Não Houve Cartão Vermelho em Lisboa? Os 30 Anos de Placebo no Campo Pequeno Entre a Nostalgia e o Aborrecimento

Não Houve Cartão Vermelho em Lisboa? Os 30 Anos de Placebo no Campo Pequeno Entre a Nostalgia e o Aborrecimento

Mais de três décadas de carreira passaram pelo palco com o regresso dos Placebo a Portugal. Entre clássicos e temas mais recentes, a banda britânica percorreu diferentes momentos do seu percurso, num concerto que voltou a aproximar Brian Molko e companhia do público português.

Eis que num manto branco, surge a frase “o passado é presente”. Brian Molko e Stefan Olsdal pisam o palco com a dignidade de quem esgotou duas datas seguidas, no Porto e em Lisboa. O Campo Pequeno quente, claustrofóbico e impaciente. Assim foi a passada terça-feira, onde Lisboa acolheu a banda Placebo para a celebração dos seus 30 anos, uma visita já há muito aguardada pelos fãs que se fizeram ouvir por várias razões…

Coube a Elisabeth Elektra dar o arranque à primeira parte do espetáculo. A artista escocesa é conhecida pelo seu estilo femme art-pop, e estreou-se em Portugal nesta digressão com Placebo. A leveza com que tomou o palco, deixou a mensagem de que talvez não será a sua última vez na capital portuguesa, porque o público retribuiu a sua energia como só nós sabemos fazer. “Yearning” e “Broken Promises” são apenas dois temas da discografia de Elektra, mas sem dúvida as performances que ficaram a ecoar nas paredes do Campo Pequeno.

Não se pode dizer que os concertos de Placebo em Portugal não tiveram surpresas. Não tocaram os hits, é certo, afinal era apenas para ouvirmos as canções de “Placebo” (1996) e “Without You I’m Nothing” (1998). Quem queria ouvir “The Bitter End”, bem que podia ter ficado sentado. Além do expectável, o duo apresentou ao vivo o mais recente single “HELEN KELLER”, e logo de seguida as célebres covers de Depeche Mode e Kate Bush. Fora estes momentos refrescantes, o alinhamento deixou muito a desejar. Mas os grandes fãs levaram a arena ao rubro logo com a abertura de “Pure Morning”. Não é todos os dias que vemos fãs canadianos na fila da frente quase a quebrarem a barreira entre os artistas e o público. Era possível ver o entusiasmo dos presentes, tantos que até usufruíram dos bilhetes VIP para uma experiência ainda mais especial. O clímax apenas demorou a chegar.

Ao contrário do que talvez Molko pensava, uma sala esgotada não significa um público perfeito. O momento que esperavam chegou já perto do encore, “Nancy Boy” a transitar para “Every You Every Me”, sem dúvida que era a parte mais aguardada de todo o espetáculo, e não desapontou. Além disso, não houve qualquer inércia a aplausos até lá, claro. Mas houve uma possível insegurança – ou necessidade de reafirmação. Tanto Brian como Stefan pareciam desesperados por afeto em forma de ovações, e a noite continuou assim mesmo: num toma lá, dá cá.

 

E agora, os telemóveis. O elefante da sala. É evidente que os fãs da velha-guarda cresceram sem a necessidade de gravar o momento em que assistem ao concerto da sua banda favorita. Para os fãs mais recentes, é difícil resistir à tentação de usar tecnologias quando o motivo principal é a recordação. Nos tempos que correm, um único bilhete para um espetáculo anda, no mínimo, à volta dos 50 euros – mas vamos bater na tecla de que os telemóveis arruinam a experiência? As reclamações ouvidas ao longo da noite provam que o problema não é bem a questão dos telemóveis, mas sim, o clima hostil para quem os tem.

Num póster lia-se “melhor sem os telemóveis” e “partilhem isto connosco”. E numa longa introdução, Molko insistia no assunto, pedindo ao público português para “por favor” evitarem gravar. Ora, sem aviso prévio, nem regra imposta, cabe ao fã respeitar o pedido da banda… ou não, e tomar o pedido como opcional. Parte da desilusão do público nasceu da sensação de se sentirem observados (porque estavam!). No meio da multidão, via-se seguranças aos pares, durante o concerto, a proibirem o uso dos telemóveis – chegando a ameaçarem um convite para sair no caso de persistirem. Mas nada de novo, o próprio Brian Molko tornou isso claro no Porto, ao expulsar um fã, e em Lisboa na sua primeira interação com o público: “se continuar a ver telemóveis no ar, vou pedir que saiam”.

Polémicas à parte, Placebo revelou-se ainda capaz de dar um concerto sólido, avivando as memórias de cada pessoa presente e tornando essa nostalgia num fator de sucesso. Sem essa peça do puzzle, ficam os silêncios, a monotonia e a esperança de que numa próxima, recorram às bolsas Yondr.


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