Entrevista com Benjamim: o músico que é camisola amarela

Entrevista com Benjamim: o músico que é camisola amarela

Encontrei o Benjamim – o Luís Nunes- no 31º concerto da sua Volta a Portugal em Auto Rádio, que aconteceu em Cem Soldos, no Festival Bons Sons. Após o seu concerto, no palco Giacometti, encontrámo-nos algures pela aldeia. O sítio mais fresco e sossegado para nos sentarmos a conversar foi mesmo a Igreja de São Sebastião. Assim aconteceu a minha primeira vez, a entrevistar um artista, em solo sagrado. E a confissão rezou assim.

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Volta a Portugal em Auto Rádio é sinónimo de trinta e três dias a viajar e a tocar um pouco por todo o país. O que é que passa pela cabeça de um artista para se propor a um desafio destes? O Benjamim responde: “Queremos deixar uma semente em cada sítio pelo qual passamos. Nós tocámos para duas pessoas. E no dia a seguir tocas para uma multidão. E isso é um teste, para nós.”

A generosidade de um artista que se dispõe a tocar para duas pessoas é recompensada com o calor humano do público que no final do concerto compra o cd, pede o autógrafo e ainda agradece: “Existem muitos preconceitos em relação à música. A minha não é tão convencional, mas também não é distante do dia-a-dia das pessoas. As canções falam sobre coisas absolutamente normais, qualquer pessoa, seja de que idade for, vai entender o que quero dizer com aquela canção. Nós fomos tocar ao Luso e eu estava muito nervoso. Estava muita gente e era um público mais de meia idade. No final veio uma senhora ter comigo, com um disco que tinha comprado e pediu-me para assinar, e fez questão de me dizer que tinha gostado muito do que ouviu.”

“Se tu deres algo às pessoas, que não é lixo, se lhes deres algo que é cuidado, que tem alguma qualidade. Este trabalho foi desenvolvido de forma séria, durante dois anos. E as pessoas aderem, estejas tu em Vizela, nas festas populares ou no Bons Sons.”

Como é que surgiu esta ideia da volta a Portugal, cujo início aconteceu precisamente no Alvito, no Alentejo, praticamente à porta de casa de Luís? “Eu sou um bocado hiperactivo, estou sempre a fazer coisas. No Alentejo encontro paz e um ritmo diferente daquele a que estava habituado, em Londres. Estava à conversa com o Gonçalo [Pôla], num jantar, e surgiu esta ideia, de fazer uma tour em que quando terminas o concerto arrumas as coisas e partes para outro lado, outro concerto. Acho que era importante nesta fase da minha vida pessoal colocar objectivos muito concretos e atingi-los.” Foi o caso desta tour de trinta e três dias, que tinha como missão levar a música às pessoas, na festa popular ou num festival da dimensão do Bons Sons.

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E como é que está a ser esta passagem por Cem Soldos? “Eu estou a adorar o Festival. Quando acabarmos o concerto na Gafanha da Nazaré, o último da tour, vamos voltar aqui, para viver isto. Este público gosta de música. Agora há muitos festivais e em muitos deles há o espírito de estar ali de forma um pouco alienada, em que se vive tudo menos a música. E aqui as pessoas vêm para ouvir os artistas, estão mesmo interessados. E se pedes para se levantarem, levantam-se e estão contigo.”

O critério desta Volta – sem bicicleta – foi percorrer o país. “Queríamos muito festas populares e sítios mais intimistas, mas o critério era a maior diversidade possível.” Houve muitos sítios que ficaram de fora e o Benjamim sente que o apoio da Antena 3 foi essencial para que o público reconhecesse o artista. As pessoas sabem receber: “Se tu tratares as pessoas com respeito, elas correspondem. As pessoas querem que nós, os artistas, se sintam em casa.”

Contar estórias é algo que o Luís já conhece, do seu trabalho como músico. As suas canções falam de pessoas e de situações, emoções que são suas ou que rouba: “Eu gosto de roubar estórias às pessoas. Às vezes as pessoas dizem uma frase e tu guardas, pois naquele contexto tem um significado e depois pode soar-te de forma diferente.”

Em Setembro o álbum Auto Rádio será lançado e Benjamim já tem em agenda uma série de concertos, que incluem Braga – no Festival de Gente Sentada – Ericeira, Lisboa e Porto, entre outros destinos.

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Benjamim, que já foi Walter Benjamim, roubou o nome ao filósofo alemão. O Luís estudou antropologia e tinha tropeçado neste nome, algures nos seus estudos. Um dia, depois de uma aula, foi à feira do livro e encontrou o nome que lhe soava bem. Walter Benjamim – e disse “é isto”. E o primeiro concerto aconteceu mesmo numa livraria. Contou-nos o Luís que houve quem aparecesse a pensar que ia ouvir uma palestra sobre o filósofo. Mal sabiam que estavam na presença de um futuro vencedor da volta a Portugal, num carro cheio de material para os concertos, um verdadeiro camisola amarela.

Fotos promocionais: Gonçalo Pôla

Joana Rita  

Joana Rita é filósofa, criadora de conteúdos, formadora e investigadora. Ah! E uma besta muito sensível.


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