1 Set 2017 a 3 Set 2017

Música, gastronomia e cultura: a o Avante volta a fazer o pleno – a reportagem no último dia da edição 2017

Música, gastronomia e cultura: a o Avante volta a fazer o pleno - a reportagem no último dia da edição 2017

O terceiro dia da Festa do Avante! 2017 foi marcado pela continuação de muito calor. Apesar dos esforços de melhoria do espaço, o grande período de seca fez com que o pó fosse uma presença constante. Superior a tudo isso, o espirito da Festa manteve-se inabalável e a música em português foi rainha.

À excepção dos espanhóis Boikot e dos Modena City Ramblers, os palcos principais foram tomados pelos sons da lusofonia, com o público infantil a merecer uma atenção especial logo pelas 15:00 horas no auditório 1º de Maio.

Os Clã viajaram no seu Disco Voador até à Atalaia e, com as asas nos pés de Manuela Azevedo, puseram a saltar o público de todas as idades que enchia por completo a tenda e o espaço envolvente. Largas centenas de pessoas pegaram na criança que há em si, mostrando que também a boa música não tem idade, e que, como disse um passarinho, somos feitos de histórias.

E porque nem só com palavras se contam belas histórias, tivemos dois grandes momentos com a música do Pedro Jóia Trio e do Carlos Bica trio “Azul”, ambos reincidentes na Festa. Estas duas actuações propiciaram aos Camaradas, amigos e visitantes momentos mais intimistas e calmos que a maioria dos concertos da 41ª edição da Festa do Avante, tendo tido uma recepção calorosa por parte do público. A maior parte dos presentes eram admiradores e seguidores atentos das já longas carreiras destes nomes de projecção internacional, com o Trio “Azul” a comemorar 20 anos. A história começou, precisamente, no evento organizado pelo PCP.

E enquanto uns se deliciavam com a música instrumental no auditório renovado, os amantes dos ritmos africanos aumentavam a temperatura já muito elevada da tarde ao som de Fogo Fogo. O sol escaldante condizia com a proposta deste colectivo sediado na zona de Lisboa e com raízes em Cabo Verde. Francisco Rebelo, João Gomes, Márcio Silva, Danilo Lopes e David Pessoa imprimem a este e outros projetos em que se envolvem, uma energia absolutamente contagiante. A comprová-lo podíamos contar muitas dezenas de pés descalços a dançar junto ao palco 25 de Abril numa manifestação de contentamento que acompanharia também o espectáculo seguinte, a anteceder o incontornável comício marcado para as 18 horas.

Com uma carreira de mais de duas décadas, o trabalho dos italianos Modena City Ramblers constitui uma curiosíssima mistura de géneros que combina folk e música do mundo com ska e rock. Em Março deste ano lançaram Mani Comi Rami, ai Piedi Radici e mostraram porque são considerados um dos nomes mais importantes do rock italiano. O entusiasmo do público manteve-se do início ao fim do concerto, mesmo quando já se ouviam os tambores do desfile que marca o início do comício.

O mês de Setembro é também o da rentrée política e a Festa do Avante! assinala formalmente o início do ano de actividade do Partido Comunista. Assim, o período entre as 18 horas e as 19:30, sensivelmente, destina-se a ouvir a análise, críticas e propostas, da organização relativamente ao país. Pela nossa parte vimo-nos obrigados a preparar algum trabalho e mentalizar-nos para as dificuldades que nos esperavam no que ao jantar diz respeito.

Houve ainda tempo para espreitar a Bienal bem como a exposição comemorativa do centenário da Revolução de Outubro Socialismo – Exigência da Actualidade e do Futuro. É que nem só de música vive a festa e esta conta sempre com espaços privilegiados para o desporto, teatro, artes plásticas e outras manifestações artísticas. Cultura e verdadeira magia é o que se faz nos espaços regionais onde milhares de refeições são servidas durante estes três dias de Festa, com odores que constituem uma verdadeira tortura para quem se procura distrair com a hora de enfrentar a fila. “Felizmente há lombinhos!” foi a exclamação que acabou a nossa angústia para o jantar, já Depois do Adeus de Paulo de Carvalho no palco principal.

O fado foi senhor no final de tarde e noite com as actuações de Helder Moutinho, Tânia Oleiro e Gisela João no auditório 1º de Maio, sendo que também Paulo de Carvalho fez algumas incursões ao género tipicamente português com a interpretação de temas como Os Putos ou Lisboa, Menina e Moça.

Como não poderia deixar de ser, a presença deste cantor-autor-compositor foi celebradíssima, ou não fosse ele o intérprete da canção que serviu de senha à revolução de 25 de Abril de 74. Paulo de Carvalho esteve bem à altura do que dele se espera, preparando uma actuação como manda o figurino, com um reportório que incluiu alguns dos seus maiores sucessos bem como alguns temas celebrizados por outros intérpretes. Em palco, fez-se acompanhar por um conjunto de músicos e vozes de apoio de excelência.

O serão em português prosseguiu com Mão Morta, provavelmente a banda mais aguardada na programação deste ano. Num momento de excelente forma, marcado por presenças em festivais de Verão como o Bons Sons, Adolfo Luxúria Canibal e a restante banda não desiludiram as expectativas. 2017 em geral, e este espectáculo em particular, constituem uma ocasião de tripla comemoração para os bracarenses: editam um trabalho ao vivo nas comemorações do centenário do Theatro Circo ao mesmo tempo que se assinalam os 25 anos de Mutantes S 21, o seu álbum mais emblemático, e associam-se à celebração dos 100 anos da Revolução de Outubro, cuja importância histórica o líder da banda realçou em entrevista recente.

Após uma hora de concerto, em que a qualidade de vocalista e músicos esteve sempre em evidência, este não nos pareceria um mau desfecho musical para estes três dias intensos. Contudo, a organização da Festa do Avante! reservou ainda um encontro da lusofonia com a portuense Capicua, que regressa depois de ter apresentado na véspera o seu projeto com Pedro Geraldes – Mão Verde. Desta feita junta-se ao também português Valete e aos brasileiros Emicida e Rael para, através da música e da língua, unirem os dois lados do Atlântico com Língua Franca, um projecto em que, nas palavras de Caetano Veloso todo um mundo aprende a levantar-se.

E tal como vem acontecendo há mais de quatro décadas, os muitos milhares de resistentes despedem-se da Festa ao som da Carvalhesa. Antecipa-se já o regresso. Para o ano voltaremos. Nós, a música, a alegria, a camaradagem e também as melgas. Pela nossa parte, prosseguiremos a luta armada: com repelente!

À saída é inevitável evocar as palavras de Chico Buarque, desta vez com açúcar, com afeto: “Foi bonita a Festa, pá!”

 

Edição de Daniela Azevedo


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Mais sobre: Carlos Bica, Clã, Fogo Fogo, Língua Franca, Mão Morta, Modena City Ramblers, Paulo de Carvalho, Pedro Jóia


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Carla Flores  

A repórter de guerra sonhada aos 10 anos deu lugar à professora de inglês que se dedicou a outras lutas, como a da promoção da leitura e a aquela coisa do “ah e tal, vamos lá mudar o mundo antes que ele nos mude!

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