencedor do aclamado Mercury Prize do ano que passou, é uma bela colecção de temas que tanto roçam a pop como o R&B ou a electrónica. A voz de Sampha tudo o melhora, e as melodias que vai criando ao piano ora surgem sozinhas (como na belíssima (No One Knows Me) Like The Piano) ora incorporadas em batidas contagiantes (Plastic 100ºC ou Blood On Me). Pronto para voos ainda maiores, Sampha provou ser uma aposta segura e o público português parece já não ter dúvidas sobre isso.

O NOS Alive continua esta sexta-feira com Queens of The Stone Age, The National, Yo La Tengo, Portugal. The Man e muitos outros.

 

N.R.: Não nos foi possível fotografar os concertos de Arctic Monkeys e Nine Inch Nails

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gosta de cogumelos.


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Mais sobre: Arctic Monkeys, Bryan Ferry, D'Alva, Miguel Araújo, Nine Inch Nails, QuartoQuarto, Snow Patrol, Wolf Alice


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