Extrordinários James

Extrordinários James

Os ingleses James, donos de uma invejável e longeva carreira, regressaram a Portugal nesta primavera para dois concertos. A 4 de abril encheram de música e alegria o Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Na bagagem traziam a apresentação do mais recente trabalho Living in Extraordinary Times, a par de um quase infindável número de êxitos, e na manga uma mão cheia de problemas para um qualquer apreciador mediano que se proponha falar sobre o espectáculo, de tantos e tão intensos pormenores que ficam deste serão marcado para as 21:30 e que viria a terminar já perto da uma da manhã. (Caso para dizer: Bem bom!)

É certo e sabido que os reencontros da equipa liderada por Tim Booth com os portugueses são sempre uma espécie de reunião de família mas permitimo-nos afirmar que este reuniu o júbilo pelo nascimento de um elemento, à felicidade auspiciosa de alguns casamentos e à certeza da renovação de votos dumas bodas de ouro. Pelo tom meloso da escrita será fácil adivinhar que a redatora facilmente concorda com muitos admiradores da banda que, tendo assistido já a vários concertos, consideraram que este foi o melhor de todos. Não sendo exatamente musicóloga nem estudiosa destes fenómenos, o ponto de vista da espectadora permite-nos elencar alguns fatores que terão contribuído para que assim fosse:

– A sala / intervenientes: o Coliseu é ainda o espaço ideal para as reuniões musicais de grandes grupos de amigos e aqueles milhares de pessoas, cujas idades vão pelo menos dos 7 aos 70 são, efectivamente, o público de James.

– O alinhamento: A um set acústico com sete temas, seguiu-se o set principal com quinze e um fantástico encore com quatro (!) canções.

– O momento: este concerto foi antecedido por uma “última vez em Lisboa” que como nos disse Saul Davies no seu maravilhoso português “foi um bocado uma merda, no Rock in Rio”.

Fossem estes os motivos, o bom momento da banda – com os temas do novo álbum a ser muito bem recebidos – ou uma sucessão de pormenores afortunados, a verdade é que o concerto da capital se destacou de outros desta digressão por um alinhamento bastante diferente, bem como pela extensão e pela mais que óbvia boa disposição da banda.

O bom humor do vocalista e demais músicos foi uma constante. Desde logo a brincadeira entre a banda de suporte, encarregue do set acústico (James) e a banda principal (James) com Tim Booth a criticar, à vez, uma e outra e a libertar as primeiras gargalhadas do público, após um conjunto de temas mais intimistas, de que se destacaram momentos particularmente intensos com a dedicatória de duas canções: Broken by the Hurt, dedicada à irmã do vocalista e All I’m Saying, que Booth na sua fina ironia apresentou como “another happy song” dedicando-a a uma amiga vítima de cancro que partiu sem que se soubesse da doença. (Pelo meio houve tempo para “pôr na ordem” um espectador mais indelicado).

Este set acústico foi uma excelente preparação para a eletricidade que estava para vir. Quanto à banda de suporte, consideramos que se portou muitíssimo bem mas, como nos disse um muito bem humorado fã, não deixou de ser a banda de suporte.

Para quem conheça razoavelmente a banda e o seu trabalho, um olhar à “setlist” bastará para perceber o clima de festa vivido nesta noite, com o público a reconhecer e acompanhar as músicas desde os primeiros acordes, ou imaginar os incríveis passeios de Tim Booth sobre os corrimãos que separam a plateia das bancadas, o seu passeio em ombros desde o palco até ao centro da plateia enquanto interpreta o antigo mas sempre fresco tema de onde pode nascer tudo menos frustração ou o seu já habitual mas sempre espectacular crowd surfing. Um pouquinho mais difícil, mas não impossível, será imaginar o entusiasmo geral do público quando, ao seguir o olhar de Tim Booth, encontramos o trompetista lá bem alto, dando uma volta completa às galerias enquanto escutamos Sound, o tema que fecha o “set” principal.

No regresso, confirma-se o que tudo nos levara a intuir: banda e público estiveram em total sintonia e uns gostaram tanto do encontro quanto os outros. Pelo que havíamos espreitado da digressão inglesa concluímos que os lisboetas se portaram suficientemente bem para “ter direito” a duas músicas no encore. Já que os de casa tiveram direito a uma ou duas canções, achamos que Come Home fecharia com chave de ouro a noite nesta cidade que é também já um bocadinho a deste coletivo.

Foi por isso com extremo agrado e algum orgulho que os lisboetas receberam ainda Many Faces e fizeram um fim de festa estrondoso com Laid, atravessando as portas do Coliseu com um sorriso estampado nos rostos de muitos dos que em passo de corrida se apressavam a apanhar o último Metro da noite.

Set Acústico

  1. Hello
  2. Broken by the Hurt
  3. All I’m Saying
  4. Pressure’s On
  5. Sit Down
  6. I Wanna Go Home
  7. Just Like Fred Astaire

Set Elétrico

  1. Hank
  2. Extraordinary Times
  3. What’s It All About
  4. Tomorrow
  5. Dream Thrum
  6. Five-O
  7. Nothing But Love
  8. Born of Frustration
  9. Heads
  10. Stutter
  11. Moving Car
  12. Picture of This Place
  13. Getting Away With It (All Messed Up)
  14. Leviathan
  15. Sound

Encore:

  1. Attention
  2. Come Home
  3. Many Faces
  4. Laid

Carla Flores  

A repórter de guerra sonhada aos 10 anos deu lugar à professora de inglês que se dedicou a outras lutas, como a da promoção da leitura e a aquela coisa do "ah e tal, vamos lá mudar o mundo antes que ele nos mude!


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