Entrevista a CELSO: “O mais corno somos nós os cinco. Indie é o que tentamos ser.”

Estivemos à conversa com os CELSO, banda lisboeta nascida em 2017, com o seu segundo álbum INDIECORNO acabado de sair, no passado dia 26 de fevereiro de 2026. Nesta entrevista, exploramos o mundo dos cinco amigos, um apanhado de quase uma década de música, e um novo disco que os afirma enquanto uma das bandas indie mais inovadoras em Portugal.
A vossa banda foi criada depois de terminarem o secundário, em 2017 (há quase 10 anos). Com raízes no indie, e no post-punk, gostava de explorar o que vos levou a formar os CELSO. Quais eram as vossas inspirações musicais no secundário? Ainda levam alguma convosco para o presente, e para o futuro? Há algum artista com quem gostariam de colaborar?

Na altura todos tocávamos instrumentos e alguns de nós já tinham tido projetos (covers, alguns de originais). Houve uma gala na escola e tivemos de juntar a malta mais inclinada para a música para tocar. Entretanto, uns meses mais tarde também fomos buscar o Casquinho (baixista), que era de um ano abaixo do resto da malta, no entanto já tocava connosco em alguns momentos. Essencialmente, o que nos fez juntar foi precisamente o alinhamento de gostos – indie, alternativo. Na altura, o que estava em rotação para nós era Tame Impala, Mac DeMarco, LCD Soundsystem, Strokes, etc. Ou seja, alguns dos grandes do género. Mas também consumiamos muito do que se fazia cá, até porque na altura estava a explodir a cena da Cuca Monga, tínhamos o pessoal da Maternidade a fazer coisas muito interessantes ou a malta da Xita que estava a dar os primeiros passos.
Destas referências, quase todas permanecem connosco, já que foram as pedras basilares dos nossos anos “formativos”. No entanto, ao ouvir o nosso último disco, percebe-se facilmente que entretanto já fugimos muito dessas sonoridades (e é algo que já acontece há muito tempo, ainda desde a época do primeiro disco). De 2017 para cá os nossos gostos tornaram-se bastante mais ecléticos, mais exploratórios e isso nota-se claramente na música de CELSO. Se a trajetória se mantiver, as referências do futuro vão ser ainda mais fora. Atualmente há quem esteja no piseiro, pagode e samba, outros no folk, trap, eletrónica, noise e tudo o que há de qualidade para se escutar. Cá em Portugal, gostávamos muito de fazer alguma cena com o Primeira Dama, Mordo Mia, com o pessoal da GRAVV, DJ Nevoeiro, entre muitos outros.

Apesar de encorajado, nem sempre é fácil ter sucesso como artistas independentes, mas não foi o vosso caso. Lançaram singles e EP, como Tá Tudo Bem e Queres é Conversa, até ao vosso álbum de estreia “Não Se Brinca Com Coisas Sérias”, em 2021. Tocaram no Plano B, no Porto, no Musicbox e no Capitólio, em Lisboa. O que levam da vossa experiência dentro da indústria da música ao longo destes anos?
É interessante pensar no que já fizemos, mas internamente sentimos mesmo que há ainda mais sítios onde queríamos tocar, para além de todas as sonoridades que queremos explorar ainda. Infelizmente, acho que a resposta não é animadora: a indústria musical em Portugal não existe, não se pode classificar como indústria, principalmente para artistas do nosso meio, com o nosso som. Existem sim um pequeno número de stakeholders e gatekeepers, público saturado de concertos, festivais e festas e a ficar com cada vez menos dinheiro para gastar nos concertos locais. Além disso, as venues continuam a fechar. Embora as perspectivas não sejam muito boas, vamos continuar, porque gostamos imenso da música que fazemos e das experiências que isso nos proporciona.
Já fizeram parte das edições da Festa do Avante e do MIL Lisboa, em 2021 e 2023. De que forma é que as atuações nesses festivais, após o lançamento do vosso álbum, vos prepararam para os concertos seguintes, contando com a preparação para o concerto de lançamento do “INDIECORNO” já em março? Sentem-se mais expostos?
O concerto do INDIECORNO vai ser muito diferente de todos os anteriores. Isto porque o som do disco também o é. As nossas atuações ao longo destes anos todos ajudam com a diminuição de stage fright, a confiança na interação com o público e alguma experiência em lidar com toda a logística que um concerto ao vivo acarreta. No entanto, o que aí vem não nos deixa de entusiasmar. Na verdade, é o momento mais esperado desde que existimos – o disco que tem realmente o som que queríamos e adequadamente terá a energia que sempre queríamos ter ao vivo. Ou seja, estamos mais expostos sim. Mas nada acomodados, antes pelo contrário.

No início de fevereiro, apresentaram o single V-VOADOR, sonoramente mais elétrica do que os primórdios da vossa discografia. Já com INDIECORNO, há essa sensação de desvinculação do primeiro disco, com um som mais próprio e grande personalidade. Conseguem escolher uma única música do álbum que vos represente, para quem ainda não conhece a vossa banda?
Esta pergunta é matadora. Escolher uma canção do disco é como escolher entre filhos. Mas vamos lá: ATRIZA é capaz de ser a música mais completa do disco. É um longo clímax, aborda de uma forma geral algumas das temáticas centrais do disco e passa um pouco por todos os sons de INDIECORNO. Mas avisamos já – o disco é uma síntese de todos os sons deste milénio, por isso recomendamos vivamente passarem por todas as canções.
O “INDIECORNO” saiu no dia 26 de fevereiro. É um produto de grande trabalho, diversão e autenticidade. Vemos muito dos novos CELSO neste disco, já desde LUCi (2023) e DOPAMINADO (2024). Como é que surgiu o conceito e vibe deste projeto?
INDIECORNO é a nossa época 2022-2025. Espelha o que é a vida e as ansiedades de uma pessoa nos seus 20s durante estes últimos anos. O resultado: uma síntese muito “esquizofrénica”, chronically online, indiecorna e dopaminada.
Desde o início sabíamos que a direção seria mais ou menos esta. Isto porque nos propusemos a fazer quase tudo nós – gravação e produção – precisamente para tentar que o disco fosse na estética e vibe que queríamos. Primeiro vieram algumas músicas, todas com a sua energia diferente. Depois seguiu-se a realização de que, mesmo com vibes muito díspares, todas elas se ligavam pelo facto de serem construções realizadas por indiecornos para indiecornos. E aí se materializou por completo o conceito do disco, com o finishing touch da capa, todo o conceito se unificou.
A escolha do título para este novo projeto realça a vossa criatividade e, sobretudo, o vosso sentido de humor. Por isso, para terminar, lanço a pergunta mais aguardada desta entrevista: para vocês, o quê deste álbum é mais “indie” e o que é mais “corno”?
O mais corno somos nós os 5. Indie é o que tentamos ser, sem sucesso. A canção mais indie, talvez a FLORESFALSAS ou a INDIECORNO. O momento mais corno? todos 42 minutos e 49 segundos do disco.
Os CELSO apresentam o seu mais recente álbum INDIECORNO no dia 26 de março, na Casa Capitão, em Lisboa. Podem explorar a discografia da banda nas plataformas de música habituais.

