Tame Impala – Um concerto caleidoscópico

Tame Impala – Um concerto caleidoscópico

Fotografia © Tiago Cortez / Everything Is New

Foi preciso esperar mais de uma década para ver Tame Impala fora do circuito de festivais em Portugal e a resposta não podia ter sido mais clara: duas arenas esgotadas. No espaço de 24 horas, Porto e Lisboa receberam os primeiros concertos da digressão europeia de apresentação de Deadbeat, com a MEO Arena a acolher, no domingo de Páscoa, o segundo capítulo dessa estreia.

Na véspera, a Super Bock Arena já tinha dado o sinal: casa cheia e rendida ao universo de Kevin Parker, figura central do projeto. Em Lisboa, o cenário repetiu-se: uma sala esgotada, indiferente ao sol primaveril lá fora. O novo álbum, editado em 2025, surge após o maior hiato da carreira de Tame Impala, sucedendo a The Slow Rush, lançado cinco anos antes, um intervalo que ajudará a explicar a elevada expectativa. Mas o contexto é ainda mais significativo: até agora, as passagens da banda por Portugal tinham-se limitado a festivais como o NOS Alive e o NOS Primavera Sound.

Coube aos RIP Magic abrir a noite, num recinto ainda longe da lotação completa, trabalhando na construção do ambiente para o espetáculo principal. Embora com um alinhamento discreto, o quarteto londrino que cruza eletrónica experimental, pós-punk e psicadelismo, ajustou-se à estética sonora de Kevin Parker.

À hora marcada, a MEO Arena deixou de ser apenas uma sala de espetáculos para se transformar num espaço imersivo. Com cinco músicos em palco, Kevin Parker assumiu o controlo de uma atuação muito construída, onde cada faixa foi pensada não apenas como música, mas como momento sensorial. A possível sinestesia de Kevin Parker, que o levará a associar som a cor e forma, poderá estar na origem desta metamorfose da sala num espaço de clubbing, com o concerto a assumir fortes contornos visuais. Desde o primeiro momento, luzes e lasers cruzaram-se, imergindo o público no universo psicadélico de Kevin Parker. Os elementos visuais estiveram, aliás, sempre em perfeita harmonia com também poderoso equipamento de som, propagando-se ao longo da sala e vibrando ao ritmo imposto pelas canções de Tame Impala. A par de explosões pontuais de confettis multicolores e da integração de ritmos de house, mais evidentes no novo álbum, construiu-se uma experiência de rave.

Telemóveis em riste enquanto Apocalypse Dreams abria o espetáculo. Com diferenças pequenas em relação ao concerto do Porto, o alinhamento apresentado confirmou o que já se antecipava: um percurso pela discografia da banda, mas com um foco na nova direção. Como não poderia deixar de ser, os “clássicos” Elephant, Borderline, Feels Like We Only Go Backwards, Let It happen e The Less I Know the Better não foram esquecidos. Houve ainda espaço para um segmento mais íntimo, com Kevin Parker a deslocar-se para um pequeno palco central, decorado com abajures e um tapete, onde manipulou sintetizadores e apresentou No Reply, Ethereal Connection e Not My World. Através da câmara-stalker de Kevin Parker projetada nos ecrãs, o público teve acesso a momentos mais informais: a puxada de um cigarrinho entre canções, uma pausa para ir à casa de banho e até pequenos imprevistos técnicos em My Old Ways…tudo para criar uma sensação de proximidade, como se estivéssemos ao seu lado. Apesar de sóbrio nas suas mensagens, teceu palavras de apreço e de adoração a Portugal e ao público português, chegando assinar a sweatshirt de um fã nas primeiras filas. Temas como Dracula, Afterthought e My Old Ways, já do novo álbum, foram recebidos com entusiasmo por um público claramente disposto a abraçar a viragem mais dançável do projeto. Essa dimensão festiva tocou o auge em momentos como Let It Happen, apoiado em disparos de confetti que confirmavam uma celebração à la “revenge”.

O encore terminou com End of Summer, igualmente de Deadbeat, com a plateia totalmente entregue à celebração, sobretudo de uma nova identidade do projeto de Kevin Parker. Este concerto em nome individual marcou uma mudança de escala, onde Tame Impala mostrou que não é apenas um projeto de estúdio ou um nome de festival. Mostrou um artista que, apesar de permanecer resguardado, parece hoje mais confortável para se mostrar e comemorar o seu espaço na música atual.

Nota da redação: Não nos foi autorizado fotografar o concerto.


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