Dia 3 do NOS Alive: numa missão cumprida, a hipnótica Florence Welch e o regresso triunfante dos Buraka Som Sistema

Dia 3 do NOS Alive: numa missão cumprida, a hipnótica Florence Welch e o regresso triunfante dos Buraka Som Sistema

O retorno dos enormes Buraka Som Sistema e a célebre magia de Florence and The Machine esgotaram o último dia do NOS Alive, no que foi uma edição muito bem sucedida e com tantas novidades. Desde as estreias de Florence Road e Alessi Rose no Palco Heineken, às performances de Teddy Swims e Lorde no Palco NOS, eis a despedida deste ano do festival.

Ao início da tarde do terceiro dia do NOS Alive, o Palco Heineken testemunhou o futuro do rock com a atuação das irlandesas Florence Road. As quatro amigas de infância subiram ao palco sem receios ou inquietações ao estrearem-se num dia sob lotação esgotada. Já tendo aberto concertos de artistas como Olivia Rodrigo, Wolf Alice e Kings of Leon, a banda foi acolhida com grandes aplausos no palco secundário do festival. Ver uma plateia consideravelmente cheia em Portugal, a cantar os refrões de Florence Road quando o seu primeiro lançamento foi há tão pouco tempo, é um fenómeno que poucos conseguem atingir. Canções como ‘Break the Girl’ viralizaram na plataforma TikTok e desde então, a demanda por mais música e mais concertos vai aumentando. O decorrer da sua performance avançou sem tempos mortos, sem silêncio, e só prova o que têm andado a trabalhar ao longo dos anos, porque foi reconhecível o orgulho no olhar da vocalista Lily Aron ao ver uma multidão a cantar o último single ‘Hanging Out To Dry’, ou mesmo a balada ‘Heavy’. E em ‘Surprise Surprise’, o público português obedeceu às ordens da banda para dançar e cantar o mais alto possível. Quem diria que uma pequena banda da Irlanda, de raparigas com pouco mais de 20 anos, pudesse causar tanto aparato e diversão num palco? Afinal, não é preciso uma grande produção nem estéticas espalhafatosas para provocar um enorme impacto no público. Às vezes basta o carisma de vir de uma pequena vila e uma amizade de longa data para a relação com o público fluir e o concerto ficar na memória de cada pessoa presente.

No Palco NOS, Teddy Swims surgiu depois da atuação de Don West, que aqueceu o público para que o artista de ‘Lose Control’ tomasse as rédeas do festival. Muitas vezes é complicado estabelecer uma boa conexão com a plateia, quando a própria está à espera do artista que se segue, e no caso de Swims, a aposta infalível das suas melhores canções para o alinhamento do NOS Alive, até correu bem. O seguimento de ‘The Door’, ‘Are You Even Real’ e ‘Bad Dreams’ foi um bom presságio para o que se sucedeu. Um tempo bem passado numa viagem por influências de R&B e soul. Não sendo cabeça de cartaz, o artista americano ganhou certamente um bom número de fãs na tarde do festival português, e sendo a sua primeira vez no país, o público causou uma impressão memorável. Foi impossível ignorar a sua energia contagiante, e o facto de usar a quirkiness própria em seu favor torna o artista ainda mais adorado pela plateia.

A artista que seguiu no Palco Heineken, Alessi Rose, foi recebida pelos seus devotos fãs pré-concerto, num meet-and-greet informal em plena zona da restauração do festival. Rose, cantora britânica indie-pop, já abriu para artistas como Noah Kahan, Dua Lipa e Tate McRae e, desta vez, foi em nome próprio que levou os fãs ao rubro – mesmo numa tenda um tanto vazia. O seu entusiasmo e admiração total por Lisboa provocaram um impacto extremamente positivo na sua receção. A cantautora passou pelos vários singles bem-sucedidos da sua carreira, incluindo ‘eat me alive’ e ‘pretty world’, e ficou claro que estava confortável no palco português ao tocar os mais recentes temas ‘Skin’ e ‘Dependent’. No final, a ‘on my’, foi a mais aplaudida, e a música que os fãs estavam mais ansiosos por ouvir ao vivo – é considerado o seu maior hit desde 2024 e tem mais de 10 milhões de streams nas plataformas digitais.

