Two Door Cinema Club: a celebração de um tempo que não volta mais…

Two Door Cinema Club: a celebração de um tempo que não volta mais...

A banda norte-irlandesa está de volta aos palcos, após uma pausa de um ano e meio. O Porto, no Pavilhão Super Bock – Rosa Mota, foi a sua primeira paragem para celebrar 15 anos do icónico primeiro álbum Tourist History. Mais do que um concerto, foi um reencontro com as canções que marcaram uma geração.

A primeira parte ficou a cargo dos portuenses Marquise, que ainda há pouco tempo fizeram as delícias de quem ainda se digna a acompanhar o malogrado Festival da Canção com o tema Chuva. Lançaram o álbum de estreia, Ela Caiu, em 2025 e têm dado que falar nos circuitos underground do post-punk.

Nesta noite de 3 de junho, foi impossível ficar-lhes indiferente. Mesmo com uma plateia ainda a compor-se (uma atitude tipicamente tuga) mostraram que ao vivo são ainda mais poderosos do que em estúdio. Destaque absoluto para o alcance vocal de Mafalda Rodrigues e para a impressionante mestria de Matias Ferreira na bateria. No final, Matias ainda fez questão de pedir uma salva de palmas para quem ali estava a trabalhar e para quem tinha optado por não o fazer, afinal, o dia ficou também marcado por uma importantíssima Greve Geral.

A celebração de um tempo que não volta mais…

No intervalo, após a atuação dos Marquise, reparámos na plateia numa t-shirt do então Ritek Paredes de Coura 2011, edição onde já tínhamos tido o prazer de ver os Two Door Cinema Club, precisamente no último dia do festival. Foi inevitável mergulhar nas memórias de um tempo que, definitivamente, não volta mais.

Para celebrar os 15 anos de Tourist History, é preciso compreender como era o mundo dos fãs desta banda no início da segunda década do século XXI. Pelo MySpace e pelo YouTube chegavam-nos canções hoje icónicas como I Can Talk, What You Know e Something Good Can Work. Quando vieram a Portugal pela primeira vez, foi para inaugurar as, entretanto desaparecidas sessões TMN ao Vivo. Nessa realidade distante, cada SMS enviada para outra operadora parecia um assalto à carteira e mandávamos Kolmis aos amigos na esperança de que tivessem saldo suficiente para nos responder.

A crise já cá estava e, mesmo com a Troika quase a bater-nos à porta, quando os meios de comunicação internacionais vinham filmar as Greves Gerais, acabavam desiludidos com um Terreiro do Paço vazio, transformando-nos mundialmente na chacota da nossa própria dormência coletiva. Os tempos socioeconómicos não eram assim tão diferentes dos de hoje. Nós é que éramos mais novos e, talvez, mais ingénuos.

O concerto de ontem foi, por isso, um deambular por essa ingenuidade da adolescência e da entrada na idade adulta da geração Y. Com uma plateia em pé muito mais composta e o balcão 0 praticamente cheio, não se ouviram apenas os temas mais celebrados da carreira destes senhores da Irlanda do Norte. De notar, foram os visuais e a entrega de Alex Trimble nos vocais que transformaram um espetáculo dividido em três capítulos com canções de outros discos e EP’s pelo meio, algo muito mais maduro e coeso do que aquilo a que a banda nos habituou. Para os menos conhecedores, esta divisão por capítulo permite à banda dar uma fluidez ao espetáculo que não encontraríamos se Tourist History fosse tocado do início ao fim pela ordem como nos foi apresentado em gravação.

O verdadeiro Santo Graal da noite, e que merece todos os elogios, foi mesmo a produção visual: os painéis, os vídeos, o desenho de luz, as cores e os grafismos. Já não se trata de um simples ecrã com o nome da banda projetado durante todo o concerto, mas de uma experiência muito mais sofisticada e envolvente. Desta vez, nem sequer se pode censurar a plateia por passar demasiados momentos de telemóvel na mão. A componente visual era demasiado graciosa para não querer guardar um registo. Ainda assim, o público nunca deixou de se mostrar entregue ao espetáculo, e no fim com What You Know (a canção mais celebrada da noite), cantaram-na de pulmões abertos. O seu início nem precisou da voz de Alex: foi a plateia, em uníssono, que tomou conta do momento.

E foi assim que os Two Door Cinema Club nos deixaram: perdidos entre memórias, nostalgia e as canções que marcaram uma geração.

Hoje atuam no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, novamente pela mão da Last Tour, com os nossos queridos Hause Plants a assumirem a abertura da noite.

Ana Duarte  

Consultora Musical na Fonograna e fundadora da webzine CONTRABANDA. Estudou Music Business na Arda Academy e Línguas, Literaturas e Culturas na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Tinha uns pais melómanos que a introduziram a concertos/festivais, ainda tinha ela dentes de leite. 3 décadas depois, aproveita para escrever umas coisas no ponto de vista de espetador melómano (quando a vida de consultora musical lhe permite).


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