Entrevista a Birds Are Indie: “Na arte, é mais interessante fazer perguntas do que entregar respostas”

Entrevista a Birds Are Indie: “Na arte, é mais interessante fazer perguntas do que entregar respostas”

Nesta conversa com Birds Are Indie, exploramos o seu novo álbum The Stone of Madness que saiu dia 27 de março deste ano. Um disco que reforça o caminho já traçado por Ones & Zeros (2023) mas que procura o significado interior de cada um, no lado oposto da moeda de um mundo distópico. O trio português segue na estrada para a promoção da sua discografia, mantendo a honestidade, o bom humor e a energia de sempre.

Nasceram em Coimbra há mais de uma década, celebrando 16 anos de vida em fevereiro deste ano. Evoluíram não só a vossa sonoridade, como a própria equipa. Joana, Ricardo e Henrique, olhando para trás, desde as primeiras gravações em Casa até ao The Stone of Madness (2026), o que é que sentem que mudou radicalmente na vossa dinâmica e o que é que permanece intocável na identidade dos Birds Are Indie?

Estas perguntas exigem sempre um certo esforço de auto-análise, o que nem sempre é fácil… 🙂 Mas talvez possamos apontar duas coisas que mudaram bastante: passámos de dois a três (logo numa fase inicial da banda), o que tornou a coisa mais interessante; a quantidade de instrumentos que tocamos em gravação e ao vivo (começámos com uma guitarra acústica mais uma pandeireta e entretanto juntámos guitarras elétricas, baixo, vários teclados e sintetizadores, bateria, drum machines e até um theremin!), o que faz com que o resultado final seja “radicalmente” diferente de há 16 anos. Quanto a coisas que se mantiveram intocáveis: o gosto em compormos, gravarmos e tocarmos música juntos; a vontade em nos auto-desafiarmos enquanto banda, seja com novos instrumentos, ou conceitos, ou através de versões de outros músicos/grupos de que gostamos; e a capacidade de ter o dedo em todo o processo criativo e nos diversos formatos em que ele é expresso, além da música (capas de discos, vídeos, fotografias promocionais, conceitos).

Os vossos concertos são conhecidos pela proximidade e cumplicidade com o público. Há uma intimidade que não se vê com muitas bandas em Portugal, sendo isso algo que se destaca na vossa arte. Estando, de momento, em tour, têm algum momento que vos marcou durante uma temporada de concertos, ao longo dos anos?

Nós gostamos e fomentamos essa intimidade. E para isso não é preciso que se esteja em sítios muito pequenos e silenciosos. Basta tentar gerar aquela noção empática de que estamos ali todos ao mesmo tempo a viver aquilo, nós em palco a expressar o que temos a expressar, e as pessoas no público a [esperamos nós] gostarem do que estão a ver/ouvir. Tudo isto numa lógica honesta, franca, descontraída, sem máscaras ou poses. É assim que gostamos de fazer as coisas. Em 16 anos, já são algumas centenas de concertos e cabem literalmente nos dedos de duas mãos aqueles em que saímos insatisfeitos, por uma razão ou por outra. Memórias boas há muitas, por isso é que também continuamos… Desde termos convidados/amigos em concertos de aniversário, a concertos em locais magníficos, sobre o mar, em Espanha, ou numa igreja muito fresca, em Cem Soldos, a fazermos a primeira parte dos americanos Luna, em Coimbra… O que nos fica das digressões pela Península Ibérica são muitos sorrisos, pessoas que se tornam nossas amigas, boas conversas, conhecer novas cidades, nova gastronomia, novas paisagens…

Com o passar de sete álbuns, foram sendo conhecidos por um som com raízes no folk e no indie-pop, mas este álbum parece ir mais além. Como foi o processo criativo para o som de The Stone of Madness? Têm referências pessoais que vos inspirem para a produção de novos temas?

Este “The Stone of Madness” é bastante diferente dos primeiros álbuns, claramente. Mas essa mudança ou evolução foi sendo gradual, tendo um salto mais “radical” no disco de 2023 “Ones & Zeros”. Criámos estes dois álbuns como um par, tentando que se complementem, que dialoguem um com outro. Por isso a sonoridade de ambos é relativamente parecida (havendo sempre coisas diferentes que quisemos experimentar), aquilo que os faz funcionar mais como espelho um do outro são as letras e toda a imagem gráfica, fotográfica e videográfica. Em termos de influências para os temas, nós não temos esse mecanismo na banda, ou seja, nunca fazemos uma música com o objetivo de que seja parecida com uma que nós gostamos. Mas estamos certos de que não estamos imunes a toda a música que ouvimos ao longo da vida e ela depois possa estar no subconsciente… e depois quem nos ouve é que costuma apontar “influências” ou algo que lhes faz lembrar outra banda (e até hoje já nos deram exemplos tão díspares como Bill Callahan, Low e The Velvet Underground).

 

O título do novo álbum, The Stone of Madness, remete para conceitos de loucura, euforia, talvez uma certa imprudência. Mas o álbum em si, explora o que habita no interior de cada um e o significado de stone of madness. O que é que habita em vocês e qual é a vossa pedra?

Qual é a nossa pedra… essa é a [eterna] questão… Com este disco, principalmente nos conceitos mais fortes que estão nas letras e na forma como comunicamos visualmente, não lhe tentámos responder, mas simplesmente abordá-la, desde vários pontos de vista. Na arte, achamos muito mais recompensador e interessante adicionar perguntas do que entregar respostas…

 

Coimbra é uma cidade com uma comunidade artística muito própria e uma cena musical alternativa fortíssima. De que forma é que o “espírito” da cidade com a concentração de mais jovens indie em Portugal, influenciaram a narrativa da vossa banda?

A nossa relação com Coimbra é um pouco complexa… Achamos que é uma boa cidade para se viver e para um certo grupo de pessoas fazer música e viver em torno desse universo (seja formando uma banda, ou indo a DJ sets, ou a concertos, ou fazendo bandas sonoras para filmes ou para teatro, ou simplesmente indo visitar uma loja de discos). Mas também nos custam alguns “inconseguimentos” sucessivos ao nível político mas não só, uma série de incoerências, e acima de tudo uma espécie de desbaratar do enorme potencial artístico-musical que a cidade naturalmente tem.

 

 

 

O novo disco dos Birds Are Indie, The Stone of Madness, já está disponível nas plataformas digitais.


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