Einstürzende Neubauten. A condição humana

Einstürzende Neubauten. A condição humana

Apesar do título do livro porventura mais conhecido de Hannah Arandt, ter uma outra conotação, a imagem de superação perante condições que, à priori, pareceriam limitativas num exemplo do que é a verdadeira condição humana, parece adequar-se à história dos Einstürzende Neubauten e, em particular, do seu vocalista, Blixa Bargeld. O vocalista e criador do icónico grupo, um dos fundadores da chamada música experimental, Einstürzende Neubauten, representa um dos exemplos práticos e vivos do engenho humano e da sua capacidade de transcendência.

Nascido em 21 de janeiro de 1959 num bairro que seria, dois anos depois, segregado na Berlim Ocidental aquando da construção do Muro de Berlim, Blixa, ou antes Christian Emmerich, sai de casa cedo, não concluindo a sua escolaridade. O contexto social e cultural de destruição e reconstrução do pós-guerra e do despontar da guerra fria faz com que Blixa personifique a posição de Walter Benjamin no seu ensaio de 1931 “Der Destruktive Charakter”, no qual a destruição é uma forma de abrir caminho à mudança e à potencialidade de novas hipóteses que podem surgir. De fato, tanto Benjamin, como posteriormente os Einstürzende Neubauten, não apoiam uma destruição cega nem grotesca, mas sim uma transformação requintada e insuspeita. Essa insurreição está, aliás, espelhada no próprio nome da banda que significa em português algo como “destruir novos edifícios”. O trabalho dos mais de 40 anos dos Einstürzende Neubauten é alicerçado na subversão e, primariamente, nesta “morte para a ressurreição”. Em primeiro lugar, pela voz de Blixa, que irrompe em gritos, sussurros e sons guturais que contrastam com metódicos silêncios, mas especialmente no uso do ruído como som disponível e passível de musicalidade e na disponibilidade de discursos musicais produzidos com “instrumentos” comuns ou “feitos pelos próprios” (carrinhos de compras, serras, bidões…).

O último concerto dos Einstürzende Neubauten, na passada quinta-feira, dia 19 de maio, na Aula Magna, em Lisboa, foi também montra da capacidade criativa do grupo que recorreu, como habitualmente, a estes estranhos instrumentos. Garrafas de vidro, pregos, um carrinho de supermercado, um artifício com varetas rotativas metálicas, tocado com o que pareciam ser vassouras de bateria, tubos metálicos… quase tudo serviu para mostrar a sua tentativa de romper com o concreto. Originalmente agendado para maio de 2020, depois reagendado para maio de 2021 e finalmente remarcado para maio deste ano devido à pandemia de Covid-19, os Einstürzende Neubauten não atuavam em Portugal desde 2015, no NOS Primavera Sound. O concerto de Lisboa foi um dos três agendados para Portugal, depois do concerto da Casa da Música, seguindo posteriormente para a Guarda, para apresentar o seu último disco, Alles in Allem.

 

 

Longe da sua aura mais negrume dos anos 80 e 90, os Einstürzende Neubauten apresentaram-se de forma minimalista num cenário branco com a música Wedding com Blixa e Alexander Hacke, um dos outros membros fundadores e baixista, vestidos a rigor, mas de negro e descalços. Apenas pontualmente a cenografia do concerto se alterou, como em Nagorny Karabach, inicialmente com um tom azul e em que as luzes desenharam sombras no palco, a remeter para um quadro sombrio dos vultos dos edifícios numa cidade. Grazer Damm foi outro dos pontos altos do concerto, com Blixa a recordar a rua da sua infância e as experiências em sua casa, num registo intimista entre a poesia e a spoken word, onde se sentia o vazio, a solidão, a amargura e as suas sombras da alma num presente que se vislumbrava cinzento.

Em Zivilisatorisches Missgeschick o público foi convidado a identificar cada uma das suas 11 partes. Cada um dos “subcapítulos” desta música foi desenhada através da retirada de temas aleatórios de um baralho de cartas que a banda inventou, numa tentativa de mostrar que a construção de música pode passar precisamente da destruição de fórmulas conhecidas ou impostas. How Did I Die?, Am Landwehrkanal, Ten Grand Goldie e finalmente Susej fecharam o alinhamento das 13 canções apresentadas, antes dos dois encores, numa set list igual ao dia anterior no Porto. Se o primeiro encore serviu para mostrar mais duas canções do álbum que motivou esta tournée The year of the tiger 2022 (Taschen e Tempelhof), o segundo deu direito à inspeção de novo material que estará a ser concluído e a uma das canções mais pedidas pelo público, Redukt, do álbum de 2000 Silence is Sexy.

Tal como os haikus, também a música parece ascender da capacidade de formar algo distinto e admirável, apesar das condicionantes do contexto. É nessa simplicidade complexa, que transforma meros sons da envolvência, ainda que frios e crus, numa melodia coesa e digna de contemplação, que faz os Einstürzende Neubauten um exemplo singular.

 


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