6 Fev 2016 a 19 Mar 2016

David Fonseca no Sons de Vez – Futuro Eu sobe ao palco (e não só)

David Fonseca foi ao norte, o Sons de Vez acolheu-o numa noite fria e chuvosa, mas quem foi ao concerto saiu quentinho.

Imagine-se um cenário onde incide uma luz ténue alaranjada, onde se vislumbram duas enormes mãos, uma delas segurando uma maçã à qual foi dada uma trinca, a outra um pequeno barco. No centro, várias telas onde são projectadas imagens. À direita, num pequeno palanque, a bateria e o sintetizador. Imagine-se ainda uma sala repleta de fãs, num dia chuvoso e frio de Inverno.

Era este o cenário às 23:03, quando David Fonseca, músico e compositor, mascarado com o seu próprio rosto em formato gigante, e a sua banda entraram no palco da sala de espetáculos da Casa das Artes em Arcos de Valdevez, para brindar o público com quase duas horas e quinze minutos de canções.

Numa tournée para apresentação do seu mais recente álbum, Futuro Eu, escrito ao longo de várias semanas na casa da sua Avó, em Peniche, o espetáculo, cheio de cor, animação e improviso, foi muito mais do que isso. Seguindo o músico leiriense, a plateia deixou-se guiar, viajando por mais de 12 anos de composições arrojadas, melódicas e inebriantes, onde houve tempo, inclusive, para revisitar os Silence 4.

E foi em português, precisamente com o tema que dá nome ao último trabalho, que iniciou o espetáculo, munido de uma pandeireta, berrando um claro “Faz do futuro o presente”. No meio da música, aproveitando a semelhança dos acordes, em homenagem ao recentemente falecido David Bowie, recordou o Let’s Dance, para gaudio dos espetadores. Depois, ainda em português, seguiram-se o “Chama-me que eu vou” e o “Não dês só para tirar”.

Regressando ao álbum “Between Waves”, ouviram-se os acordes de “A cry 4 love”, tema integralmente cantado em inglês, desta vez recorrendo ao uso de uma guitarra elétrica. Enquanto a música encantava os presentes, que acompanhavam com palmas os ritmos impostos pela bateria de Sérgio Nascimento, nos ecrãs meticulosamente alinhados, chuva e relâmpagos insistiam em cair num jardim carregado de verde.

Mais tarde, já de guitarra acústica, acompanhado apenas pelo sintetizador, travou o primeiro diálogo com o auditório, criando uma analogia entre os seus ensaios musicais e os treinos de um clube de futebol. Criou então um cenário hipotético em que, durante um ensaio, anunciava em conferência de imprensa que, em virtude de o mesmo estar a correr bem, adivinhar-se-ia um excelente concerto no Centro Cultural de Belém! Foi o suficiente para arrancar fortes aplausos e gargalhadas da multidão, horas depois de o seu Benfica ser derrotado em pleno Estádio da Luz pelo rival F.C. Porto.

Com “Someone that can not love”, do álbum “Sing me something new”, segundo o próprio, uma das suas preferidas, conseguiu mais uma grande ovação, nota clara de que os que ali se deslocaram há muito seguiam a sua carreira.
A dobrar a primeira hora de espetáculo, com a presença dos elementos integrantes da banda, seguiram-se o “Deixa ser” e o “Kiss me, Oh Kiss me”, do álbum “Dreams in colour”.

Depois, em mais um grande momento, após um discurso que visava desinibir os presentes, onde referiu que não devemos preocupar-nos quando as pessoas usam os cotovelos para chamar os vizinhos, convidando-os a observarem-nos e a reprovarem o nosso comportamento, cantou o “Superstars II”. O discurso surtiu efeito, afinal de contas, pela primeira vez, alguns dos espetadores, extrovertidos, saltaram das cadeiras e, hipnotizados, bailaram energicamente até à exaustão.

Outro dos momentos altos da noite ocorreu quando, durante o tema “Stop 4 a Minute”, destemido, audaz, desbravou o pequeno auditório, furando aleatoriamente uma das filas e saltando para cima de uma das cadeiras, onde ficou a atuar durante cerca de dois intensos minutos, coroados, a final, com uma merecida ovação em pé.

Antes ainda de se despedirem ao fim de uma hora e meia de espetáculo, houve tempo para, em mais uma interação com o público, contar como, estranhamente, enquanto comprava umas farturas numa roulotte na sua aldeia natal, bem pertinho de Leiria, foi confundido com o irmão de Romana, Sérgio Rossi. Mais uma vez, risadas ecoaram pela sala.

Regressou pouco tempo depois com a sua banda, para mais um rol de canções, explicando que aquele encore era falso, afinal de contas já estava previsto na Setlist. Recomeçou com o tema “Sem aviso”, que acabou por não fazer parte do último álbum. Mas foi com o “What life is for” que se viveu mais um momento de grande intensidade e magia. Desde o palco, começou a ser desfraldada uma gigantesca bandeira com as cores nacionais, que foi percorrendo todo o auditório até o mesmo se encontrar, na íntegra, pintado de um verde e vermelho flutuante, enquanto o público, em delírio, entoava um sonoro e poderoso “Ohh-ohhh-ohhhh”!

Depois, a farra continuou, com o “In the 80’s”, onde centenas de corpos se tornaram autónomos e, de forma incontrolável, balançaram e rodopiaram num frenesim eufórico, enquanto nos ecrãs se vislumbravam imagens de cassetes. Eu próprio, confesso, deixei-me levar!

Mas as surpresas não terminavam por aí. Já alguns se preparavam para abandonar a sala de espetáculos nortenha, quando David voltou, desta vez para um encore a sério. Assim, a média luz, com uma guitarra acústica ao ombro, para surpresa e euforia dos presentes, perguntou: o que querem ouvir?

“Canta o Rocket Man”, gritou alguém da plateia. Contudo, o músico não lhe fez a vontade. Pelo contrário, confessou a sua admiração por Elvis Presley e Abba, dedilhando a guitarra e interpretando, primeiro o One of Us e, depois, o Can’t Help Falling in Love.

Já com os restantes membros da banda em palco, surgiu a vigésima canção da noite. Com toda a plateia de pé a cantar em uníssono, ouviu-se, finalmente, Borrow, dos Silence 4, em mais um momento que tão cedo não será esquecido pelos arcoenses que ali se deslocaram.

Era já uma e um quarto quando se ouviu a última canção da noite, “Agora é a nossa vez”, do novo disco. Depois… bem… Ligaram-se as luzes, a banda despediu-se sob uma estrondosa ovação em pé e, seguramente, com a sensação do dever cumprido.

Fica a certeza, foram duas horas e quinze minutos de um espetáculo eletrizante, com David Fonseca a evidenciar as suas características de entertainer, tendo conquistado definitivamente os que, numa noite fria e chuvosa, se renderam ao seu talento naquela sala de espetáculos!

Nuno Samões  

Nuno Samões, 22 anos, rapaz ávido e dedicado ao trabalho na área de fiscalidade, frequenta actualmente o curso de Economia. Para além da matemática e dos números em geral, nutre paixões por poesia, percussão, livros, cinema e, essencialmente, música, desde que seja boa, claro. Os tempos livres reparte-os entre livros, copos e espectáculos e, quando a inspiração aparece, escreve uns gatafunhos nuns blocos de notas!


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