Quando a Lei de Murphy dita GLAMour – a reportagem no concerto de Peter Murphy no LX Factory

Quando a Lei de Murphy dita GLAMour - a reportagem no concerto de Peter Murphy no LX Factory

Presença habitual em Portugal, Peter Murphy regressou para comemorar os 40 anos dos Bauhaus. Após a apresentação em Vilar de Mouros no passado mês de agosto, o músico inglês voltou a terras lusas para dois concertos da tournée The Ruby Celebration: Porto a 16 de novembro e Lisboa no dia 17.

A ajudar a aquecer o ambiente da noite chuvosa lisboeta, os londrinos Desert Mountain Tribe, liderados pelo vocalista e guitarrista Jonty Balls ofereceram-nos cerca de meia hora de rock psicadélico que não terá desagradado à generalidade dos presentes, em grande parte surpreendidos com a presença de uma banda antes do “dono da casa”.

Sem conseguir realizar o desejo de voltar a reunir os Bauhaus, Murphy trouxe consigo o co-fundador David J, entusiasticamente aplaudido pelo público. À chamada acorreram todos os resistentes dos movimentos punk, gótico e vanguardistas da capital. O negro das vestes combinava com o cenário industrial e algo decadente da sala da Lx Factory, a fazer esquecer as luzes e tonalidades bem mais variadas dos bares e restaurantes bem como dos muitos turistas com que nos cruzamos para ali chegar.

A sala esgotada foi-se tornando progressivamente mais ruidosa e nem a meia hora de atraso na entrada de Peter Murphy fez arrefecer o ambiente. Após alguns assobios aos primeiros minutos, todos aguardaram, em amena conversa, o retomar de uma história que demorou 40 anos a escrever e cerca de duas horas a contar.

A média etária do público situava-se igualmente nas quatro dezenas, tendo alguns dos mais ‘crescidos’ trazido consigo filhos pré-adolescentes, mas encontramos também fãs bastante mais jovens. Os blusões de cabedal, calças de ganga e t-shirts conviveram com as correntes e as, provavelmente últimas, moicanas e cabelos espetados ao gosto punk, vendo-se a espaços peças de alguma opulência da Lisboa cosmopolita de 2018.

Em palco, Peter Murphy e os músicos que o acompanharam fariam desfilar as 17 canções do alinhamento principal mais quatro dos encores, uma mais que as de praxe, talvez como forma de compensar o atraso ou apenas confirmar a relação especial com Portugal. O músico conduziu com a mestria e rigor a que há muito nos habituou, procurando trazer a sonoridade original da banda agora festejada.

Os 61 anos do cantor de Northampton, com a barba que lhe marca agora o visual, terão, quando muito, acrescentado alguma sobriedade e ainda mais charme, dirão muitos, ao seu desempenho, com a irreverência a persistir como imagem de marca, tanto na música como no músico. A sua presença em palco continua vincada pela teatralidade sempre acentuada por um guarda-roupa cuidado, com destaque esta noite para o blusão a fazer lembrar “pó de estrelas” que intercalou com uma imensa écharpe vermelha ajudando a imprimir dramaticidade à atuação.

O alinhamento, com destaque previsível para In the Flat Field – o primeiro álbum da banda – foi entusiasticamente acompanhado pelos fãs, com temas como Kick in the Eye a serem cantados em uníssono por toda a sala.

Após a interpretação de nove dos dez temas do trabalho de estreia dos Bauhaus (que seria tocado na íntegra), Peter Murphy apresentou os músicos que o acompanhavam, revelando mais tarde um convidado extra que teriam conhecido no voo para Portugal. Por entre sucessivos “Obrigado” que em tudo parecem vindos de lábios portugueses, Peter Murphy apresentou o percussionista Adam Labbar, do Gana, vice-presidente de uma associação de refugiados em Portugal e apelou ao apoio a essas vítimas.

Além de David J e em igual boa forma, acompanham o “demoníaco” Murphy o guitarrista Mark Thwaite e o baterista americano Marc Slutsky, ambos com credenciais mais que firmadas.

Foi então chegada a hora de seguir viagem pelos restantes álbuns de estúdio dos Bauhaus, iniciada com Burning from the Inside, do álbum homónimo de 83, seguido de Silent Edges e um dos incontornáveis pontos altos da noite, Bela Lugosi is Dead.

Dark Entries, de Press the Eject and Give me the Tape, marcou a primeira saída do palco, momento em que era mais que notória a satisfação do público. Ninguém arredou pé, tendo a maior parte aproveitado a pausa para trocar mais uns dedos de conversa, circular um pouco, ou engrossar as constantes filas do bar.

No encore houve lugar a três temas cuja popularidade as covers dos Bauhaus ajudaram a aumentar – Severance, de Dead Can Dance, Telegram Sam, o original dos T-Rex gravado pela banda de Murphy em 1980 e a última inevitabilidade do concerto. Nos últimos minutos do dia todas, as guitarras e vozes, todos os sons… se uniram num encantatório coro em forma de Ziggy Stardust.

Texto: Carla Flores
Edição: Daniela Azevedo
Fotografia: Francisco Morais

Carla Flores  

A repórter de guerra sonhada aos 10 anos deu lugar à professora de inglês que se dedicou a outras lutas, como a da promoção da leitura e a aquela coisa do "ah e tal, vamos lá mudar o mundo antes que ele nos mude!


Ainda não és nosso fã no Facebook?


Mais sobre: Peter Murphy

  • Partilhar:

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *