O Evangelho Segundo Father John Misty: Em Lisboa, o Charmoso Mr. Tillman Só Quer Dançar e Fumar um Cigarro

O Evangelho Segundo Father John Misty: Em Lisboa, o Charmoso Mr. Tillman  Só Quer Dançar e Fumar um Cigarro

As saudades já apertavam. Passado cerca de um ano desde o concerto no Meo Kalorama em 2025, Father John Misty voltou a Lisboa, em nome próprio, no dia 1 de junho, no Sagres Campo Pequeno, e contou com outro concerto no Coliseu do Porto, dia 2 de junho. Com ele, veio J.MYSTERY, o cantor português que garantiu a abertura do aguardado regresso do artista norte-americano.

A relação entre Portugal e Father John Misty já vem dos tempos de Fear Fun (2012), o seu álbum de estreia que o levou a tocar em Vila do Conde. Entre passagens por cá em festivais como Primavera Sound Porto e Vodafone Paredes de Coura, e a sua presença bem estabelecida no Coliseu de Lisboa em 2017, o retorno era inevitável para a promoção de Mahashmashana (2024) e o fim de uma era. O início da digressão europeia começou em Lisboa, mas o Campo Pequeno não encheu apenas com o público português. Vindos de Espanha, Escócia, e até do Canadá, fãs de todo o mundo reuniram-se para a primeira missa de Joshua Tillman, com a promessa de retribuir a intensidade de que os concertos do artista são conhecidos. Intensidade, charme e sarcasmo.

 

A escolha de J. MYSTERY para a abertura foi infalível. O artista português, nomeado para melhor videoclipe com a música “Reverie” na edição dos prémios Play de 2025, conseguiu seduzir o público existente com batidas envolventes e uma voz poderosa que guiou a noite com olhos repletos de orgulho por fazer parte de algo tão especial. A seleção das músicas consolidaram o seu nome como um artista emergente promissor, um capaz de garantir a sua própria multidão em êxtase por uma performance de J. MYSTERY.

 

Tanto J. MYSTERY como Father John Misty partilharam um palco minimalista, íntimo. Um cenário que talvez tivesse sido melhor aproveitado pelo Coliseu dos Recreios, mas isso não parou a admiração visceral pelo artista norte-americano. E, para um concerto com menos músicas que o esperado, não houve um único momento de silêncio.

 

A performance de Father John Misty contou com 18 músicas – o último álbum quase tocado na íntegra, o single “The Old Law” lançado no fim do ano passado, e os hits que jamais poderiam ser excluídos, desde “Nancy From Now On” à viral “Real Love Baby”. O encore surpreendeu com a tríade de “Holy Shit”, “She Cleans Up” e um final estrondoso com “Mahashmashana”. Não houve tempo para respirar, nem parar, porque o objetivo da noite foi desde cedo delineado: não parar de dançar. E os poucos momentos de interação com o público foram memoráveis, tendo o próprio confessado querer passar o resto do tempo a dançar, comer doces portugueses e fumar cigarros (e talvez tenha sido uma referência da curiosidade pelos festejos dos Santos Populares que estavam bem vivos de fora do recinto). Um concerto de Father John Misty é isto mesmo. Cumplicidade, melodrama e simplicidade. E simples apenas no sentido estético, pois não há nada de simples na presença de Mr. Tillman. A noite fez-se de fato, luzes baixas, e nada em palco que remetesse para o nome do artista.

 

O mundo pode estar a colapsar, a sociedade a decair, mas o cinismo e humor particular de Tillman dá-nos a esperança necessária para continuar, e a ambição para dançar nos escombros. Há uma linha ténue entre o misticismo de um culto religioso e um espetáculo de Pure Comedy, chama-se Father John Misty, e nos dias 1 e 2 de junho levou Lisboa e Porto ao rubro, ansiando pela próxima comunhão.


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