Bob Dylan & His Band no Coliseu: Bem-vindos a Casa!

Bob Dylan & His Band no Coliseu: Bem-vindos a Casa!

Já lá vão 26 anos desde a primeira vez que tocou em Portugal, e foi aqui mesmo, no majestoso Coliseu do Porto que o fez. Desde então, Bob Dylan voltou a Portugal mais vezes, mas pareceu sempre deixar o público dividido. Contudo, no dia 1 de Maio acabaram-se as opiniões divisas…

Este artista não precisa de apresentações, certo? Não é preciso referir que já conta com mais de 50 anos de uma invejável carreira, ganhou um prémio Nobel da Literatura que quase preteriu e é o mais importante músico em nome próprio vivo e em atividade. Afinal, todos nós sabemos quem é Bob Dylan e o que a sua obra-prima universal representa no espectro musical.

Também já sabemos que a voz do mesmo em já nada se assemelha aquela voz de menino de folk-rock de protesto. Agora, com já quase 78 anos, apresenta um timbre muito maduro e abrasivo, que lhe confere uns graves que outrora não existiam. E o alinhamento das 20 canções que escolheu para a sua Never Ending Tour de 2019, também não fugiu do previsto.

À sua espera, estava um Coliseu de lotação esgotada com 5 gerações representadas (tal não fosse o alcance deste artista…). Sobre um palco sóbrio, apenas embelezado por holofotes oldschool que lhe conferem um ar intemporal, assim entrou Dylan e a sua banda. A atuação iniciou-se com a Things Have Changed do álbum Modern Times(2006) e não há canção com título mais apropriado do que este para se iniciar o concerto e, saber prontamente onde este se insere no séc. XXI. Durante quase duas horas, viajamos por décadas de sucessos, com arranjos bastante mais blues do que folk e, que não nos permitem acompanhar nas cantorias mas sim ficar ali perdidos a vislumbra-lo.

E os membros da sua banda? Exímios. Que não reste sombra de dúvida da qualidade musical de quem o acompanha. Encontramos um Charlie Sexton sempre seguro de si na guitarra, George Receli na bateria deixou-nos um sorriso de orelha a orelha (principalmente naquele solo da Early Roman Kings). Igualmente de parabéns estão os dois multi-instrumentistas Tony Garnier e Donnie Herron. Enquanto Tony foi alternando entre o baixo eléctrico e o contrabaixo (dedilhado e com arco), Donnie não deu tréguas entre o pedal-steel, mandolim e até o violino. Até o próprio cantor, para além de quase não se largar do piano, mostrou ainda ter uns valentes pulmões com a sua fiel harmónica destacando-se sobretudo na Don’t Think Twice I’ts Alright.

Bob Dylan pode não ser o típico entertainer. Também já sabemos que não diz “Olá” nem “Adeus”. Mas precisa? Não foi bastante notório o apreço pelo público entre canções? Enquanto deambula de forma desajeitada e carismática pelo palco, enquanto toca piano tanto de pé como sentado? E até enquanto levanta os braços, numa forma de sentir e agradecer aqueles magnânimos aplausos? E para que é necessário perder tempo a falar com o público, se toda a sua poesia fala por si? Foi mais do que suficiente o que nos disse com os temas mais celebrados do concerto como: When I Paint My Masterpiece, Scarlet Town, Make You Feel My Love, Thunder on The Moutain e até Like A Rolling Stone (que para além de aplausos lhe valeu imediatas ovações de pé).

Talvez para alguns o norte-americano seja visto como uma grande diva, que não permite fotografias e até o público está avisado para não utilizar o telemóvel durante o espetáculo. Mas em relação à proibição de telemóveis, talvez não seja algo tão disparatado assim. A dado momento, constatamos uma sala atenta. Não está ninguém, repito, ninguém, mais de meia hora com um Android no ar a fazer insta-directs que só 15 dos seus 800 fiéis seguidores vêm. Isto é raro. Muito raro. E convém ser apreciado. Afinal, vamos a este tipo de concertos para ver e ouvir música a ser feita na hora. E a experiência foi ainda mais magistral do que há um ano.

Para encore ninguém saiu do palco. Ficaram todos brilhantemente reunidos na escuridão da sala, aguardando as ovações de um público que não se podia ter mostrado mais entusiasmado. E assim nos deixaram com dois já esperados hinos: Blowin’ In The Wind, na qual Donnie Herron tão brilhantemente aprimorou com o violino, e It Takes a Lot To Laught, It Takes A Train To Cry. O adeus não se deu por palavras, mas sim por gestos, por acenos e vénias humildes em tom de despedida. Inclusive, tivemos direito a que nos atirasse dois calorosos beijos, com uma cara totalmente emocionada.

Não é hiperbólico afirmar que o espetro do seu trabalho e influência atingiu quase toda a música contemporânea. Assim como o seu legado poético e musical são parte sólida dos pilares da cultura dos séculos XX e XXI. E reconhecemos a legitimidade de quem não o aprecie, mas é impossível não lhe reconhecer a tamanha relevância. Obrigado Bob! Obrigado por tudo!

 

N.R.: Por opção do artista não foi possível fazer reportagem fotográfica este concerto, ou em qualquer outro da actual tour.

Ana Duarte  

É uma criatura nortenha, mas sem pêlo na benta. Tem uns pais malucos que a levaram ao primeiro concerto com 3 anos e ao primeiro grande festival de música aos 9. Desde então, nunca mais quis outra vida.


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