Back in (Axl) Rose – Reportagem no concerto dos AC/DC em Lisboa

Muita tinta se escreveu à volta deste concerto, quando se soube que Axl Rose iria assumir a responsabilidade de dar a voz à mítica banda formada em 1973. São muitos anos de altos e baixos, sempre com muito rock’n’roll à mistura. E com chuva: o sábado amanheceu com ares de inverno e assim permaneceu até à hora do concerto. Mas nada disso impediu cerca de 60 mil espectadores que se dirigiram ao Passeio Marítimo de Algés para um concerto, no mínimo, inédito.

Este foi o primeiro com o vocalista dos Guns N’ Roses, de 54 anos e que teve características únicas (e históricas!) que foram determinantes, até pela presença de muita imprensa internacional, para o sucesso da restante digressão Rock or Bust.

AC/DC Lisbon

Os milhares de fãs que marcaram presença em Algés conferiram um colorido raro à plateia: a juntar-se aos históricos chifres luminosos que caracterizam a banda, os fãs, proibidos pela organização de levarem guarda-chuva, pareciam grupos de gnomos, capuchinhos-vermelhos e estrumpfes nas suas divertidas capas de chuva. Chuva que parou mesmo no final da primeira parte com Tyler Bryant.

A noite começa com a música que dá nome à tour e ao álbum editado em 2014. Antes disso, são os cartoons que enchem os ecrãs com um meteorito a chegar à Terra. É visível a vontade de Axl em se aproximar do registo vocal de Brian Johnson: nalguns momentos é bem sucedido, como nas quatro primeiras e até Back in Black. A partir daí, fica um bocadinho aquém e é estranho: ficamos na dúvida se estamos no concerto de um ou de outro. Quase que dava vontade de perguntar: “Então e vão tocar o Paradise City?”.

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O concerto volta a entrar pelo álbum de 2014, Got Some Rock & Roll Thunder, mais morno para depois animar com ‘Thunderstruck’, que causa boa impressão novamente. Há gente de todas as idades em Algés mas esta não deixa ninguém indiferente.

Os AC/DC aprenderam, ao longo de mais de 40 anos de carreira, a superar dificuldades, mortes, doença, problemas com drogas e tantos outros momentos cinzentos na sua história. Ainda assim, temos que lhes tirar o chapéu (ou os chifres luminosos) pelo facto de conseguirem algo do qual poucos se podem gabar de ter alcançado: não desiludem os fãs. Quem gosta da banda australiana parece estar para durar e manter-se fiel por muito tempo. E os rapazes, sabendo disso, também, optaram (e bem!) por dar um concerto onde recuaram muitas décadas para brindar os fãs que, estoicamente, se aguentaram à chuva, seguida do frio e do cansaço extremo no regresso, com momentos como Rock ‘n’ Roll Train, Hell’s Bells ou a eterna You Shook Me All Night Long. De referir que Angus Young arranca um dos grandes momentos de excitação dos fãs ao tocar a guitarra, por uns instantes, com a sua gravata.

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T.N.T. já surge com Axl Rose a dar sinais de cansaço, mesmo tocando sentado devido à lesão no pé, mas a tentar falar simpaticamente com os fãs: «Sabiam que os AC/DC são líderes na exportação de chifres?». Há piadas a fazerem-se, claro.

O concerto começa a encaminhar-se do fim, não sem antes termos direito a riffs, solos e toda a demonstração da quase assustadora energia que ainda vive dentro do magrito Angus Young. Branquinho, com aquele ar alucinado que tanto nos diverte, mas sempre pronto a salvar cada momento mais mortiço da noite. Foi assim até ao fecho com Let There Be Rock. Há queixos caídos, sim senhor, que começaram a descair ainda antes desse fecho, quando Whole Lotta Rosie viu subir ao palco uma insuflável muito gorducha pin-up de pouca classe.

Axl Rose ainda vem pelo seu próprio pé despedir-se com Highway to Hell, Riff Raff, que já tinha sido anunciada como uma das possíveis surpresas para Lisboa, já que o grupo não a tocava desde 1996 e o adeus com For Those About to Rock (We Salute You).

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Seguiu-se uma penosa jornada de duas horas a pé para conseguir sair do recinto. Para quem esteve naquele mesmo sítio, em julho de 2015, no NOS Alive, esta caminhada não constituiu uma novidade. Sentimo-nos uma espécie de peregrinos ao contrário, para quem a caminhada acontece após o momento de culto e no regresso a casa. Neste caso, com a alma e o coração cheios de rock.

A banda segue agora a sua digressão por terras de nuestros hermanos, com um concerto em Sevilha, já no dia 10 de Maio.

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Fotos: Alexandre Antunes / Everything Is New

Joana Rita  

Joana Rita é filósofa, criadora de conteúdos, formadora e investigadora. Ah! E uma besta muito sensível.


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