Rock in Rio Lisboa (Dia 3): Voltamos aos anos 80

O Legends Day do Rock in Rio Lisboa foi um sucesso. Celebraram-se os pioneiros do rock português, o poder harmonioso de Cyndi Lauper e a stamina do Rod Stewart, no passado dia 27 de junho.
O dia das lendas arrancou com 4 Non Blondes pelas 16:25, com um palco mundo já muito bem composto de gente que queria reviver os seus badalados hinos, cantados pela voz de Linda Perry, que confessou ter uma costela portuguesa, deixando o público surpreso.
A banda formada em 1989 foi conquistando a audiência aos poucos, com maestria e algumas interações da vocalista. O derradeiro momento de união, para surpresa de ninguém, chegou na última música, a intemporal What’s Up?, na qual Linda Perry desceu ao nível do público para cantar em conjunto com a multidão, mas também chamou o seu filho, Rhodes, de 11 anos, ao palco para cantar o refrão da música, que, para uma criança tão jovem, cantou surpreendentemente bem. Foi desta forma que as 4 Non Blondes se despediram de Portugal.
Pelas 17:25, os palcos Music Valley e Super Bock mediram forças, com UHF e The Wailers, respetivamente. A antiga banda de Bob Marley trouxe a Portugal as raízes da Jamaica e deu um brilharete musical, mas o que mais impactou as pessoas foi mesmo o facto de ser possível ouvir hinos como Is This Love, Jamming, ou Could You Be Loved, pelos seus autores. Os The Wailers foram uma aposta acertada do Rock in Rio Lisboa para o Legends Day.
UHF atravessaram a ponte e deram um arraso autêntico, com alguma portugalidade à mistura. Os lisboetas mostraram a sua dinâmica e agarraram o público desde cedo, com temas como Bora lá, a abrir, Matas-me Com o Teu Olhar, Persona Non Grata, mas também com músicas para sempre marcadas no panorama nacional, como Cavalos de Corrida e Menina Estás à Janela. A banda de 1978 fez ainda algo único nesta edição, escreveram uma canção dedicada ao festival e a esta sua atuação na “Classe de 79”, chamada ROCK in RIO.PT. Após o concerto dos UHF, confirmou-se que António Manuel Ribeiro mantém a voz e o carisma inconfundíveis, e que o som da banda está cada vez mais abundante, com a guitarra de António Côrte-Real em grande destaque.
Mais tarde, quando subiram a palco GNR e Joss Stone, com um recinto ainda mais cheio, havíamos chegado àquela fase dos concertos em que nem sequer havia espaço para abrir os braços. Os portuenses GNR transformaram o Tejo no Douro e mostraram as origens da Invicta num concerto que presenteou os fãs com Video Maria, Sub-16, Pronúncia do Norte, Dunas e Quero Que Vá Tudo Pró Inferno. Rui Reininho, vocalista da banda, fez ainda uma homenagem a um colega de profissão, e de cidade, com quem tinha partilhado palco dias antes: “Desculpem estes óculos escuros, foi o meu amigo Pedro que me deu!” (Referindo-se a Pedro Abrunhosa).
Já no palco Super Bock, a ação era diferente. Joss Stone e o seu sorriso de orelha a orelha, protagonizaram um dos momentos mais bonitos desta edição, que é a maior de sempre do festival, segundo a organização. Embora a estrela britânica tenha cantado temas como Super Duper Love e Right To Be Wrong, o momento que fica marcado é o pedido de casamento que ocorreu antes da música Fell In Love, no qual a artista chamou os (agora) noivos ao palco e deixou a magia acontecer. Em declarações após o concerto, Joss Stone refere que é um momento muito especial, do qual adorou fazer parte, e que será sem dúvida, uma história a contar.
Com o anoitecer já perto, Cyndi Lauper deu um dos melhores concertos da noite e provou porque é digna de estar num dia dedicado às lendas do mundo da música. A artista, além de ter mostrado as suas True Colors a Lisboa, mostrou também que a idade é só um número. A rockar um cabelo azul e um outfit que transbordam personalidade, a abordagem da norte-americana foi disruptiva.
Com o punho cerrado em pé, a artista, já de 73 anos recentemente feitos, ergueu-se pelo que defende e gritou “We will not go back!”, fazendo referência aos tempos antigos em que havia muito mais desequilíbrio e desrespeito pelos direitos das mulheres. A set-list levou-nos de volta aos famosos anos 80 e teve temas como Time After Time, True Colors e Girls Just Want to Have Fun.
Antes do evento principal do palco mundo, foram os nossos Xutos & Pontapés que trouxeram o calor a uma noite muito ventosa, em que o público aderiu em massa e encheu o espaço do palco Music Valley, como já era expectável. Os ícones da música portuguesa tiveram direito a imensos aplausos, mas foram ainda mais valorizados por serem os organizadores de um dia recheado de cultura nacional num palco tão grande como o Rock in Rio Lisboa. A ‘Classe de 79’, curadoria dos Xutos foi um verdadeiro sucesso e uma reunião de titãs que já era necessária há muito tempo para o público do rock português.
Entre hinos, fizeram-se ouvir O Homem Do Leme, Contentores, Não Sou O Único, Para Ti Maria, A Minha Casinha, entre outros.
Por último, e a quebrar todas as leis da física, Sir Rod Stewart subiu a palco, e foi quando menos se esperava que o britânico tirou o fôlego ao público enorme que apareceu para o ver. O cantor, que está na sua digressão de despedida dos estádios e festivais, One Last Time, chegou a cada uma das notas, interagiu e ainda teve tempo para dançar entre tudo, com um estilo unicamente característico e contagiante.
Aos 81 anos, e depois de uma semana complicada, a nível de saúde, Rod Stewart diz estar longe do fim de carreira, e não pretende afastar-se da música. No seu concerto, esteve bem acompanhado de um grupo de músicos de altíssima qualidade e de bailarinas que trouxeram bastante textura à atuação. Ouviram-se, ainda, Da Ya Think I’m Sexy?, Forever Young, Maggie May, Jolene, entre muitos outros hits absolutos da história da música.

