Rock in Rio Lisboa (dia 1): Leques ao alto, a consagração da pop e estoicismo de quem aguenta 33 graus à sombra na primeira fila

O primeiro dia de Rock in Rio Lisboa 2026 fez-se de pop, hits, carinhas bonitas e muito calor. O dia – completamente esgotado e com cerca de 100 mil pessoas a bordo desta embarcação à beira rio atracada – encheu-se de música para todos os gostos (dentro da pop, claro está).
Entre nomes repetentes como Pedro Sampaio, Charlie Puth e Katy Perry, e estreias absolutas como Bebe Rexha, Sofia Camara ou Audrey Nuna, o mais difícil foi mesmo escolher para que palco ir a seguir, visto que muitas das atuações (nos palcos secundários) aconteciam em simultâneo.
A abrir as hostes do festival esteve Sofia Camara no palco Super Bock, a luso-canadiana que está a furar o núcleo pop em Portugal e a fazer furor entre os teens. Com um cenário que nos faz lembrar uma Billie Eilish in the making, a jovem nascida em Portugal mas a viver no Canadá desde criança, encheu as medidas das dezenas de pessoas que marcaram presença na primeira fila para a ver (e também as que, tal qual traças se aproximam da luz, se dirigiram ao palco mal os primeiros acordes soaram). Entre beijinhos enviados do palco, sorrisos tímidos e abraços na primeira fila, a artista não desapontou na sua estreia no festival.
Rumamos depois ao palco Mundo para receber os manos Calema – e já sabíamos ao que íamos. As milhares de pessoas que se foram juntando no público do palco principal já estavam a postos para receber os africanos que mais fazem mexer o público português. Atrevemo-nos a dizer que não havia melhor forma de abrir este palco, principalmente para o artista que se seguia, mas já lá vamos.
No palco Super Bock, os eurovisivos de sorriso aberto Napa trouxeram (entre outros temas) o seu Deslocado e acalmaram o ambiente enquanto o calor continuava nos píncaros. O momento de calmaria que precisávamos antes de continuar a nossa romaria.
Aquecendo as vozes para que se cantasse em português do Brasil, Maninho estreou o palco Music Valley. O artista, autor dos hits Pode Tentar e Garota (com Marisa Liz), começou com um tímido público que aos poucos se aproximou para ver o brasileiro e o seu ensemble de bailarinas.
Mais uma voltinha e apanhamos boleia de cavalinho para o palco Mundo: era hora de Pedro Sampaio! O DJ e produtor autor de Sequência Feiticeira, Galopa, Dançarina e Cavalinho fez do parque Papa Francisco a sua pista de dança. Munido de todos os seus sucessos e com bailarinos a brotar de todos os lados do palco, Pedro Sampaio fez o que nem todos conseguem fazer: história. Extremamente feliz por ter dado o salto do palco Music Valley (onde atuou há dois anos) para o palco Mundo, o artista que teve a sua equipa a distribuir 10.000 leques por todo o público, teve um dos momentos mais mágicos do dia com um “batimento de leque” geral e em uníssono, enquanto o sol de punha por trás dele. Assoberbante é a única palavra que nos ocorre para o que aconteceu quando “Cavalinho” tocou: 100 mil pessoas uniram-se num movimento só e fizeram a coreografia com o capitão Sampaio a comandar as tropas. O verdadeiro brazilian chaos.
Para nos acalmarmos um pouco (ou assim pensávamos nós) e aproveitarmos alguma sombra do palco Super Bock, subimos mais um vale e fomos ter com a estreante Bebe Rexha. A pop vive e muito bem nos hits desta americana. De roupão, rolos na cabeça e cigarro na mão, a artista subiu ao palco com uma mão cheia de bangers e não deixou ninguém indiferente.
No palco Music Valley miúdos e graúdos esperavam ansiosamente por Nena, um mais recentes fenómenos da pop português. De voz doce, sorriso rasgado e um público essencialmente mais jovem, Nena encheu as medidas e o coração dos presentes – alguns até que ficaram durante largas horas após o concerto terminar a tentar ver a artista sair pelo backstage.
E se antes já tínhamos sentido a pressão de estar em dois sítios ao mesmo tempo, agora chegou a prova dos 9: o pop star e tão esperado Charlie Puth atuava na mesma hora que a brasileira Carol Biazin. Entre palco Mundo e palco Bacanaplay Digital Stage, dividimo-nos tal qual Moisés dividiu as águas do Mar Vermelho. No palco Mundo, não nos foi permitido fotografar porém sabemos que o arranque do concerto de Charlie Puth foi lento mas depois de conseguir apanhar o ritmo, foi conquistando o público. Conhecido por ser um super-produtor de hits, a verdade é que o que vimos ontem foi uma demonstração daquilo que Charlie Puth é: um mestre da composição e um encantador de público.
Já uns passinhos mais acima Carol Biazin mostrou que o palco digital não é suficiente para o que nos tem a mostrar. A estreia da carinha bonita mas com garra da música popular brasileira veio apenas provar o que nos fartamos de dizer: há muitas bandas, muitos artistas e muita boa música que ainda tem de ser descoberta e simplesmente não tem um lugar. A verdade é que cada vez mais, festival atrás de festival, vemos uma repetição gigante de bandas em cartazes e se há coisa que neste mundo não existe, é escassez de música boa e que merece ser ouvida. Fortemente amada pela comunidade LGBTQIA+, a brasileira cantou alguns dos seus sucessos que foram amplamente ecoados pelo público.
Ora findo o concerto da brasileira, rumamos mais a sul para um terço do fenómeno Demon Hunters. Audrey Nuna estreou-se em Portugal num concerto pujante, com uma presença fortíssima em palco, acompanhado de bailarinos e com a energia necessária para acordar quem estava a acusar algum cansaço no final da noite.
Em simultâneo, Bárbara Bandeira apresentava o seu mais recente trabalho Lusa: ato II no palco Super Bock. Dona de uma figura marcante, a jovem portuguesa não deixou ninguém indiferente principalmente quando cantou alguns dos seus maiores êxitos como Como Tu, Carro e Onde Vais. Do mais recente álbum ouviram-se, entre outros, Marcha e Rapariga, este último cantado a par com Amália Rodrigues.
E guardamos a cereja no topo do nosso bolo pop para o final. Katy Perry fechou o palco Mundo com uma festa como há muito não víamos. Canhões de água com sabão, aliens gays, astronautas a pousar na lua com a bandeira de Portugal, e até a própria Katy Perry a fazer crow surfing dentro de uma garrafa de plástico gigante. Houve de tudo. E houve também, e quase unicamente, hits. Hits atrás de hits. De California Girls a Teenage Dream, passando por Bon Appétit, In Another Life e I Kissed A Girl não houve praticamente música no alinhamento que um verdadeiro amante de pop (ou de Katy Perry) não soubesse de trás para a frente.
Com sucesso atrás de sucesso, o nosso eterno teenage dream fez questão de falar das suas raízes portuguesas, tentar falar com o público em português e interagir os presentes durante quase todo o concerto. Fez questão ainda de trazer o outfit que usou há 18 anos quando se estreou em Portugal e, assim como os palcos portugueses, continua a assentar-lhe que nem uma luva.
Fechamos o primeiro dia da edição de 2026 com sentimento de dever cumpridos, muitos quilómetros nos pés e talvez umas gramas a menos.
Nota da redação: não nos foi autorizado fotografar o concerto de Charlie Puth.