Com o Palco NOS devidamente aquecido, começaram-se a aproximar os momentos mais aguardados de todo o festival: as atuações de Lorde, Florence and The Machine e Buraka Som Sistema. E foi precisamente com Lorde que elevou a fasquia. A artista da Nova Zelândia, entregou na última noite do NOS Alive, aquela que foi, sem dúvida, a performance mais conceptual e magnética desta edição. A combinação dos êxitos de “Pure Heroine” (2013), “Melodrama” (2017) e “Virgin” (2025), levaram o público numa viagem pela sua carreira ao longo de 13 anos. Agora com 27, Lorde refletiu sobre as suas origens, sobre a sua primeira passagem por Portugal há mais de uma década, e sobre a alegria de tocar antes de um nome que esteve sempre muito presente durante a sua vida. Se nestes três dias de NOS Alive houve apenas um concerto executado na perfeição, foi possivelmente o de Lorde. Num cenário minimalista, desprovido de grandes estéticas, apenas uma estrutura que mudava a iluminação consoante o tom dramático das canções, a artista surgiu e moveu-se em palco com uma entrega vocal irrepreensível. Seja pelos movimentos espasmódicos, ou o olhar intenso ao tocar ‘Shapeshifter’ e ‘Buzzcut Season’, Lorde fez do palco principal uma autêntica pista de dança. A abertura com ‘Royals’ e o alinhamento com ‘The Louvre’, ‘Liability’, ‘Team’ e ‘Ribs’, tocada no meio do público, refletiram a nostalgia coletiva e as saudades sentidas por atuar em Portugal. Foi um espetáculo cru e vulnerável, ao mesmo tempo que foi hiperativo e teatral – nada que não se esperasse de Lorde.

Enquanto Pixies tomavam conta do Palco Heineken, Florence Welch e a sua comitiva de músicos e bailarinas, subiram ao palco principal ao som gritante e ritualístico de ‘Everybody Scream’. Correndo de uma ponta à outra do palco, a cantora britânica de Florence and The Machine, enfeitiçou, desde o primeiro ao último segundo, o Passeio Marítimo de Algés. E não se deixou ficar pelo seu último lançamento – os grandes êxitos do início da sua carreira estiveram bem presentes e foram os mais brilhantes da noite: ‘Shake It Out’, ‘Spectrum’, ‘Rabbit Heart (Raise It Up)’ e ‘You’ve Got The Love’, fIzeram todos parte do início do espetáculo, metendo o público num transe absoluto. Ao quebrar a barreira e cantar com os fãs da primeira fila, olhos nos olhos, Florence relembrou-nos que nem todos os concertos servem para o único propósito de entreter – por vezes, encontramos artistas que atuam para curar algo dentro de nós. Um concerto de Florence and The Machine é isso mesmo, é mais do que uma simples performance. A transição de ‘Sympathy Magic’ para ‘Dog Days Are Over’ provou que apesar do cansaço, dá para elevar os ânimos ao apelar para a abstração dos telemóveis e das redes sociais, apenas por uma canção. Sem o habitual mar de ecrãs prontos para apanhar o vídeo perfeito de ‘Dog Days Are Over’, milhares de pessoas abraçaram-se, dançaram e viveram o final de um concerto libertador. Assistir à performance intemporal de Florence and The Machine é uma experiência inesquecível.

 

Não há espaço para cansaços no que toca ao concerto de encerramento da 18ª edição do NOS Alive. E se o nome é Buraka Som Sistema, muito menos. O momento mais aguardado do Passeio Marítimo de Algés, não foi apenas nostálgico, mas sim, histórico. Dez anos depois de anunciarem um hiato, levando caminhos individuais enquanto pessoas e artistas, os Buraka regressaram a casa. A banda escolheu o Palco NOS para um concerto único, resultando num reencontro geracional na maior pista de dança a céu aberto de Lisboa. Parar de tocar não significa esquecer, e o público fez questão de nunca parar de dançar ao recordar o som de ‘Hangover (BaBaBa)’ e ‘Stoopid’. As grandes ‘Yah!’, ‘Wawaba’ e ‘D…D…D…D…Jay’ trouxeram Petty ao palco para reviver a génese do kuduro eletrónico, e, mais tarde, Deize Trigona para “Aqui para vocês”. E as surpresas não pararam por aí, tocaram ao vivo a inédita “Puro Mambo” e o prelúdio da mítica ‘Kalemba (Wegue Wegue)’ foi declamada em formato poético por Ricardo Araújo Pereira, num vídeo passado em palco. Com Blaya a partir tudo nas danças e espargatas, não houve um único momento insosso ou ameno. Com Buraka Som Sistema como cabeça de cartaz há a certeza reconfortante de que será estrondoso, e tudo menos aborrecido. A madrugada pertenceu totalmente à banda portuguesa de kuduro progressivo, e a edição de 2026 do NOS Alive também.

Nota da redação: Não nos foi autorizado fotografar os concertos de Lorde e Florence + The Machine, e por isso não iremos usar nenhuma foto destes dois espetáculos nesta reportagem.


Ainda não és nosso fã no Facebook?


Mais sobre: Alessi Rose, Buraka Som Sistema, Florence + The Machine, Florence Road, Lorde

  • Partilhar:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *