23 Mar 2018 a 24 Mar 2018

Super Bock Under Fest, segundo dia – o triunfo de Benjamin e o adeus a Vigo

Super Bock Under Fest, segundo dia - o triunfo de Benjamin e o adeus a Vigo

A cidade de Vigo acordou para o segundo dia de Super Bock Under Fest debaixo do manto cinzento das nuvens que não aliviaram a chuva em momento algum do Festival.

Mas nem isso demoveu o público a deslocar-se ao que seria, nesse dia, o centro nefrálgico do certame, o Auditório Mar de Vigo.

Myles Sanko e Benjamin Clementine foram os grandes protagonistas da noite. O primeiro, músico inglês, natural do Gana, que faz um soul moderno e elegante com as raízes todas destacadas desde Otis Redding a Al Green, teve a difícil tarefa de agitar um auditório com capacidade para mil e quatrocentas pessoas sentadas, preenchido a meio gás. Nas alturas mais difíceis, descobre-se a fibra dos grandes artistas, Myles Sanko é um deles. Quebrou o gelo com enorme facilidade, brincou com o público ao dizer que se encontravam, praticamente, num concerto VIP. Levantou a plateia que dançou e cantou ao som dos temas de Forever Dreaming e dos mais antigos singles da época em que ainda abria os concertos de Gregory Porter, uma altura que parece tão longínqua tal é a competência e imponência de leading man que Sanko transmite. Com uma banda de apoio de 6 elementos, consegue reproduzir um som extraordinário que nos deixa a esperança que o legado da soul está bem entregue em 2018, mesmo depois das perdas que sofreu em 2017. Destaque para o músico que se dividia entre o saxofone e a flauta transversal e que, com esta última, ofereceu um dos mais impressionantes solos de jazz que alguma vez ouvi.

 

Benjamin Clementine subiu ao palco, às 21h30, no Hall do Auditório, onde os Slowdive no passado dia 10 de Março abriram o Festival com um concerto de antecipação. A sala cheia, para uma plateia em pé que, segundo a produção, foi exigência do artista. Percebe-se porquê. Clementine espera que o seu público reaja às suas músicas e a ele da forma mais espontânea e vibrante possível e tenta, o tempo todo, retirar isso dela, por vezes é difícil, nem sempre temos a melhor plateia à nossa frente mesmo com um espanhol impecável e bem estudado, de frases completas.

I Tell a Fly é o seu segundo álbum, lançado em Maio de 2017, e que retoma, agora, a tour, levando Benjamin novamente para a estrada. O palco está ligeiramente diferente desde a última vez que o vimos no Vodafone Paredes de Coura. A farda de serviço é a mesma, os macacões azuis escuros com bordados brancos nos ombros continuam iguais, a decoração enche-se com luzes penduradas como bolbos e manequins com figuras de homens, crianças, uma mulher grávida, uma família. Desde a última vez que o vimos, Benjamin também formou uma família e foi pai no passado dia 25 de Dezembro.

A setlist foi preenchida maioritariamente com temas de I Tell a Fly mas os já clássicos Condolences e Nemesis não puderam faltar, nem a participação do público na primeira a cantar a pedido de Clementine que ensinava, tal maestro, o público a entoar na perfeição os versos. Os momentos mais solenes e de maior emoção aconteceram com Phantom of Aleppoville e Quintessence, que fechou o concerto antes do encore, com Benjamin e os músicos a destruir os manequins exemplificando a forma como a comunidade internacional destrói os fracos ou os vê a ser destruídos sem nada fazer. Sem grandes cenas e sabendo de antemão que tinha de voltar ao palco e, pouco dado a dramatismos que não sejam os implícitos no seu processo criativo, Benjamin nem abandonou o público e logo anunciou que ia seguir para o encore, agradecendo em inglês – Thank you for loving me, at least for a while – e fechou com Jupiter, um dos singles do mais recente trabalho que passava a mensagem clara, we are all aliens.

O festival seguia no centro da cidade, por entre bares e clubes mas, já nada conseguia dar seguimento ao concerto de Benjamin Clementine. Aventuramo-nos pelo Mogambo para Fuckaine, a banda espanhola apelidada pela media local como uma das mais promissoras. Ficámos pela promessa, o punk sem garra e dos Fuckaine fica só pelo cenário, pedais a mais para música a menos, melodias desinteressantes e vocais desnorteados, não conseguiam fazer dos Fuckaine os Vampire Weekend que ambicionam ser.

A noite terminou como termina uma boa noite espanhola, numa tasca a comer patatas bravas e a lembrar os bons momentos, que foram muitos.

O Festival regressa a Vigo no próximo ano, com datas e novidades ainda por anunciar.

Vera Rodrigues  

Editora e produtora de conteúdos do Veracity Music. Especializada em entrevistas e reviews de concertos e festivais.


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Mais sobre: Benjamin Clementine, Fuckaine, Myles Sanko


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