Não há volta a dar, Turnstile é mesmo uma força da natureza: dia 3 de MEO Kalorama

O último dia de MEO Kalorama 2026 foi, sem sombra de dúvidas, o mais explosivo, e mostrou, também, que o rock esteve mais vivo que o pop e o rap.
Os High Vis e os Wednesday trataram de aquecer o público para os concertos mais pesados. E, se há uma conclusão a tirar da tarde do último dia de festival, é que os Wednesday nos levaram de volta àquela vibe de América rural às duas da manhã.
Mesmo com um som que podia ter uma mistura mais bem conseguida, a banda conseguiu passar a sua energia crua ao (já vasto) público que os assistia. O verdadeiro destaque foi a voz arranhada com assinatura de Karly Hartzman, vocalista e guitarrista da banda americana.
Um dos pontos marcantes da noite começou pelas 20:30, com o concerto de Peaches, que, embora no início tenha assustado os festivaleiros que não a conheciam, mais para o fim, pôs toda a gente a mexer-se, ao som de Fuck the Pain Away.
Entre as 57 trocas de outfit (ironicamente), Peaches apresentou um espetáculo completo e, sem dúvida, bem ensaiado, sendo este, um dos mais característicos que vimos no Kalorama.
O momento mais frenético e marcante deu-se mesmo quando a cantora pediu ao público para levantar as palmas das mãos e procedeu a caminhar por cima das pessoas enquanto cantava, momento este em que o público ficou totalmente envolvido e mostrou muito agrado.
Antes de entrarem em cena os pesos pesados, Freddie Gibbs juntou-se a The Alchemist para um concerto que revisitou a carreira destes dois ícones do hip-hop.
Gibbs, com os seus 44 anos, entrou em palco pelas 21:30 com um kimono de karaté, que o público adorou, e, no seu concerto, conjugou vários temas de Alfredo, trabalho em que colaborou fortemente com The Alchemist na produção. Deste álbum, e do Alfredo 2, fizeram-de soar 1985, God Is Perfect, Scottie Beam, Lemon Pepper Steppers e Skinny Suge II.
Foi pelas 22:00 que a ‘malta da pesada’ se reuniu no palco MEO para ver Turnstile, que começariam meia hora depois. O espaço do palco principal já estava totalmente cheio para ver a “Luv Connection“ que os americanos prometem sempre, e, em Portugal, pelo segundo ano consecutivo.
O aquecimento meteu António Variações ao barulho, com O Corpo É Que Paga, que, só por si, deixou os portugueses em euforia. Depois disto, soou a introdução de BIRDS, uma das músicas mais melódicas e caóticas feitas nos últimos tempos, e, assim que começou o riff frenético de guitarra, o caos demorou milissegundos a instalar-se, como previsto.
Os Turnstile foram generosos na set-list que trouxeram ao Kalorama, tendo esta BLACKOUT, MISTERY, NEVER ENOUGH, DULL, entre muitas outras músicas capazes de abanar com um mar infindável de pessoas. O crowd-surfing e o mosh-pit que se viram no passado dia 30 de agosto foi, talvez, um dos mais agressivos (e concorridos!) que tivemos em Portugal no último ano, e, ainda assim, quem se sentia mal a meio do concerto, tinha uma comunidade inteira a ajudar, foi, de facto, uma conexão entre o amor, a música e as pessoas.
Um dos momentos mais aguardados do festival foi o concerto de Deftones, que começou com os famosos saxofones do TikTok a ficarem cada vez mais altos, enquanto a banda entrava em palco, com uma audiência a fazer-se ouvir muito bem. Lance Jackman, guitarrista que acompanha a banda americana nos concertos fora dos Estados Unidos da América (na vez de Stephen Carpenter que deixou de fazer tours mundiais por questões de ansiedade), fez soar as primeiras notas de Be Quiet and Drive (Far Away), que levaram os festivaleiros à loucura, e, foi assim que se soube que os Deftones haviam chegado e não estavam para brincadeiras. Curiosamente, esta música foi, também, a que deu início ao seu concerto no Primavera Sound 2025. Chino Moreno incansável, Abe Cunningham com um som de bateria maior que os 5 continentes e Jackman absolutamente ensurdecedor na guitarra. É esta a impressão que foi deixada.
Ao longo do concerto, notou-se algum desgaste em grande parte da plateia. Menos crowd-surfing, menos rodas de mosh, mais observação. Isto porque os Deftones ficaram com a tarefa mais ingrata num festival, que é tocar a seguir dos Turnstile, que levaram maior parte da energia das pessoas.
Ainda assim, a suportar o seu novo álbum private music, os americanos deram mais destaque aos temas antigos, que ajudaram a alavancar a banda até ao patamar estratosférico onde se inserem. Músicas como Rosemary, Change (In the House of Flies), My Own Summer (Shove It) e Sextape deram uma textura boa e necessária ao espetáculo que foi montado. Os temas do seu novo trabalho também foram bem recebidos, e demonstraram, não só uma boa sonoridade, como também uma imagem reconhecível e bastante atual, com o destaque aos verdes e à famosa cobra que dá vida à capa do álbum. Entre músicas, ouviu-se my mind is a mountain, locked club, milk of the madonna e infinite source.
Nota da redação: Não nos foi autorizada a captação de fotografias durante o concerto dos Deftones, pelo que não iremos utilizar imagens deste espetáculo nesta reportagem. Relativamente a Peaches, a equipa da artista solicitou a autorização prévia das fotografias captadas durante o concerto. Até ao momento, não obtivemos qualquer resposta, pelo que este artigo será atualizado assim que a respetiva autorização for concedida.

