Entrevista a Herlander: “Precisava de me desconfortar para me encontrar”

Entrevista a Herlander: “Precisava de me desconfortar para me encontrar”

Estivemos à conversa com Herlander, artista natural do Seixal, baseado em Lisboa, e que transforma o pop convencional em experiências musicais que roçam o antipop. O seu primeiro EP, 199, nasceu em Londres e retrata a realidade da adolescência, paixões e corações partidos. Desde então, tem vindo a lançar singles autênticos, como Gisela e Vertigens, e a desenvolver projetos ambiciosos, como o que teremos a oportunidade de usufruir no dia 6 de Março.

Para chegarmos ao teu mais recente projeto “CÁRIE”, gostaria de ir primeiro à sua raíz. Viveste em Londres durante uns tempos, onde lançaste o teu primeiro EP, em 2018. Como foi esse processo, e como é que sentiste ao ser assinado numa label internacional [Sony Portugal]?

Londres foi uma experiência muito transformadora. Antes disso, estava no Seixal, quase a acabar a escola, ainda muito perdido em rotinas que me eram impostas. Ir para Londres foi essencial para perceber para onde queria ir e qual era o meu approach, sem ter o “background noise” da pressão pós-ensino secundário.

Sempre soube que ia fazer música, porque para mim sempre foi O PLANO, e não havia backup desse plano. Mas não sentia que sabia muito bem como começar em Portugal, estando rodeado de família e amigos, com as pressões e conformidades que vêm com esse conforto. Então, precisava de me “desconfortar”, e esse desconforto deu-me a habilidade de expressar-me sem a ansiedade de não ir de acordo com expectativas exteriores. Foi um período e uma mudança tão drástica para um adolescente que não tinha escolha senão escrever e ser honesto sobre isso.

Ironicamente, essas músicas foram as que me abriram certas portas aqui em Portugal, apesar de ter sido um projeto super experimental, sem nenhum tipo de mixing ou master, e eu ainda nos inícios de mim como produtor. Eventualmente, isso conduziu-me à Sony, uma relação pela qual estou para sempre grato. Sempre fiz tudo o que tivesse a ver com música sozinho, no máximo pedia a amigos para me seguir com uma câmara, e mesmo assim eu editava tudo. A Sony respeitou muito a minha individualidade como artista e o meu processo de criação. Não tentaram mudar a minha “DIYness” ou intervir em como faço as coisas, ou dizer que era certo ou errado; apenas tiravam peso de mim quando precisava. Então, essa parceria foi e continua a ser um privilégio.

 

Ao longo dos anos, tens vindo a colaborar com alguns nomes da música portuguesa, Extrazen, Odete, e em 2023, com a Ana Moura, no single, Lá vai Ela. Gostava de saber se tens nomes pensados para colaborações no futuro (que possas revelar), ou alguma que estejas a manifestar. Quem é a colaboração de sonho de Herlander?

Colaboração de sonho diria 100% Frank Ocean embora seja uma resposta já bem cliché no meio musical porque quem não ama o Frank? (haha) Mas também estou muito obcecado pelo Jim Legxacy.

Em 2025, lançaste dois singles, deixa-me em paz e vertigens, e tiveste a oportunidade de estreá-las ao vivo no maior festival de música de Portugal. Consideras que o teu processo criativo tem amadurecido, desde a tua performance no NOS Alive?

Diria que se pode dizer que houve um amadurecimento, mas talvez não da forma mais óbvia. Quando fui ao NOS Alive, já estava praticamente a 60% do projeto e já tinha as músicas basicamente produzidas, por isso, a nível criativo, não senti uma mudança brusca, até porque o meu processo de criação para o CÁRIE já tinha mudado imenso em relação a tudo o que tinha feito antes.
Mas senti definitivamente uma diferença na forma como abordo os live sets. A construção do alinhamento e a estreia ao vivo do “deixa-me em paz” e do “vertigens” foram momentos novos para mim. Estou muito habituado a alterar os mixes de concerto para concerto, a querer ajustar tudo e a controlar cada detalhe do som. Naquele show foi mais um momento de entrega, um momento de “é isto”. Também porque, pela primeira vez, estava a apresentar músicas que foram misturadas e masterizadas por outra pessoa. Isso deu-me uma segurança diferente, que tira um certo peso técnico e me permite preocupar-me mais com a parte criativa de criar um espetáculo e performar.

 

O single, vai bem, que saiu este ano, parece ser mais polido, ponderado, até mais complexo do que temas anteriores. Sentes que essa transição traz mais motivação e ambição para projetos futuros, como a mixtape “CÁRIE”?

Sim, definitivamente foi um breakthrough. Como estava a dizer, a minha forma de trabalhar mudou imenso em comparação com tudo o que fiz antes de “deixa-me em paz” e dos lançamentos anteriores. As músicas deste projeto são muito diferentes entre si. Algumas são mais polidas, outras mais experimentais, outras mais ruidosas, outras mais minimalistas.

E é por isso que, para mim, faz sentido ser uma mixtape. São basicamente vários momentos que ganham vida através do som. Foram criados em fases muito diferentes da minha vida, por isso soam diferentes, têm cores e texturas distintas. Se pensarmos em “deixa-me em paz”, “vertigens” e “vai bem”, são três músicas que soam completamente diferentes e cada uma tem a sua própria paleta. Mas, quando as ouves dentro da mixtape, percebes como essas cores se complementam, como o projeto é colorido e como tudo acaba por se ligar.

Por isso é que a capa e o universo também são tão coloridos. Encapsula muito bem esses contrastes entre os sons. E isso deixa-me entusiasmado para o futuro e para tudo o que vou fazer depois disto, porque nunca vou repetir a mesma coisa. Sempre tive essa abordagem dentro das próprias músicas, nunca vou fazer a mesma canção duas vezes e sente-se imenso isso no CÁRIE.

 

O que é que nos podes contar sobre esta mixtape? Sabemos que vai incluir estes últimos hit singles, mas que, sobretudo, é uma homenagem ao teu pai, que surge como uma grande referência no teu percurso musical. Conseguirias associar uma memória com o teu pai a este novo projeto?

Esta mixtape é mesmo uma jornada completa. É uma versão muito assumida de mim, carimbada em várias músicas. É uma viagem sonora “overwhelming” e maximalista, mas também simples e muito direta. Sinto que aqui não estou a esconder-me atrás de nada. No passado, talvez tenha suavizado a minha voz ou aquilo que queria dizer para tornar as coisas mais fáceis de digerir. Nesta mixtape não. Estou simplesmente a cantar sobre o que me apetece cantar e a falar sobre o que quero falar. Tem uma inocência muito grande, porque volta muitas vezes à minha infância de maneira indireta e às referências que eu adorava quando era miúdo e que mais tarde vim a rejeitar muito por aquela transição estranha de adolescente para jovem adulto em que tu rejeitas e odeias tudo o que veio no passado e depois mais tarde é que tens um momento de “Ah isto era tão fixe porque é que eu comecei a odiar isto?”.

E o meu pai é uma referência enorme no meu percurso, porque foi quem me introduziu verdadeiramente ao amor pela música. Muitas das memórias que tenho de infância estão ligadas a sons, e muitas dessas ligações vêm dele.

Há uma memória muito específica que conecta diretamente o meu pai a este projeto, e que as pessoas vão conseguir identificar quando ouvirem a mixtape. Não quero estragar a surpresa, mas existe um pequeno Easter egg, que o torna muito presente neste trabalho. É uma homenagem sutil, mas muito significativa para mim.

 

Por fim, nos materiais promocionais de vai bem, não pude deixar de reparar que usas uma t-shirt da Hannah Montana. O que achas do facto do teu projeto e da reunião do aniversário dos 20 anos da Hannah Montana saírem no mesmo ano?

Honestamente, acho destino. Quando estava a lançar a música, nem foi de propósito, foi apenas um momento em que estava a abrir aquela era da CÁRIE e, realmente, a assumir sem desculpas essa relação com o meu eu de infância, a curar o meu eu criança, conseguindo usar uma t-shirt da Hannah Montana na rua e, ao mesmo tempo, fazer parte do meu look naturalmente, e eu senti-me super lindo, bem e o eu nativo fashionista naquela t-shirt o que é hilariante. E, precisamente nessa altura, ela também anunciou que ia fazer os 20 anos da Hannah Montana. Para mim, é destino. Acredito muito em sorte, e nas coisas a acontecerem por uma razão.

Sei que ser o ano dos 20 anos da Hannah Montana é um sinal de que a mixtape vai cumprir o que precisa cumprir no universo. Esta mixtape estava para sair há algum tempo, mas só sai este ano por uma razão, e se a Hannah Montana for uma dessas razões acho ótimo. Para mim, é destino e mesmo que não for vou iludir-me que é ela a abrir-me a porta para os palcos dela hahaha.

 

 

Se procuram um artista em ascensão português, carismático e inovador, podem ouvir os temas de Herlander nas plataformas de música digitais, YouTube e Bandcamp. A tão aguardada mixtape, CÁRIE, é lançada no dia 6 de março.


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