Chamar lufada de ar fresco ao álbum de Rosalía é eufemismo: “LUX” é luz, não necessariamente ao fundo do túnel, mas é luz.

© Rosalía
Ouvimos uma, duas, três vezes o novo álbum de Rosalía. “LUX” não é um álbum óbvio, mas também Rosalía não o é – e ainda bem. Numa altura em que muitas vezes parece que a música é sempre a mesma, todos os lançamentos são iguais, o pop é chiclete, o hip hop é auto-tune, o country é Taylor Swift (sem qualquer dedo a apontar a nenhuma destes estilos ou artista), chamar lufada de ar fresco ao álbum da catalã é eufemismo.
“LUX” é luz, não necessariamente ao fundo do túnel, mas é luz. É fé a Deus para o mais ateísta ser. É português, inglês, catalão, alemão, italiano. É latim, francês, islandês, espanhol e até japonês. E árabe! “LUX” é estar imerso num segundo, e no momento a seguir ser arrebatado por uma batida não esperada. É flamenco, é música clássica, é rap, é tanta coisa que nem conseguimos classificar.
Sempre que ouvimos que Rosalía vai lançar projecto novo, sabemos o que não esperar – o básico e o óbvio – mas não fazemos ideia do que vamos receber. O novo registo deixa a pop totalmente para trás e lança-se em mar aberto, em águas pouco navegadas, com uma maré revolta e tempestuosa. Foi gravado com a London Symphony Orchestra e conta com participações como Björk, Silvia Peréz Cruz e Carminho, este é o quarto álbum da artista catalã — e o primeiro desde Motomami — e promete não deixar ninguém indiferente.
“LUX” traz-nos uma Rosalía reinventada. Sem medos ou receios. Vai a jogo tenha ou não trunfos – e ganha sempre. Da artista sempre fomos habituados ao não expectável, ao “eu faço o que eu quero”, seja na rebeldia das unhas compridas, seja nos grillz dos dentes. E de todas as vezes somos pura e simplesmente arrebatados. Se é consensual? Não. Se toda a gente cai aos seus pés numa primeira audição? De todo. Mas eventualmente acabamos todos por lá chegar.
Rosalía já nos habituou à sua facilidade de surfar várias ondas sonoras — do flamenco à pop, da música eletrónica à salsa ou ao mambo, com ela já ouvimos de tudo… ou achávamos nós. O flamenco foi o seu ponto de partida, mas nunca o seu limite. Em “LUX”, essa inquietação ganha nova forma: há ecos do passado, mas misturados com algo que escapa ao que achávamos conhecer. O tradicional surge desfeito e recomposto (ou será descomposto?), o pop aparece disfarçado entre arranjos grandiosos e harmonias orquestrais que se expandem como se procurassem outro corpo para habitar.
Há um evidente namoro com o sagrado — a luz divina, culpa, carne, redenção — mas não no sentido literal de mantos brancos, querubins e coro angelical; sim no sentido simbólico, visceral – quase uma crucificação. “LUX” traz-nos vulnerabilidade, força, ataques (e nada pouco óbvios) a ex-companheiros de vida (sim, estamos a falar da faixa “La Perla” e do ex-noivo Rauw Alejandro), mas acima de tudo reinvenção.
Momentos fortes? O dueto com Carminho, onde canta em português com a fadista; o momento com Björk e Yves Tumor, que nos obriga a uma pausa quase que espiritual; e o encontro com Estrella Morente e Silvia Peréz Cruz que nos leva novamente à Rosalía de El Mal Querer, de flamenco ao peito e palmas ao alto.
Rosalía é o nosso copo de Sauvignon Blanc: ácida mas refrescante, jovem, de sabor forte e de uma casta “superior.” Poucos artistas podem – e conseguem – fazer o que Rosalía faz. E que bom que isso é.

