U2 em Lisboa – o futuro começou aqui

U2 em Lisboa - o futuro começou aqui

Os U2 deram ontem o primeiro de dois concertos na Altice Arena, em Lisboa. Esgotadíssimos, os espetáculos fazem parte da digressão “eXPERIENCE + iNNOCENCE” que levou o público, quase todo muito adulto, à euforia.

Desde pôr o dedo na ferida sobre os partidos políticos europeus com posições cada vez mais extremadas, à crise dos refugiados, Bono foi o condutor de um espetáculo que trouxe os bons velhos irlandeses não só à música que arrasta milhões por esse mundo fora e esgota bilhetes em poucas horas, como também à intervenção social que sempre fizeram questão de marcar.

Charles Chaplin e o seu Hynkel de O Grande Ditador, foram o ponto de partida para mais de duas horas de um espetáculo (sim, nem se pode chamar apenas concerto), que eleva a fasquia do que se espera de um “ao vivo” a patamares muito superiores aos de uma boa banda.

As sátiras e críticas à guerra e ao autoritarismo estão presentes nas fotografias que nos vão desfilando de uma Europa a despedaçar-se na década de 1940. De Portugal vemos uma imagem de 1926, estranhamente aplaudida. E tudo começa com The Blackout.

Os U2 são uma banda de excelência e até a experiência sonora se pautou por um sistema diferente de PAs do que estamos habituados a ver e ouvir. Para o público, resultou numa experiência melhor, pelo menos para quem estava nas bancadas. Quanto à voz de Bono, em nada parecia ter reflexos dos problemas que o cantor enfrentou em Berlim.

A atuação decorreu entre três lugares distintos: o palco “tradicional”, um palco secundário, semelhante a um heliporto, no meio do grande público, e uma espécie de passadeira ladeada pela tal grande manifestação tecnológica que será esta espécie de grelha que, a espaços, serve de tela onde o próprio Bono também entrou e interagiu com a animação que decorria enquanto cantava Cedarwood Road que fecha o ciclo da história que Bono contou sobre ele próprio:

Um miúdo banal que se tornou excecional por causa da música.

Lá atrás, I Will Follow (1980) e Beautiful Day (2000) fizeram as delícias de quem estava expectante pelas mais clássicas. Iris é precedida de uma referência à mãe do cantor e temos direito a espreitar um bocadinho pela janela da intimidade da família ao vermos imagens da senhora em jovem e no casamento.

Com Sunday Bloody Sunday não se arrumam as histórias pessoais. A “canção-carimbo” do álbum War, de 1983, remete para o trágico episódio conhecido como Domingo Sangrento, em Derry, no qual as tropas britânicas mataram manifestantes de direitos civis.

Eu ia apanhar um autocarro e lembro-me que não consegui chegar ao destino. Havia bombas por todo o lado. Alguns de nós conseguimos fugir, outros não, e outros perderam familiares a tentar fugir

, lembra Bono. Nesta toada ainda ouvimos Until The End of The World para, a seguir, a “turma” mudar para o tal palco próximo dos fãs e para um registo mais festivo com Elevation, Vertigo e Even Better Than The Real Thing.

Mais à frente, voltam as histórias pessoais. Como se Bono se socorresse delas para tirar partido do natural “voyeurismo” que há em cada um de nós e a seguir remeter para uma questão fraturante e preocupante, como é a dos muitos barcos naufragados e milhares de vidas perdidas depois de dias à deriva nas tão noticiadas fugas de refugiados. Esta falou-nos das férias em família, dos protetores solares por abrir, e do mar Mediterrâneo a ser palco de tragédias. E ouve-se Summer of Love, do ano passado, intercalada por Pride (In The Name of Love), de 1984, para irmos novamente parar à recente Get Out Of Your Own Way.

The Edge vai intercalando o sintetizador e a guitarra, numa conceção de palco que também ela denota a introdução de alguma tecnologia de ponta: apenas um cabo é visto a ligar os instrumentos, precisamente deste homem.

Antes do encore, temos New Years Day e a bandeira da União Europeia com 12 estrelas.

Recusamo-nos a odiar porque sabemos que o amor faz melhor serviço

, dizem. E também nos felicitam por sermos o país de uma intrigante combinação de nomes: Cristiano Ronaldo, Eusébio e António Guterres. Temos ainda um agradecimento pessoal por parte do Bono:

seria um quarto do que sou sem os meus colegas de banda; seria metade do que sou sem a minha companheira

Ouvimos City Of Blinding Lights e as luzes apagam-se.

No encore, One pôs a Altice Arena a cantar em uníssono, terminando com uma defesa à comunidade LGBT com o novíssimo Love Is Bigger Than Anything In Its Way.

Logo após 13 There Is a Light Bono desaparece e, tanto pela tecnologia como pelas questões sociais levantadas esta noite, dou por mim a pensar onde estaríamos se Michael Jackson fosse vivo…

 

Fotos: D.R. / Danny North
Não nos foi permitida a realização de reportagem fotográfica

Daniela Azevedo  

Jornalista, curiosa sobre os media sociais, viciada em música, gosta da adrenalina do desporto motorizado. Amiga dos animais e apreciadora de dias de sol. Acha que a vida é melhor quando há discos de vinil e carros refrigerados a ar por perto.


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