Entrevista a Unsafe Space Garden: “A vida não é uma merda — é um caos que vale a pena viver”

Conversámos com Unsafe Space Garden, banda natural de Guimarães, e um nome cada vez mais reconhecido no género do rock psicadélico em Portugal, mas igualmente procurado no estrangeiro. Fizeram parte do cartaz do Vodafone Paredes de Coura de 2025, e desde então, têm seduzido o público português com o seu carisma, humor e autenticidade. Lançaram, este ano, o disco “O Melhor e o Pior da Música Biológica” dia 4 de março.
Nascidos em Guimarães, entre os anos 2017 e 2018, os Unsafe Space Garden têm vindo a desenvolver-se no meio do rock psicadélico em Portugal. Apresentaram-se ao mundo com o EP “Bubble Burst” (2019), e desde então têm expandido o vosso universo de forma caótica e experimental – como deve ser. Com quase uma década de existência no meio musical, sentem uma diferença de oportunidades na exposição artística no Norte para o resto do país?
Sentíamos mais isso se calhar no início. Agora com os Zoom’s desta vida a coisa diluiu um bocado. Ainda assim, é provavelmente mais benéfico para uma carreira musical estar mais perto do centro, mais concretamente de Lisboa. Isto porque aumenta a probabilidade de encontros com pessoas e redes que têm naturalmente uma influência forte no mercado e nos meios de comunicação. Se estás mais longe, pode demorar mais a garantir a viabilidade de um contacto. Ainda assim, a coisa parece ter melhorado.

Vocês são das bandas mais diferentes, irreverentes e imprevisíveis no panorama musical de momento, em Portugal. Como é o vosso processo criativo, alguma vez tiveram ideias “demasiado loucas” para serem concretizadas? Existe algum filtro no vosso brainstorm?
O nosso processo criativo ocorre em diferentes etapas. Primeiro, o Nuno e a Alexandra compõem as canções num processo que demora ainda algum tempo e que não sobrevive isento de crises existenciais. Depois de terem uma boa quantidade de demos, passam para os ouvidos dos restantes. Depois tentamos tocar as músicas em banda. Por fim, há a parte em que se grava e mistura tudo. Todas estas etapas oferecem algo de novo às canções porque têm diferentes inputs dos ilustres intervenientes deste conjunto musical. Em paralelo, desenvolve-se a parte visual, desde as roupas, aos vídeos, ao design dos discos, etc.
Quanto a ideias demasiado loucas, o Filipe gostava um dia de ter um escorrega gigante em palco. Logisticamente, deve ser uma dor de cabeça, mas acreditamos ser possível! Ter o João Ricardo Pateiro a relatar numa música nossa também nos pareceu um pouco inalcançável, mas vai-se a ver e de facto aconteceu!
Com “O Melhor e Pior da Música Biológica”, notamos mais camadas, um som mais trabalhado e talvez o que define o vosso nome – um risco extasiante num jardim que é casa. E tivemos esse cheirinho desde 2025, com o single “FKNKU”, e mais tarde “Mais Uma Voltinha”. Sentem que se identificam mais com este último lançamento comparativamente aos vossos projetos anteriores?
Estamos contentes e orgulhosos com este disco. Já o tínhamos imaginado há muito tempo, mas não sabíamos bem como concretizá-lo, então só o facto de ele existir é uma fonte de alento. Sentíamos que era um disco que ia acontecer eventualmente porque apareciam músicas cantadas só na língua portuguesa. No entanto, acabamos por nos identificar com todos os outros lançamentos porque vieram todos duma vontade e de um ímpeto que eram reais para nós num dado cruzamento de espaço e tempo. Todos se concretizaram à sua maneira e todos fazem sentido para nós, ainda hoje. Aliás, nas apresentações ao vivo mais recentes, continuamos a tocar canções pertencentes a todas as eras.
O vosso sentido de humor, rebelde e catártico, é algo que vos distingue positivamente. Essa criatividade humorística vem de algo mais profundo? Sentem que no meio do caos mundial, o vosso humor serve como um escudo protetor?
Sempre fomos pessoas que gostam de rir e de fazer rir, já faz parte da nossa personalidade. Temos particular curiosidade por coisas absurdas e gostamos de esticar a escala de coisas parvas que podemos dizer. “Com quantos paus se faz uma quinoa?” é uma frase que navega no nosso arquivo de coisas absurdas, mas que por alguma razão nos faz rir (não sabemos se faz rir mais alguém, mas pra nós funciona). Depois parece-nos natural que esta aptidão passe para a música que fazemos. Unsafe sem isso não existe. E somos todos os seis assim, embora de maneiras diferentes. Se há algo mais profundo que subjaz esta tendência, já tem a ver com questões do foro psicológico-traumático a serem exploradas mais a fundo numa consulta de terapia de grupo para a qual estão todos convidados! Mas sim, certamente é uma ferramenta para lidar com o mundo bizarro em que vivemos. Provavelmente, quem desenvolve isto, desenvolve cedo para conseguir digerir o que o rodeia, por provavelmente lhe parecer assustador, longínquo ou interdito: é uma forma de comunicação e de conexão.
Terminam com a música “A Vida Não É Uma Merda”, um hino poderoso que reúne tudo o que há de bom no vosso som mas também a forma mais natural de culminar este novo álbum. Mas se a vida não é uma merda, então, o que é? Pelas palavras oficiais dos nortenhos Unsafe Space Garden, sem merdas.
A vida é uma oportunidade preciosa de poder experienciar um espectro de situações inusitadas que nos colocam à prova, e que possivelmente nos permitem construir uma direção para a qual intuitivamente nos inclinamos, ação essa que parece também ela mesmo ir criando em nós aquilo que será um rasto de felicidade e de missão cumprida, embora tropeçando por entre pedregulhos de tristeza e calhaus de falhanço. A vida é uma oportunidade para aprendermos a cumprirmo-nos. Para mais informações, é ouvir o nosso último disco : “O Melhor e o Pior da Música Biológica”!
O mais recente lançamento de Unsafe Space Garden “O Melhor e o Pior da Música Biológica” já está disponível nas plataformas de música habituais, bem como a encomenda da versão física em vinyl no seu site. A tour promocional do disco já passou pelos Estados Unidos, e dirige-se à capital no próximo dia 9 de abril, e no Porto dia 10 de abril, contando também com datas no Reino Unido.

