António Zambujo do avesso no Coliseu dos Recreios

Cantor alentejano apresentou no passado dia 1 de Março o seu último álbum, Do Avesso, perante um Coliseu dos Recreios cheio.

Quem se dirigiu ao Coliseu de Lisboa na passada sexta-feira à espera de um, digamos, tradicional concerto de António Zambujo terá saído no mínimo surpreendido. Já quem prestou atenção ao último trabalho do bejense poderia adivinhar várias mudanças. É que em Do Avesso, Zambujo sai da zona de conforto onde se instalou com sucesso desde Guia (2010). Não que houvesse algo de errado nessa zona que criou para ele próprio, onde tão bem cruzou o fado com o cante ou o bossa nova com o jazz. Mas, se esse trabalho se consolidou com Quinto (2012) e viu em Rua da Emenda (2016) uma já desgastada continuação, estava na hora de Zambujo partir para novos voos. E como faz isso um artista já tão conhecido e acarinhado, tão intrinsecamente ligado a uma sonoridade como o fado, de sair dessa zona de conforto e abraçar outras aventuras? Soa a tarefa difícil mas o que ouvimos em Do Avesso é um à vontade e até uma certa diversão que confirmamos no espectáculo do Coliseu.

Há temas mais pop, teclas que convidam a dançar, guitarra eléctrica e percussões que elevam Zambujo a mais do que um novo intérprete do fado – se dúvidas ainda houvesse que a voz de Pica do Sete já é muito mais do que isso. Grande culpada desta transformação, a banda que o acompanha é exímia na criação de novos ambientes não só nas novas canções mas especialmente em novos arranjos para temas mais antigos. Aos já habitués Bernardo Couto, na guitarra portuguesa, José Miguel Conde, nos clarinetes,, e João Moreira no trompete, juntaram-se agora Diogo Alexis, no contrabaixo e baixo eléctrico, Filipe Melo, nas teclas, e Nuno Rafael, na guitarra, percussão e direcção musical. Estas novas camadas adicionadas à música de António Zambujo fazem com que temas como Canção de Brazzaville, Queria Conhecer-te Um Dia ou Flagrante soem a canções novas, mas é em Algo Estranho Acontece e A Tua Frieza Gela que mais se destacam os novos arranjos, com a primeira a ecoar guitarra eléctrica digna de qualquer banda de rock and roll e a segunda a mergulhar num ambiente algo dead combesco (se é que me faço entender), tão cativante quanto sombrio.

Dos novos temas destacam-se Catavento da Sé, de melodia mais radiofónica, Não Interessa Nada, de ritmo gingão e com Zambujo a braços com uma guitarra eléctrica, ou a simplicidade de Amapola. Não faltaram também êxitos como Zorro, Pica do Sete ou Reader’s Digest mas foi com Foi Deus e Valsinha (de Chico Buarque) que António Zambujo, a sós no palco com a sua guitarra, nos relembrou que na sua voz podem caber novas sonoridades, mas não há nada como voltar à raiz.

N.R.: Por motivos de agenda só nos foi possível fotografar o concerto do Porto

Teresa Colaço  

Tem pouco mais de metro e meio e especial queda para a nova música portuguesa. Não gostava de cogumelos mas agora até os tolera. Continua sem gostar de feijão verde.


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